quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Se é que teremos um ano novo em 2010

Pitadas da minha inquietação para você ler, refletir e, se desejar, comentar

“Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente”.
Carlos Drummond de Andrade, poeta imortal

Passei muitos dias e muitas noites tentando escrever esta que será a última coluna de 2009. Vi-me no mesmo impasse que reduziu minha produção rotineira. Não me entendia sobre o tema e nem mesmo sabia por onde começar.
De certa forma, o caos se abateu sobre meu cérebro invariavelmente nervoso. No diagnóstico, a mais angustiante sensação de impotência. A idéia de uma inutilidade imersa num pântano paralisante.
Seria hora de parar? Perguntei-me mais de uma vez.
Render-me jamais, respondia.
Diante de mim, no entanto, um quadro traiçoeiro e torpe faz-me permanecer afogado em dúvidas. Dúvidas atrozes, diria.
Não tenho barômetro, nem termômetro. À distância, vou de um extremo a outro na minha própria medição de cada passo, de cada palavra, de cada opinião.
Temo pelo volume avassalador de pessoas empedernidas. Que parecem blindadas por todo tipo de defesa, construída inconscientemente com ingredientes da intolerância e a férrea convicção de que só existe uma verdade - a sua.
Pessoas a quem agradamos, quando afinados com suas idéias pétreas. A quem ofendemos quando tocamos em alguma fenda que povoa suas fantasias e alimenta sua razão de viver.
Poucos, cada vez mais raros, são os que aceitam reavaliar o que acumularam como únicas e incontestáveis verdades. Parece que estamos num ambiente de torcidas apaixonadas, para as quais o juiz não erra, se marcar um gol de impedimento a seu favor. Mas deve ser linchado se cometer um descuido que prejudique suas cores.
Ao longo da minha vida, procurei encontrar a resposta mais consistente em qualquer conflito. E nunca me senti fraco ao reconhecer que certa opinião não era bem o que pensava.
Acho mesmo que errei mais do que acertei, em função do meu voluntarismo e da precipitação nas atitudes, movidas muitas vezes pelo emocional.
Mas confortou-me a certeza de que sempre agi de boa fé, procurando fazer da minha capacidade de comunicação, da facilidade de escrever e falar um exercício de doação, alimentada pelo mais puro idealismo.
Só não sei se ainda estou sincronizado com o tempo. Se não estou escrevendo para mim mesmo, como sobrevivente de um sonho que acabou.
Se e estou apenas vomitando a pusilanimidade e a hipocrisia dos homens, como rejeição inevitável imposta exclusivamente pela minha natureza, por minhas vulcânicas idiossincrasias.
Seja o que for, neste momento em que o calendário vira o ano, compartimentando artificialmente nossas vidas, faço votos para que saiamos todos de nossas balizas defensivas e busquemos no porvir mais do que a satisfação de nossas próprias ansiedades. De nossas ambições instintivas.
Há tanto que podemos mudar para o bem de toda a humanidade, da qual, se quisermos, seremos mais do que mero grão de areia.
Há injustiças e perversidades que nossa voz pode coibir.
Há males que não se sustentam, senão pela nossa omissão e pela leitura personalista que fazemos dos acontecimentos.
Às vezes, há gestos tão simples que podem ser decisivos.
Como parar para pensar o porque de vândalos se dedicarem como ofício a danificarem estátuas e a picharem prédios e monumentos sem qualquer mensagem, a não ser a aberração que parece ser a essência destes dias destituídos de valores e de compromissos.
Porque, se quanto a mim, ver tais pichações se afigura de uma gravidade deprimente, para a maioria das pessoas, no entanto, passam como se parte de uma leve aquarela lúgubre incorporada naturalmente à vida das cidades.
Talvez seja isso que me abala a própria alma crítica, afetando a expectativa de que mudar para melhor e alcançar a sociedade justa e verdadeiramente humana ainda é possível.



Prédio tombado e tomado por pichações idiotas, visual comum em nossas cidades : nada mais deprimente.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Para os que acham que Papai Noel não existe

“O ministro Arnaldo Esteves Lima errou e minou, com a sua decisão, a segurança social, pública. Suspender toda a atividade policial diante de um oceano de indicativos de crimes graves, representa, no mínimo, um ato temerário, data vênia. Uma inversão tumultuária, contra o prevalente interesse público e à luz de veementes indícios de gravíssimos crimes”.
Wálter Fanganiello Maierovitch, jurista e professor.
“No processo dessa repercussão, reflete no senso comum aquela conclusão clássica: os poderosos no Brasil dificilmente vão para a cadeia. Os poderosos no Brasil são inatingíveis pela Justiça”.
Tarso Genro, ministro da Justiça.


Papai Noel chegou primeiro para o banqueiro Daniel Dantas, com a insólita decisão do ministro do STJ Arnaldo Esteves Lima, por irônica coincidência, o mesmo que, na véspera do natal passado, negou a mesma liminar que concedeu agora, atendendo a recurso impetrado no último dia 9, sob os mesmos argumentos de 2008, numa desprezo pelas incontestáveis investigações conduzidas pelo agora amaldiçoado delegado Protógenes Queiróz, que resultaram em corajosas e irrefutáveis decisões do juiz federal Fausto Martin De Sanctis, incluindo uma condenação do meliante milionário a dez anos de prisão.
O que levou o ministro a mudar de opinião? Por prudência, considerando o quadro de nossa Justiça, nada poderá ser especulado. Qualquer dúvida pode resultar num processo de danos morais, em que o ofendido reclamará dez vezes o que ganha por mês numa causa a ser decidida por seus pares.
Mas o certo é que no dia 16 de dezembro de 2008, o mesmo ministro, mineiro do Vale do Jequitinhonha, no STJ desde 2004, tomou decisão oposta a deste dezembro de calor insuportável. Naquele então, sua recusa só foi divulgada no dia 7 de janeiro. Por que? Também não me pergunte.
Entre uma decisão e outra, o ministro Arnaldo Esteves Lima também chocou as pessoas atentas, em abril de 2009, ao determinar a soltura do fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, mandante do assassinato da freira norte-americana Dorothy Stang, em 12 de fevereiro de 2005. Preso no dia 7 de abril, enquanto aguardava seu terceiro julgamento (foi condenado a 30 anos no primeiro e absolvido no segundo) o fazendeiro ganhou a liminar de soltura no dia 22 de abril de 2009.
Detonando um inquérito irretocável
Na decisão deste pré-natal, no limiar do recesso judiciário, o ministro atendeu a todas as exigências da defesa e garantiu o sono do banqueiro pelo menos até 2 de fevereiro, quando a Justiça volta a trabalhar. E abre caminho para tornar sem efeito todo o trabalho da Polícia Federal e do Ministério Público, possibilidade com que já conta o banqueiro travesso, se o processo for parar no Supremo Tribunal Federal.
Nesse caso, os fatos falam por si e demonstram o que sempre disse, porque sofri na pele e sou testemunha viva do abuso da hermenêutica: ou a sociedade reage com coragem e disposição, ou estaremos todos expostos a decisões estapafúrdias de um poder intocável, cujos titulares têm toda a cobertura do artigo 95 da Constituição, que lhes garante vitaliciedade e inamovibilidade até as setenta primaveras.
A decisão do ministro do STJ tem alcance ilimitado. Bloqueia qualquer ato relativo à Satiagraha, inclusive a ação penal que culminou na condenação de Dantas a 10 anos de prisão por crime de corrupção ativa - sentença imposta por De Sanctis, em novembro de 2008, que era alvo de apelação da defesa perante o Tribunal Regional Federal da 3ª Região.
Está suspenso também o processo principal da Satiagraha - em que Dantas foi denunciado pela Procuradoria da República por crimes financeiros, evasão e lavagem de dinheiro. A acusação teve base no inquérito da Polícia Federal, inicialmente dirigido pelo delegado Protógenes Queiroz, depois restaurado pelo delegado Ricardo Saadi.
Inquéritos podem ir para o lixo
A liminar de Esteves Lima, relator do habeas corpus impetrado no dia 9 pelos advogados de Dantas, tem impacto até sobre outros três inquéritos que a PF abriu a partir de decreto de De Sanctis.
Até julgamento de mérito, a Satiagraha está congelada e De Sanctis não poderá baixar nenhum ato, nem mesmo medida cautelar - buscas, interceptação telefônica ou quebra de sigilo. Fica sobrestada ainda a cooperação internacional - os EUA estavam ajudando a rastrear supostas contas do banqueiro no exterior.
A determinação do ministro foi lançada no sistema eletrônico do STJ às 20h52 da sexta-feira. Por telegrama, ele comunicou sua decisão aos 35 minutos do sábado à desembargadora Marli Marques Ferreira, presidente do Tribunal Regional Federal. A mensagem é taxativa. "Proferi decisão deferindo a liminar para determinar o sobrestamento da apelação criminal, da ação penal e de outros procedimentos sujeitos ao provimento jurisdicional do referido magistrado até o julgamento de mérito deste habeas corpus."
Por meio do habeas corpus, a defesa de Dantas alega que o juiz, titular da 6ª Vara Criminal Federal de São Paulo, é suspeito para conduzir a Satiagraha.
O embate entre os advogados de Dantas e o magistrado se arrasta desde julho de 2008, quando o banqueiro foi preso por duas vezes consecutivas - nas duas oportunidades, o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), mandou soltá-lo.
O julgamento do mérito do habeas corpus poderá ser colocado em pauta a partir de fevereiro. Mas é provável que o caso fique mesmo com o STF, que dá a palavra final em matérias constitucionais.
Um juiz sério sob pressão das altas cortes
No bojo desse arrasa quarteirão, o juiz Fausto de Sanctis foi mais uma vez punido por sua intransigente defesa da Lei. Três dias antes, ele havia sido afastado da condução do processo que envolve a MSI e o Corinthias em sonegação e evasão de divisas. Foi objeto também de ações contra ele patrocinada pelo ministro Gilmar Mendes, que mandou soltar Daniel Dantas duas vezes, contrariando fundamentadas ordens de prisão assinadas por ele.
Ao comentar a decisão, Tarso Genro reconheceu que o sentimento de que os poderosos são intocáveis, mas mordeu e assoprou ao livrar os ministros do STJ da responsabilidade pela suspensão da Operação Satiagraha. Disse que eles agiram dentro da lei e que é preciso, antes de mais nada, uma mudança na lei.
- Obviamente algo tem que mudar na estrutura processual penal brasileira para que essas coisas não se repitam de maneira frequente, gerando essa visão de impunidade que, em última análise, se dirige para pessoas de alto padrão aquisitivo no país.
É curioso que decisões de tal alcance sejam tomadas exatamente no longo recesso da Justiça que, ao contrário da massa, têm férias de 45 dias no final do ano e outro intervalo no meio do ano, embora 70 milhões de processos se arrastem em seus meandros ante a complacência da quase totalidade dos advogados, para os quais, aliás, perdoem-me a franqueza, “a pressa é a inimiga da perfeição”.
Resta saber se este país já se rendeu de vez à terrível sensação de uma Justiça que agride os fatos com suas sujeições às manobras de advogados ladinos, numa triste constatação de que o código do processo se sobrepõe invariavelmente ao imperativo da lei substantiva.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Camargo deu propina a 200 políticos, diz PF

Relatórios citam deputados, secretários e conselheiros e ministros de Tribunais de Contas como supostos beneficiários
Autoridades que gozam de foro privilegiado têm nome retirado de processo sobre construtora, pois só podem ser julgados por STF ou STJ
MARIO CESAR CARVALHO e  LILIAN CHRISTOFOLETTI
 FOLHA DE SÃO PAULO

A relação de políticos suspeitos de terem recebido propina da empreiteira Camargo Corrêa já ultrapassa 200 nomes, segundo relatórios da Operação Castelo de Areia da Polícia Federal. Estão na lista deputados federais, secretários municipais e conselheiros e ministros de Tribunais de Contas, segundo a Folha apurou.
Esses nomes estão sendo separados do processo sobre a empreiteira porque os supostos envolvidos gozam de foro privilegiado e não podem ser investigados por procuradores nem julgados pela primeira instância da Justiça.
Quando estiver pronta, a listagem será encaminhada pelo Ministério Público Federal à Procuradoria-Geral da República, em Brasília.
A Procuradoria, por sua vez, deve enviar cópias de toda a documentação ao STF (Supremo Tribunal Federal), ao STJ (Superior Tribunal de Justiça) e aos tribunais regionais federais, instâncias que têm poder de investigar políticos que ocupam cargo eletivo.
O advogado da Camargo Corrêa, Celso Vilardi, diz que não teve acesso aos documentos reunidos pela PF e, por isso, não comentaria o suposto pagamento de propina. Ele classificou de "criminoso" o que chamou de "vazamento de informação".
A lista do pendrive
Todos os nomes de políticos e funcionários públicos foram encontrados em planilhas que estavam armazenadas em um pendrive ou em pastas apreendidas na sala de Pietro Francesco Giavina Bianchi, diretor da Camargo Corrêa.
Bianchi é um dos diretores da Camargo Corrêa acusados pelo Ministério Público Federal de lavagem de dinheiro com origem em corrupção passiva e ativa e evasão de divisas.
Ontem, a Folha revelou que a acusação atinge Darcio Brunato e Fernando Dias Gomes, além de Bianchi.
Na denúncia (acusação formal) contra os diretores, a procuradora Karen Louise Jeanette Kahn diz que a Camargo Corrêa pagou cerca de R$ 4 milhões em propina para conseguir vencer duas licitações e para mudar a legislação sobre uma área no município de Caieiras, na Grande São Paulo, no qual a construtora fez um empreendimento imobiliário.
As licitações eram para a construção de cinco hospitais no Pará e a produção de 23 embarcações para a frota da Transpetro (Empresa Petrobrás de Transporte) no Estado do Rio de Janeiro. A Transpetro disse em nota que seguiu as recomendações feitas pelo Tribunal de Contas da União.
No caso dos cinco hospitais, construídos em Belém, Santarém, Breves, Redenção e Altamira, Kahn diz que papéis apontam que a suposta propina foi paga ao PT e ao PMDB.
A Folha apurou que o PT aparece nos documentos como beneficiário de R$ 230 mil e o PMDB, de R$ 130 mil.
Os cerca de R$ 4 milhões não foram entregues diretamente aos políticos no Brasil, de acordo com a procuradora.
Na acusação, ela sustenta que o dinheiro era transferido para empresas "offshore" com sede nos Estados Unidos, Suíça, Andorra e Taiwan.
"Offshores" são empresas que têm como uma de suas características a dificuldade de saber quem são os seus verdadeiros controladores. Esse tipo de companhia também é usada em negócios ilícitos por causa dos empecilhos legais que oferece para se saber quem foi o beneficiário final do dinheiro.
O Ministério Público diz que as remessas eram feitas por Kurt Pickel, um suíço radicado no Brasil que já trabalhou para bancos do seu país de origem e é acusado de operar como doleiro do suposto esquema de pagamento de propina.
A procuradora sustenta que a intimidade entre Pickel e a Camargo Corrêa era tamanha que ele tinha a senha bancária para fazer movimentações financeiras em nome dos diretores da construtora.

Corruptos são (quase) todos: uns pilhados, outros “no armário”

“Nos países pobres, os níveis de corrupção podem ser a linha divisória entre a vida e a morte, quando dinheiro para hospitais ou água potável está em questão”.
Huguette Labelle, presidente da Transparency International

Vamos e venhamos, mas esse escândalo do governador José Roberto Arruda, embora seja o mais espetaculoso já exibido à distinta platéia, ainda vai dar muitos panos para as mangas.
O que tem de gente envolvida não está no gibi. São figurões de vários partidos, de vários Estados e de todos os podres poderes. Porque o governador do Distrito Federal foi por demais esperto com as patotas amigas, agindo como um mafioso que comprometeu meio mundo para que a casa não caia só sobre sua cabeça. Portanto, espera que seus amigos ocultos movam céus e terra para impedir o desmoronamento.
A bem da verdade, nada do que temos visto nesse seriado de filmes exibidos é original. A corrupção da classe política e a ação deletéria dos empresários que lidam com o erário, superfaturam e fraudam é igual do Oiapoque ao Chuí, em todos os níveis e em todos os poderes.
A novidade no escândalo da capital federal foi o aparecimento de um corrupto totalmente destrambelhado, um “operador” mais sujo do que pau de galinheiro, que já havia sido pego com a mão na massa desde o governo igualmente corrupto de Joaquim Roriz.
Crente que garantiria a impunidade com a documentação de suas tarefas na teia da corrupção e convencido de que seria descartado e ainda viraria bode expiatório, ele reuniu 300 horas de flagrantes, numa inesperada coletânea do mau comportamento.
Por conta de seu comportamento surpreendente, temos um relato redondo da corrupção em suas várias etapas e formas. É um retrato iluminado que espelha a atuação da quase totalidade dos políticos e brasileiros, sejam da direita, do centro, da esquerda ou de coisa nenhuma. Políticos só, não. De todo esse universo farisaico que está por cima da carne seca.
Se gritar “pegar ladrão, não fica um, meu irmão”.
Se o Ministério Público e a Polícia Federal forem fundo, estarão dando de cara com corruptos e ladrões de norte a sul, de leste a oeste. Porque a capital federal irradia corrupção, favorecimentos, lobismos, picaretagem, ladroeira por todos os poros, 24 horas por dia. É lá que a grana ganha musculatura, por ser da natureza do centro imperial das maiores e mais irrecorríveis decisões.
Infelizmente, o quadro de desmoralização das instituições é de tal abrangência que nos edifícios oficiais se gritar pega ladrão não fica um, meu irmão (Bezerra da Silva tinha razão).A grosso modo, podemos catalogar dois tipos de corruptos – a minoria já pilhada com a mão na massa e a grande maioria ainda oculta no armário.
Não estou exagerando. Hoje em dia o exercício da atividade pública está invariavelmente associado ao mais contundente dos tráficos, que faz dos políticos inescrupulosos mandatários de aluguel.
O mais triste é que essas práticas de corrupção podem ser vistas a olho nu, mas ninguém está nem aí. Os delinquentes oficiais não escondem a corrida à propina, todo mundo sabe como a banda toca, mas o país inteiro parece à espera de sua própria oportunidade de tirar uma lasquinha.
No dia 2 de dezembro, a Polícia Federal deu uma dica sobre a natureza das relações com os podres poderes ao informar que só na construtora Camargo Correa a “Operação Castelo de Areia”  apreendeu uma planilha com mais de 200 políticos envolvidos em seu esquema de propinas. Nessa relação, achada em poder do diretor Pietro Francesco Giavina Bianchi, há deputados federais, secretários municipais, conselheiros e ministros de Tribunais de Contas.
Mensalões e mensalinhos por todo o país
Você provavelmente não sabe, mas há “mensalões” e “mensalinhos” em todos os poderes e em todos os níveis. Empresas de ônibus e empresários da construção civil, muitos destes conhecidos grileiros, costumam disponibilizar fartos recursos para nossos legisladores locais, impedindo que se adote qualquer providência que fira seus interesses.
Ou você acha que a aprovação a toque de caixa de novos gabaritos para a região dos jogos olímpicos de 2016 aconteceu só pelos belos olhos azuis dos interessados?
Nesse ambiente de corrupção ampla, geral e irrestrita estão envolvidas também falsas vestais de nossa mídia. Quando fazem uma denúncia, ela tem endereço certo e não pretende esmiuçar a teia de negócios espúrios.
Ou você não viu que está deliberadamente direcionada essa série de reportagens sobre favorecimentos na Justiça, limitada exclusivamente a um único desembargador do TJ-RJ?
Veja o caso das milícias aqui em nosso Estado. Elas têm mais de trinta anos e ninguém as questionou enquanto tratavam apenas de cobrar proteção nas comunidades.
Muitas estão por aí, intocáveis. Mas as que resolveram se meter com os donos dos transportes, incrementando as vans, e feriram os interesses da tv a cabo, patrocinando “gatonetes” foram além dos seus limites toleráveis e entraram no pau.
As raposas e o galinheiro
Este país é tão vilipendiado que as revelações contundentes sobre mais um reduto da propina ganham os contornos de um “reality show”. Daqui a pouco, entra outra fita e não se fala mais nisso.
Pior: é bem capaz desses gatunos de colarinho branco voltarem ao proscênio como bajulados protagonistas. Que o digam Jader Barbalho, Renan Calheiros e José Sarney.
Voltam e você vai levando com a mesma condescendência dos aspirantes ao próximo butim. Ou quando esperneia costuma ouvir o galo cantar, sem saber aonde.
E tudo ao som da sonata do maior cinismo, tendo à batuta aquele que não se peja em minimizar evidências gritantes. Como se querendo dar uma de magnânimo, de olho no próximo escândalo, que poderá estourar entre os seus.
Atochados pelo festival de corrupção explícita e indisfarçável, os falsos bonzinhos desse filme de terror moral acenam para remédios com as fórmulas de reles placebos.
Reforma política? Quem vai fazer? Esses quase 600 picaretas que chegaram lá pelo uso de expedientes escusos, do uso da máquina pública, gastando fortunas cem vezes maiores do que receberão de subsídios em 4 anos de mandato, e da fraude que pouquíssimos ousam denunciar?
Até os protestos caracterizam uma outra variável na separação dos corruptos: há os dos nossos partidos, para os quais fechamos os olhos, e os adversários, sobre os quais baixamos o cacete.
Onde estavam esses garotos que ocuparam a Câmara Distrital quando, ali mesmo na deslumbrada metrópole, estourou não faz muito o escândalo do “mensalão”, mais opulento, que serviu de palco para meia dúzia de falsos mocinhos, encerrou temporada e não pôs ninguém na cadeia?
Outro dia, escrevi o roteiro da fraude eleitoral. Foi a matéria que teve o menor número de comentários. Será que ninguém vê que tudo começa na farsa de um sistema de votação blindado contra toda e qualquer fiscalização e auditoria?
Em verdade, para onde quer que lancemos nosso olhar só nos depararemos com cenas de indecência explícita.
Infelizmente, mesmo vendo tanta ignomínia, a maioria dos cidadãos prefere o silêncio dos omissos, deixando-nos a sós, como jurássicos e quixotescos espadachins de valores em desuso.
Meu Deus, como tudo isso é assustador!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Nesse ponto, Lula tem razão:países atômicos que dêem o exemplo

"O que a gente espera é que aconteça o melhor, que não tenha arma nuclear no Irã, que não tenha arma nuclear em nenhum país do mundo. Que Estados Unidos desativem as suas, e a Rússia desative as suas. Porque autoridade moral para gente pedir pros outros não terem é a gente também não ter".
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República Soberana do Brasil


Lula foi feliz em sua colocação e deixou Ângela Merkel de saia justa

Com a mesma autoridade de quem vem criticando o presidente Luiz Inácio desde o seu fatídico encontro com o ex-presidente George Walker Bush, em 12 de novembro de 2002, sirvo-me da presente para festejar com todas as letras e com todo o orgulho de brasileiro a colocação definitiva e irretocável desse mesmo Lula sobre a histeria que o Ocidente fabrica, ao gosto da indústria armamentista, com a utilização manipulada das notícias sobre o programa nuclear iraniano.
Em sua fala, ao lado de Ângela Merkel, chefa do governo da Alemanha, contestando a falácia hipócrita de quem nunca disse uma única palavra contra o arsenal atômico de Israel, Lula me surpreendeu por uma lucidez cristalina, ao pronunciar aquela frase, pondo dona Ângela Merkel na saia justa.
E foi mais explícito, deixando os governantes dos países dominadores do Ocidente numa verdadeira sinuca de bico: “O melhor e mais barato é acreditarmos nas negociações e termos muita paciência. Eu penso que tratar o Irã como se fosse um país insignificante, aumentado a cada dia a pressão, poderá não resultar em uma coisa boa. Precisamos aumentar o grau de paciência para aumentar o grau de conversação com o Irã.”
No dia 23 de novembro, ao receber no Brasil o presidente do Irã, uma semana depois de fazer a mesma sala para o presidente de Israel, o presidente da República foi igualmente feliz, declarando: "Reconhecemos o direito do Irã de desenvolver um programa nuclear com fins pacíficos e com respeito aos acordos internacionais e esse é o caminho que o Brasil vem trilhando. Não proliferação e desarmamento nuclear devem andar juntos. O Brasil sonha com um Oriente Médio livre de armas nucleares, como ocorre na América Latina".
Lula lembrou em seu pronunciamento ao lado do presidente Mahmoud Ahmadinejad:
“O Brasil tem um modelo de desenvolvimento de energia nuclear reconhecido pela ONU e pela agência que cuida da questão nuclear e conhecemos a polêmica pelo mesmo desenvolvimento no Irã. O que nós temos defendido há muito tempo é que o Irã possa produzir urânio para desenvolvimento de energia tanto quanto o Brasil tem feito”.
Ele pagou um preço alto pela coragem de receber aqui o chefe de um Estado demonizado pela artilharia midiática do Ocidente por ser o maior empecilho ao expansionismo sionista, tal como preconizado por Theodor Herzl, um judeu austríaco assimilado, autor do livro “Der Judenstaat” (O Estado Judeu), cristalizado no I Congresso Sionista, realizado em Basiléia, Suíça, em 1897.
(O projeto sionista, concebido de olho na da descoberta de petróleo na Arábia Saudita em 1882, prevê um Estado racial judeu do Nilo ao Eufrates e da margem direita do Nilo ao Mar Vermelho e a margem esquerda do Eufrates, a maior parte do Iraque e a totalidade da Jordânia e da Síria, sem falar, naturalmente, da Palestina, conforme relata Hussein Triki, no livro “Eis aqui Palestina”).
Por que não te calaste, Serra?
Nessa visita, mais do que os protestos de meia dúzia da quinta coluna sionista no Brasil, a manifestação mais deprimente foi um artigo assinado pelo governador de São Paulo, José Serra, a quem estou conclamando a ver o filme CAMINHO PARA GUATÂNAMO, do diretor Michael Winterbottom, baseado em fatos reais, que relata o sofrimento de três britânicos de origem afegã, incluindo as torturas em Guantánamo. Eles foram tomados como talibãs e libertados 30 meses depois sem qualquer acusação formal.
Em sua diatribe, na qual abandona a condição de governador do maior Estado brasileiro para se transformar num porta-voz da colônia israelita, Serra se diz desconfortável por “recebermos no Brasil o chefe de um regime ditatorial e repressivo”.
Proclamando-se comprometido com os direitos humanos, alude a torturas nas prisões do Irã e ao seu passado de luta contra a ditadura brasileira. Essa peroração serve apenas para demonstrar sua falta de visão política, querendo agradar os donos do mundo contra um ato de soberania do governo brasileiro, o que mostra que quem tem oposição como a sua não precisa ter aliados.
Se ele se considera tão zeloso com os direitos humanos, por que nunca disse uma única palavra contra as torturas na base  de Guantánamo, de que se envergonham os próprios norte-americanos? Que palavra o governador José Serra pronunciou contra os massacres praticados pelos invasores norte-americanos na prisão de Abu Ghraib? E o que disse sobre 15 fotografias de torturas no Afeganistão e Iraque, divulgadas pela cadeia de tv australiana SBS, em 16 de maio passado, tão chocantes que o presidente Barack Obama não queria ver reveladas?
Com a lucidez de um chefe de Estado
Não há momento mais propício e ato de maior honestidade de que reconhecer a coragem soberana do presidente Luiz Inácio no trato de assuntos delicados de nossa política externa, como esse bode expiatório do Irã. Quisera eu que, finalmente, o chefe do Estado brasileiro afirmasse a soberania do Brasil inclusive em sua política econômica, infelizmente atrelada ao projeto neoliberal multinacional.
Em política externa, não pode haver manipulações facciosas. Isso ficou claro desde o tempo de Jânio Quadros e teve bons momentos quando o general Geisel peitou os norte-americanos que queriam nos impedir de desenvolver o programa nuclear para fins pacíficos, condicionando o nada a opor a que aceitássemos as sucatas da multinacional Westinghouse.
Painel esclarecedor sobre  soberania popular
Com meus aplausos, repasso a todos os leitores, moradores do Rio, convite do Instituto dos Advogados do Brasil para um painel da maior atualidade – a experiência venezuelano que permite interromper o mandato de um governante, como foi tentado em referendo realizado em 2004, quando a oposição reuniu às assinaturas necessárias para saber se o presidente Hugo Chávez deveria continuar ou não no poder.
O painel internacional sobre a Soberania Popular, que será realizado no Instituto dos Advogados Brasileiro, na Avenida Marechal Câmara, 210, 5º andar, Rio de Janeiro, RJ, no dia 9 de dezembro de 2009, das 9h30 às 12h30, quando, então, serão expostos os seguintes temas:
1) Revogação de mandato de dirigentes políticos na Venezuela (expositor: professor de direito constitucional venezuelano, Edwin Roberto Sambrano Vidal);
2) A justiça popular em Cuba (expositor: professor de direito constitucional cubano, José Manuel Garcia Villanueva);
3) O Plebiscito, o referendo e a iniciativa popular no Brasil (expositor: professor Ricardo Cesar Pereira Lira, ex-presidente do IAB e UERJ).
A iniciativa do presidente da Comissão Permanente de Direito Constitucional do IAB, Jorge Rubem Folena de Oliveira, poderá ser uma nova luz sobre os desvios de conduta de nossos governantes, que nunca são submetidos a julgamento popular no meio do mandato, ou se são, dependem dos seus cúmplices no poder legislativo, devidamente comprados, como acontece agora no Distrito Federal.
Eu estarei lá e espero que você não perca essa oportunidade de conhecer os fundamentos jurídicos do julgamento popular de um mandato, ainda no seu transcorrer.

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.