terça-feira, 10 de março de 2009

O suicídio do Vaticano e o assassinato da própria fé

HÉLIO FERNANDES
TRIBUNA DA IMPRENSA

Logo no título fiz questão de responsabilizar o culpado maior e verdadeiro dessa excomunhão que estarreceu o mundo. E concluir identificando imediatamente os efeitos destruidores e devastadores sobre a própria Igreja Católica.
Para Bento XVI, individualmente, é mais um equívoco colossal, dos muitos que vem praticando. O mundo católico se surpreende e se desespera com os seguidos erros do papa, quase todos provocados pela arrogância. Que é um pecado capital em qualquer pessoa, e uma ignomínia ainda maior no chefe da Igreja, pretenso e suposto porta-voz de Deus.
Coletivamente, a Igreja, em queda acentuada há muito tempo, planta mais descrença, espalha mais desesperança, acentua o descompasso entre a cúpula e os católicos verdadeiros e praticantes.
Ainda não se passou um mês da decisão totalmente imprudente de Bento XVI, reabilitando aquele que negou o Holocausto. Bento XVI voltou atrás, disse que não estava bem informado.
Agora não pode repetir o gesto do desmentido e da omissão, pois teria que fazer uma longa pregação, tão longa quanto os erros e equívocos praticados.
O medíocre e desconhecido dom José Cardoso sozinho não teria o mínimo de condições para praticar tantas exorbitâncias. Relacionemos separadamente os atos amaldiçoados que cometeu. Assim, será mais fácil condená-lo e compreender a condenação desse arcebispo, apoiado pela alta cúpula do Vaticano, mas repudiado pelos católicos, estes sim, representantes legítimos da Igreja.
1 – Excomungou toda a equipe médica.
2 – Aplicou a pena máxima da Igreja, para a mãe da menina.
3 – Inocentou o padrasto, afirmando que “o estupro é menos grave”, esquecendo que tudo começou com ele. Não fosse o estupro praticado covardemente em casa, nada teria acontecido. Com a decisão do Vaticano (colocada servilmente como “execução” do arcebispo) da excomunhão geral, os católicos mais do que fiéis deixaram de entender (e de seguir) as razões do comando da Igreja, decisão vinda diretamente da Santa Sé.
O estupro é um dos atos mais repulsivos e repugnantes. Cometido por um padrasto, indefensável. Atingindo uma menina de 9 anos, inexplicável. Indo até o fim na violação convicta e compenetrada, a ponto de engravidar a menina, inconfessável. Não só perante Deus, mas também no tribunal da opinião pública. E da Justiça.
Só que essa monstruosa combinação de crimes não foi julgada por nenhum tribunal jurídico e sim no tribunal da própria Igreja. Que se igualou ao estuprador, tão violenta quanto ele, tão desigual apesar de pregar a igualdade.
A culpabilidade do arcebispo, a ratificação feita pela CNBB, todos cumprindo ordens absurdas e pecaminosas do Vaticano, felizmente tiveram protestos e revoltas compensatórios da parte de órgãos e de cidadãos.
Em primeiro lugar, aplausos para a veemência e decisão instantânea da Comissão Nacional de Medicina, defendendo os médicos que apenas trabalhavam, cumprindo missão legalíssima.
A opinião pública, composta de cristãos e católicos, também merece elogios. Preservaram sua fé, mas não perdoaram os atentados.
E o próprio presidente Lula dessa vez não se omitiu, criticou a excomunhão. Poderia ter sido mais duro e mais autêntico, colocando as críticas no âmbito do próprio Vaticano-Santa Sé. Como esta é um Estado, Lula estaria responsabilizando de igual para igual. Mas pelo menos Lula, nesse caso raro, merece elogios.
Faltou a palavra de um magistrado do mais alto escalão, enquadrando o arcebispo e membros da CNBB, em crimes passíveis de punição. O aborto é legal no Brasil em muitos casos, principalmente em estupros com perigo de vida.
Acredito que os jornalões (sempre voltados para eles mesmos) deixaram o profissionalismo jornalísticos de lado e não ouviram ninguém, digamos logo, do Supremo. Muitos teriam falado, até mesmo os 11 membros da mais alta e definitiva corte, que estariam identificando crime grave. E apontando a punição não só para o estuprador, mas também para aqueles que o apoiaram.
PS – Houve um tempo, em que este repórter, apaixonado por oradores (principalmente os sacros), percorria igrejas, tentando descobri-los e ouvi-los. (Quase sempre em companhia de Gilberto Marinho, então presidente do Senado, grande figura.)
PS 2 – Hoje, esses oradores sacros estão em falta, os que falam nas igrejas são medíocres, cansativos e monótonos. Essa ausência no chão da Igreja alcançou o ponto mais alto, sem lideranças no próprio Vaticano. Está aí a explicação da queda violenta da Igreja Católica. Parece que sobrou apenas a liturgia, luxuosa e caríssima, embora belíssima.

segunda-feira, 9 de março de 2009

A mumificação do pensamento

Sérgio Muylaert*

A mumificação do pensamento é mal das instituições. Ainda que teorias suponham renovar ou reformar, quando as cabeças se aferroam e conspiram contra as idéias, é quase impossível inovar. É preciso que se entendam as mutações. Menos vidas seriam sacrificadas se, no escrever o Manual dos inquisidores, Nicolau Emerich (1320-1399) pressentisse que o fogo da fé e o da heresia não diferem entre si.

O padre Joseph Ratzinger, de orígem alemã, é hoje papa Bento XVI. A condenação de teólogo Leonardo Boff, no ano de 1984, é atribuída a quando o alemão era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e por este nome atende o antigo ofício do tribunal da Inquisição. Conforme o direito canônico um ano de “silêncio obsequioso” foi a pena imposta pelo tribunal em que Ratzinger o interrogou para a condenação do brasileiro por suas teses onde explicava a Teologia da Libertação.

A sociedade brasileira, sob a atmosfera de colônia e idade média, trava a mesma polêmica. De um lado, o judiciário anuncia para os hereges e infiéis impenitentes a fogueira da questão agrária. De outro lado, setores do alto clero católico prenunciam a torquemada, noutro episódio em que a violação de um direito individual foi perpetrada contra uma menina. Por expressar a outra face do problema social é menos relevante a imputação de práticas delituosas. Trata-se de impedir que a própria sociedade discuta, examine e se inteire dos motivos reais que escondem falsas controvérsias.

Neste segundo caso, os ressaltos aparecem mais nítidos, a atraírem atenções da mídia, até mesmo, para ocupar espaço de um certo programa, de apelo sensacionalista, cuja marca é uma repetida letra do alfabeto.

A pretensão da verdade absoluta leva à intolerância, lembra o teólogo da libertação, em seu prefácio para o Manual dos inquisidores. A mumificação do pensamento é portanto a forma sob a qual as instituições insinuam como recorrer ao uso da potência da fé, o fundamentalismo, que trouxe até os dias atuais os mistérios do credo e da ignorância. O discurso da religiosidade é sempre temerário no sentido em que ele aporta nas mentes e as põe submissas, sob pena de dessacralizar-se. Não pode haver história ante o risco de lucidez senão mistérios impelidos pela fatalidade. Versões não devem existir por ojeriza às contradições. Não basta ignorar. É preciso a fé. Tudo deve se reproduzir conforme ao discurso da religiosidade e da fé.

O vaticínio clerical não será menos ofensivo diante do estupro de uma pobre criança aos seus nove aninhos do que os estupros de uma nacionalidade inteira vitimada, quando alguns setores avançados da própria igreja católica se puseram ao lado de muitos dos perseguidos políticos e familiares, durante regime de exceção. A explicação talvez se mostre no fato de que antes de se fortalecer e se tornar doutrina, o catolicismo, ele próprio, esteve sob o estigma da perseguição, quando portas de casas dos cristãos amanheciam pichadas.

Os assuntos humanos, contrariamente a tantos que se supõem divinos, são atributos do ser humano e por estes devem ser resolvidos sem intervenção celeste. Quando Espinoza escreveu Ética adiantou seu pensamento para dizer que Deus não aborrece ninguém e não quer ninguém. Ainda paira sob o ocidente a mancha colonial que dissolveu com ácido Patrice Lumumba.

Somos feitos de perseguições, balas perdidas, somos diásporas e cataclismas, somos vítimas de escravidões e leis dominiais em que as sesmarias se consagram, tantas quantas foram vítimas dos holocaustos milhões de assassinatos nas câmaras de gás, por obra de ideologias e racismos. Hoje, na mais desenvolvida nação do ocidente, um negro estar na presidência, não redime nem prova esquecimento.

Enquanto para nós, tanto um voz do chefe do judiciário nacional, acerca da questão agrária, ou esta, em que se afirma o clero, a censurar o ato pelo qual seja cientificamente interrompida uma gestação, incerta e forçada, qualquer deles diante dos fatos e das circunstâncias, expressa a esclerose em grau interpretativo a que se chega, para a excomunhão (condenação) de todos os partícipes, sem a compreensão das respectivas mutações da sociedade. Por isso se pode dizer que a mumificação do pensamento é mal das instituições.

Se o sistema sesmarial no Brasil foi o embrião do insucesso da questão fundiária a constituir o latifúndio, a Bula Ad Extirpanda, do Papa Inocêncio IV, de outra parte, autorizava torturar os hereges que, segundo ela, seriam os “assassinos das almas, ladrões da fé cristã e dos sacramentos de Deus”. Não se trata da apologia da prática de blasfêmias ou heresias, em que eram queimados na Idade Média os perseguidos pelo Santo Ofício da igreja.

Não faz muito tempo a nação brasileira viveu o esforço do pacto social por um estado democrático de direito, ao romper com as formas jugulares de opressão. Embora não seja o espaço ideal em que se passe a limpo algumas dessas questões-chave, é importante lembrar o credo político de um Rui Barbosa, ao utilizar verbos absolutamente fortes, contra a intolerância. Exatamente por este motivo, a sociedade brasileira mesmo sem as proibições por qualquer opção de modalidade religiosa, constituiu um estado democrático e laico.

*Sérgio Muylaert – advogado em Brasília. Membro efetivo do IAB. Fundador e Presidente da AAJ – Seção Brasileira/DF.
sermuy\@zaz\.com\.br


Um verdadeiro libelo contra o arcebispo excomungador

Algumas pessoas ficaram tão indignadas com a atitude do aercebispo de Recife que escreveram diretamente a ele. É o caso da professora Leia Brito, cujo teor, um verdadeiro libelo, transcrevemos a seguir:

Sr. arcebispo de Olinda e Recife,

O senhor e seus cúmplices do Vaticano (dessa Igreja Católica Apostólica Romana ditorial e criminosa – pois responsável por inúmeros crimes contra a humanidade) acabam de cometer outro grave CRIME: o de “desmoralização pública” (que se enquadra no crime de calúnia e difamação – CF/1998) dessa inocente e indefesa CRIANÇA, vítima de dois crimes hediondos: estupro e pedofilia, através da excomunhão, ALARDEADA PELO SENHOR ATRAVÉS DA MÍDIA NACIONAL E INTERNACIONAL, de sua mãe e dos médicos que realizaram o procedimento do aborto LEGAL de gestação de gêmeos, quando o corpinho da vítima não estava maduro nem para gerar uma criança apenas. Aborto Legal, SIM, porque foi realizado com o objetivo LOUVÁVEL de salvar a sua VIDA (não apenas o ato dessa menina respirar, mas o seu futuro como ser humano, com direito à felicidade neste mundo). Há que se lembrar que a outra vítima do abuso sexual (a irmã da menina grávida), além de ser outra menina, é ainda deficiente mental e físico, ou seja, mais indefesa ainda.

Daí, diante de tantas PROVAS IRREFUTÁVEIS de que essas duas meninas são vítimas de um criminoso bábaro, eu pergunto: por que o senhor e o Vaticano cometeram o crime de desmoralizá-las publicamente? Porque, na verdade, as mulheres não tem valor algum para a Igreja Católica. Daí a discriminação dessa criança do sexo feminino (vítima de um pedófilo estuprador), através de um SEGUNDO ESTUPRO, agora de natureza social, representado pela excomunhão de sua mãe e dos médicos que protegeram sua vida.

O desvalor da mulher pela Igreja, meticulosamente engendrado no Gênesis da Bíblia, através da figura “triçoeira” de Eva (a corruptora do puro Adão) está confirmado, também, no fato de a única mulher aceita por essa instituição religiosa – Nossa Senhora – ter um perfil absolutamente oposto ao de uma mulher real: ela se engravidou sem contato físico – através de um anjo (figura andrógina – sem sexo definido); deu à luz sem perder a já preservada virgindade (Jesus então não podia ser de carne e osso); e nunca foi tocada em tempo algum por homem algum (José, seu marido, também era um andrógino?). Desta forma, a Igreja se vale do conceito machista de que a Mulher é imunda (por isso inferior) e o homem é puro (por isso superior), para discriminá-la e persegui-la. É o que vem fazendo através dos tempos, incluindo aí a Inquisição da caça às bruxas que, na verdade, eram as parteiras que ensinavam às mulheres daquela época os métodos da contracepção (mais de 90 foram queimadas vivas na Alemanha). Toda essa VERDADE INQUESTIONÁVEL foi documentada pela teóloga alemã Uta Hanke Heinemann, em sua pesquisa de pós-doutorado, intitulada “Eunucos pelo Reino de Deus” - publicada pela Editora Rosa dos Tempos, a qual a sábia Rose Marie Muraro denominou de “Bíblia da Mulher Moderna”. O senhor conhece essa maravilhosa obra (e deve condená-la, claro, pois ela desmascara a “Santa” Igreja), e sabe também que a sua autora preferiu ser excomungada por João Paulo II a deixar de dar à luz a este conhecimento que mostra a face macabra da Igreja Católica.

Comandada por machistas covardes – os Eunucos pelo Reino de Deus – que não castigam com a excomunhão nem mesmo os padres pedófilos estupradores de crianças inocentes e indefesas, a Igreja Católica, através do senhor - arcebispo de Olinda e Recife, persegue agora essa Menina-Mulher vítima de dois crimes hediondos. Só falta o senhor pressionar a Justiça para absolver esse estuprador pedófilo, com base na justificativa dele de que "as meninas me provocavam", exatamente, como Eva fez com Adão.

O senhor não percebeu ainda, que, além de humilhar publicamente essa menina, com essa ação espúria de excomungar a mãe dela e os médicos que protegeram sua vida, está incentivando a Pedofilia e o Estupro no Brasil, especialmente, na Região Nordeste do nosso país, assolada pela miséria econômico-social? Certamente que D. Helder Câmara (seu antecessor) estaria REVOLTADO com a sua atitude criminosa e o condenaria, se tivesse esse poder, com a EXCOMUNHÃO. O senhor e todos os seus cúmplices “eunucos pelo reino de deus” deviam, sim, ser processados e julgados pela Justiça comum. A criança, vítima dessa desmoralização pública, e aqueles que a defenderam da barbaridade sofrida, merecem essa retratação jurídica perante a sociedade.

O Senhor não terá o trabalho de me excomungar da sua “santa” Igreja, porque sou ATÉIA, com toda dignidade e com muita honra.

Profa. Leila Brito
letraporletra@hotmail.com

A menina, o bispo e nós


José R. Bessa Freire
Diário do Amazonas
Ela é apenas uma criança. De nove anos. Pesa 33 kg e mede 1,36 m. Vive em Alagoinha, a 230 km. de Recife. Lá, foi estuprada pelo padrasto. Ficou grávida de gêmeos. Os médicos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) constataram que a vida dela corria perigo e retiraram os fetos, interrompendo a gravidez na 15ª semana. Após o aborto, na quarta-feira, “ela ficou brincando com a boneca e o ursinho. Não sei se entende o que passou” – disse o diretor da Maternidade, Sérgio Cabral.
Quem, com certeza, não entendeu bulhufas foi o arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho, 75 anos, recém-aposentado. Ele tentou convencer o pai biológico e a mãe da menina a desistirem do aborto. Fracassou. A Arquidiocese decidiu, então, que vai denunciar os pais da vítima ao Ministério Público, acusando-os de duplo assassinato. Sem chances, porque a legislação brasileira permite o aborto em vítimas de estupro até a 20ª semana de gestação e também no caso de ameaça à vida da mãe. De acordo com avaliação médica, o aborto é, portanto, duplamente legal.
O bispo, no entanto, está se lixando para as leis dos homens: “A lei de Deus está acima de todas as coisas e o aborto é um crime previsto nas leis de Deus”, diz, citando o Código Canônico, que em seu artigo 1.398 pune os que praticam o aborto com a excomunhão. Omite que não foi Deus, mas os homens que escreveram o Código. A proibição é, pois, da Igreja Católica Apostólica e Romana, que é uma criação histórica dos homens. Deus, coitado, não tem nada a ver com essa história, seu nome está sendo invocado em vão.
Não importa. O bispo mostrou que é o herdeiro legítimo da Inquisição e da intolerância, Sem levar em conta a situação real da menina, o bispo confundiu cinto com bunda e cipó com jerimum e excomungou todos os adultos que participaram da operação: os pais da menina, os médicos, o motorista da ambulância, o transportador da maca, as atendentes, os enfermeiros que esterilizaram os instrumentos cirúrgicos, as representantes de ongs em defesa da mulher, enfim todo mundo.
E o padrasto? Foi também excomungado? Necas de pitibiribas! Esse foi o único que escapou. Pressionado pelo Jornal Hoje, da Rede Globo, o bispo afirmou que o pedófilo estuprador, já preso pela lei dos homens, não foi excomungado pela lei divina: “Esse padrasto cometeu um crime enorme – admitiu – mas não está incluído na excomunhão. Ele cometeu um pecado gravíssimo. Agora, mais grave do que isso, sabe o que é? O aborto, eliminar uma vida inocente”.
Acredite se quiser. Mas o bispo disse essa besteira monumental e estarrecedora. Eu ouvi. Milhões de brasileiros são testemunhas. O bispo segue, assim, a máxima malufista do “estupra, mas não mata”. A excomunhão, que é a pena máxima da igreja, condena ao fogo do inferno pessoas misericordiosas, que tiveram compaixão com o sofrimento dos outros, mas poupa o estuprador. Aumenta assim nossa sensação de impunidade. Com esse senso de justiça, parece até que o Código Canônico foi escrito pelo ministro do STF, Gilmar Mendes, para livrar a cara do Daniel Dantas e dos latifundiários.
Baixando o nível
A fala episcopal teve repercussão internacional. Os jornais da Europa e dos Estados Unidos e as redes de televisão, como a BBC de Londres e a Karachi News do Paquistão, abriram manchetes com a declaração do bispo, que chocou a opinião pública e provocou indignação generalizada, mostrando a posição arcaica, retrógrada e rançosa da igreja, “que não se adequou à realidade do estado laico e da democracia”, como afirmou Cristina Buarque, secretária estadual da Mulher do Estado de Pernambuco.
Um dos médicos excomungados, Rivaldo Albuquerque, católico praticante, que assiste missa todo domingo, chova ou faça sol, lembrou que ele e seus colegas já foram excomungados pelo bispo Dom José desde 1996, quando foi inaugurado o serviço de atendimento a mulheres vítimas de violência sexual da UFPE. O médico mostrou, felizmente, que está vagando e andando para essa excomunhão e nessa questão não reconhece a autoridade do bispo, cuja postura é “inadequada e pouco humanitária”. Não se intimidou. Continuou seu trabalho.
“O povo quer uma igreja do perdão, do amor, da misericórdia, da caridade e da solidariedade. Tenho pena do nosso arcebispo que não conseguiu ter misericórdia por uma criança inocente, desnutrida, franzina, em risco de vida, que sofre violência desde os seus seis anos” – declarou Rivaldo. Mas nem todo mundo ficou com pena do bispo. Muita gente ficou com raiva. Na internet, o House abriu uma página, perguntando: “O bispo José Cardoso Sobrinho é maluco? Ou boiola?”. Muitos internautas votaram.
Um deles atacou: “Um sujeito que excomunga os médicos responsáveis pelo aborto do feto de uma criança de 9 anos que foi estuprada, não merece crédito algum perante a sociedade. Não passa de um desqualificado moral e intelectual, que prega conceitos ultrapassados ao nosso tempo”. Outro indagou: “Quem pediu a opinião desse sujeito? Quem se importa com o que ele fala?”
Na realidade, embora Dom José Cardoso Sobrinho não se dê respeito, não concordo com a baixaria de ofendê-lo. Devemos ser caridosos com ele e ajudá-lo, criticando-o com argumentos e não com ofensas. Afinal, ele não é “boiola”, nem “maluco”. Ele é apenas, com todo respeito, um babaca, com cara de babaca, discurso de babaca, postura de babaca. Não é pastor do seu rebanho, mas um burocrata, funcionário obscurantista, preocupado com questões formais e não com a vida das pessoas. Para ele, dane-se o mundo e a menina, desde que o artigo 1.398 do Código Canônico seja cumprido.
Mitra e báculo
O bispo não esboça qualquer sentimento de piedade com a dor e o sofrimento alheio. Seu discurso em defesa da vida é tão demagógico quanto o de Silvio Berlusconi, no episódio recente da jovem Eluana Englaro, que durante 17 anos permaneceu em estado vegetativo, até que os médicos suspenderam sua alimentação e hidratação artificial, mantida através de uma sonda, deixando-a morrer, naturalmente, em paz, como pediu sua família.
Dom José, que diz falar em nome de Deus, é um homem extremamente vaidoso. Adora a pompa, a solenidade, a imponência, as vestimentas pontificais, os ornamentos episcopais, a alva de linho, a estola luxuosa, a sobrepeliz de rendas, a capa de seda, o anel de ouro, a cruz peitoral, o báculo de metal precioso, a mitra, que é o símbolo do poder e o solidéu – aquele gorro de cor violácea – com o qual ganharia qualquer concurso de fantasia carnavalesca. Talvez por isso seja tão apegado ao poder contra o qual jamais se manifesta.
O bispo – estamos em pleno Dia Internacional da Mulher - ofende e desrespeita todas as mulheres. Revela um machismo primário ao relativizar o crime do padrasto estuprador contra uma criança, que ele tinha a obrigação de proteger. Não deixa de ser corporativismo machista minimizar esse crime e invocar a natureza divina de um código escrito por homens, não como representantes do gênero humano, mas como machos.
Saudades de Dom Helder Câmara, o antecessor de Dom José. Já não se faz bispos como antigamente. Dá vontade de abrir uma página na internet: “Eu apoio a ação dos médicos de Recife e também quero ser excomungado por Dom José”. Sou o primeiro a me inscrever.
Um apelo: Dom José, deixe a menina brincar com sua boneca e o seu ursinho, deixe os médicos em paz, deixe de ser ranzinza, não seja leso, vá rezar, vá pedir perdão dos seus pecados, vá pedir inspiração a Dom Helder, vá excomungar o Collor, o Sarney, o Renan Calheiros e todas essas figuras sinistras que vem atentando contra a vida em nosso país, envolvidas em maracutaias e corrupção, matadoras de nossas esperanças. E se não for falta de respeito a um prelado - data vênia – digo, rimando, em nome dessa menina de nove anos, que ainda brinca de boneca: Dom José, vá cheirar seu pé.
P.S. – Nas eleições para reitor da UFAM se reproduzem os vícios e o fisiologismo que adoecem a sociedade brasileira. Já é estranho votar numa chapa com todos subreitores. É o mesmo que votar numa chapa para presidente da República com todos os ministros. Se um sub-reitor não funciona, como demiti-lo, se ele foi eleito? Mais estranho ainda é que tem chapa indicando dois e até três candidatos para a MESMA sub-reitoria. Na próxima semana, a gente volta a discutir essa questão.
Jose Ribamar Bessa Freire é Graduado em Comunicação Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1969). Especializado em Sociologie du Développement pelo Institut International de Recherche et Formation En vue du Développement Harmonisé, IRFED, França (1971-72). Cursou o doutorado em Historia na École Des Hautes Études en Sciences Sociales, EHESS, França (1980-83). Doutor em Letras pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (2003). É professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio) e professor da UERJ, onde coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas da Faculdade de Educação. Ministra cursos de formação de professores indígenas em diferentes regiões do Brasil. Desenvolve pesquisas na área de História, com ênfase em História Social da linguagem, atuando principalmente nos seguintes temas: memória, literatura oral, patrimônio, fontes históricas, história indígena, Amazônia, línguas indígenas]
bessa@cm.microlink.com.br

domingo, 8 de março de 2009

A excomunhão da vítima

Miguezim da Princesa*
I
Peço à musa do improviso
Que me dê inspiração,
Ciência e sabedoria, Inteligência e razão,
Peço que Deus que me proteja
Para falar de uma igreja
Que comete aberração.
II
Pelas fogueiras que arderam
No tempo da Inquisição,
Pelas mulheres queimadas
Sem apelo ou compaixão,
Pensava que o Vaticano
Tinha mudado de plano,
Abolido a excomunhão.
III
Mas o bispo Dom José,
Um homem conservador,
Tratou com impiedade
A vítima de um estuprador,
Massacrada e abusada,
Sofrida e violentada,
Sem futuro e sem amor.
IV
Depois que houve o estupro,
A menina engravidou.
Ela só tem nove anos,
A Justiça autorizou
Que a criança abortasse
Antes que a vida brotasse
Um fruto do desamor.
V
O aborto, já previsto
Na nossa legislação,
Teve o apoio declarado
Do ministro Temporão,
Que é médico bom e zeloso,
E mostrou ser corajoso
Ao enfrentar a questão.
VI
Além de excomungar
O ministro Temporão,
Dom José excomungou
Da menina, sem razão,
A mãe, a vó e a tia
E se brincar puniria
Até a quarta geração.
VII
É esquisito que a igreja,
Que tanto prega o perdão,
Resolva excomungar médicos
Que cumpriram sua missão
E num beco sem saída
Livraram uma pobre vida
Do fel da desilusão.
VIII
Mas o mundo está virado
E cheio de desatinos:
Missa virou presepada,
Tem dança até do pepino,
Padre que usa bermuda,
Deixando mulher buchuda
E bolindo com os meninos.
IX
Milhões morrendo de Aids:
É grande a devastação,
Mas a igreja acha bom
Furunfar sem proteção
E o padre prega na missa
Que camisinha na lingüiça
É uma coisa do Cão.
X
E esta quem me contou
Foi Lima do Camarão:
Dom José excomungou
A equipe de plantão,
A família da menina
E o ministro Temporão,
Mas para o estuprador,
Que por certo perdoou,
O arcebispo reservou
A vaga de sacristão.
(*) Poeta popular, Miguezim de Princesa, é paraibano e
está radicado em Brasília.
(Enviado por Norton Seng)

domingo, 1 de março de 2009

Emílio Azevedo já disse tudo sobre Sarney e Vitorino Freire


Emilio Azevedo*

Jornal Pequeno, São Luiz, 26 se março de 2006

Tribunais, mas escolas, hospitais, ginásios esportivos, pontes, tudo no Maranhão batizado com o nome da Oligarquia Sarney. Até o Tribunal de Contas do Estado deu à sua sede o nome da ex-governadora Roseana Sarney.
Diz a sabedoria popular que uma mentira repetida mil vezes acaba se tornando verdade. No Maranhão, costuma-se repetir com insistência que José Sarney derrotou Vitorino Freire. Trata-se de uma afirmação que não condiz com a verdade. Nunca houve entre os dois um combate direto e definitivo. Algo que justificasse a tese da vitória de um sobre o outro.

Narrarei aqui fatos históricos que apontam que o correto seria dizer que José Sarney apenas substituiu Vitorino Freire no comando da atrasada política maranhense. E substituir, mesmo que a contragosto do substituído, é muito diferente de derrotar.

Primeiro é preciso ficar claro que Sarney é um produto do chamado vitorinismo. Ele começou na política maranhense protegido pelo pai, o desembargador Sarney Costa, amigo de Vitorino Freire e presidente do TRE, num período em que as eleições no Maranhão eram marcadas por enormes fraudes eleitorais, montados para ajudar os candidatos do vitorinismo.

Em 1965 Sarney se elege governador do Maranhão iniciando ali a construção do seu próprio esquema de poder. Disputaram o governo naquela eleição três candidatos. Todos nascidos dentro PSD, isto é, no esquema vitorinista. Coincidentemente, nenhum dos três foi lançado pelo próprio Vitorino Freire, que chegou naquela eleição politicamente fraco, rompido com o então governador Newton Belo e sem o controle do PSD, o partido que simbolizava o seu poder no Maranhão.

Os concorrentes de Sarney naquela eleição foram Renato Archer e Costa Rodrigues. Sem força para lançar um candidato de sua confiança, Vitorino acabou, por exclusão e sem entusiasmo, apoiando Renato. Um apoio que visava mais atrapalhar a candidatura de Costa Rodrigues (lançada por Newton Belo) do que propriamente ajudar Renato Archer a ganhar a eleição.

Newton e Vitorino travaram ali uma grande batalha pelo controle do PSD. Ao final não houve vencedor e o PSD ficou impedido de participar da eleição de 65, com Vitorino e Newton tendo que procurar outros partidos para poder participar daquele pleito.

As chamadas “Oposições Coligadas”, grupo que reunia os adversários históricos de Vitorino, tinham no deputado federal Neiva Moreira uma opção para aquela disputa ao governo. Mas Neiva foi cassado pela ditadura e teve que ir para o exílio.

Diante da falta de alternativa a oposição decidiu apoiar Sarney, que havia sido um dos primeiros a brigar com o governador Newton Belo. Para que o apoio a Sarney fosse formalizado tiveram que ser superadas sérias divergências do passado, quando Sarney foi publicamente acusado por essa mesma oposição de ser beneficiado pela fraude eleitoral orquestrada por seu pai.

Mas as “Oposições Coligadas” serviram para Sarney apenas como moldura. Ele ganhou aquela eleição de 1965 por conta do esfacelamento do PSD e, principalmente, do apoio que recebeu da ditadura militar instalada no Brasil no ano anterior. Foi a ditadura que determinou a vitória dele. Durante a campanha vieram vários generais e coronéis ao Maranhão a fim de garantir sua eleição. Até o acordo com a aposição maranhense foi articulado pelos militares golpistas.

E se quem ganhou foi Sarney, quem perdeu foi o governador Newton Belo, que teve contra si na campanha Vitorino Freire e Sarney, seus antigos aliados. No início da gestão de Newton Belo, Sarney tinha cargos no governo, inclusive uma irmã, Conceição Sarney, que era da assessoria direta do governador.

Newton Belo pagou um preço alto por suas posições e por ter isolado Vitorino Freire. Pressionado pela ditadura militar ele viu, ao final, as candidaturas de Sarney e Renato Archer trabalhando em sintonia contra Costa Rodrigues. Perdida a eleição ele acabou cassado pela ditadura, fato que agradou tanto a Sarney, quanto Vitorino.

Benedito Buzar, um jornalista muito ligado ao esquema Sarney, em seu livro O vitorinismo, destaca que o deputado federal Cid Carvalho, ao lançar a candidatura de Renato ao governo disse na TV que “as candidaturas de Renato Archer e Sarney abrem, pela primeira vez ao povo maranhense, uma perspectiva real de escolha”. Um declaração despropositada se for levado em consideração que os três candidatos tinham exatamente a mesma origem, que por sinal, era também a mesma de Cid Carvalho, o PSD vitorinista.

E o próprio Vitorino, em seu livro de memórias (A laje da raposa) diz com todas as letras que apoiou Renato sabendo que essa candidatura não venceria, servindo apenas para atrapalhar o candidato de Newton Belo e garantir a vitória de Sarney. No livro ele diz explicitamente que preferia Sarney “do que qualquer um dos outros dois (Renato ou Costa Rodrigues)”.

São fatos que reforçam a tese, defendida na dissertação de mestrado do historiador maranhense Wagner Cabral, quando ele defende que o que houve no Maranhão a partir de 1966 foi uma reestruturação do sistema oligárquico e não uma descontinuidade na política maranhense a partir da posse de Sarney.

Juntos até a morte - No final de 1965, com Sarney já eleito governador, a ditadura militar extingue todos os partidos políticos do Brasil, criando em seguida duas novas siglas partidárias, a ARENA, para receber os aliados da ditadura, e o MDB, para os que queriam fazer uma oposição moderada e consentida.

Sarney vai, obviamente, para a ARENA. E Vitorino Freire, ainda senador, também. No momento em que Sarney começa a substituir Vitorino no Maranhão, os dois, o antecessor e o substituto, voltaram a ser correligionários como nos velhos tempos do PSD, quando Vitorino arranjou para Sarney um dos primeiros empregos de sua vida, como assessor do governo de Eugênio Barros.

Apesar dessa nova aproximação partidária (que durou mais de 11 anos, até a morte de Vitorino) surgiu depois uma inimizade entre eles. Mas antes, quando Sarney tomou posse como governador, Vitorino não lhe hostilizou. Em seu livro de memórias ele diz que logo após a posse de Sarney ele não fez “nenhum ataque ao novo governador”, deixando claro que queria continuar a manter com o eleito uma relação cordial.

Ainda em 1966, no primeiro ano do governo Sarney, Vitorino Freire, ainda senador, dá uma entrevista ao jornal Diário de Notícia e diz que não negaria “sua colaboração ao governo em matéria de interesse público”.

Sarney, tendo linha direta com o ditador de plantão e sendo também o governador, achou, assim como seu antecessor Newton Belo, que não precisava, naquele momento, do decadente Vitorino. Era mais conveniente fazer o discurso da mudança e montar as bases que lhe permitiriam ocupar o espaço que estava vago no comando da política estadual.

No final da década de 60, Vitorino não disputa a reeleição para o Senado. Estava inteiramente desarticulado de suas antigas bases no Maranhão (desarticulação feita pelo ex-governador Newton Belo) e sem força suficiente para, naquele momento, fazer valer sua vontade junto à ditadura. A partir dali, mesmo sem mandato, continuou a fazer política como membro do diretório nacional da ARENA, diretório esse que Sarney também fez parte.

Sobre a inimizade entre os dois se percebe, no depoimento publicado no livro de memórias de Vitorino Freire, que ele não assimilou o discurso de mudança utilizado por Sarney. Além da retórica demagógica, uma tentativa frustrada de Sarney de tira-lo do diretório nacional deu um ponto final na relação.

Em meados da década de 70, já com a inimizade estabelecida entre os dois, surge uma nova conjuntura. Nela Vitorino estava, em relação aos anos 60, mais forte dentro da ARENA pois tinha mais proximidade com o então presidente Geisel do que com o ex-presidente Castelo Branco, o primeiro após o golpe.

Sarney, exercendo ali seu primeiro mandato de senador, aceita fazer dentro da ARENA um acordo com Vitorino em torno da escolha do futuro governador do Maranhão a ser indicado pela ditadura. E nesse momento foi Vitorino que não quis conversa.

O general Ernesto Geisel, que era o presidente da época, concedeu uma entrevista nos anos 90 a dois pesquisadores da FGV (Maria Celina D‘Araújo e Celso Castro). Publicada num livro que levou o nome do ex-presidente ele conta, nessa entrevista, fatos da política maranhense dos anos 70. Diz que Sarney e Vitorino eram irreconciliáveis, afirmando também que “Vitorino dizia desaforos de todo jeito sobre o Sarney”.

E os fatos mostram que não era só o presidente da república que conhecia os ataques de Vitorino a Sarney. Em 1977, já no final de sua vida e ainda membro da ARENA, o ex-senador do Maranhão disse para a revista Veja na edição de 12 de janeiro daquele ano que “Sarney furta até cinzeiro de avião”.

E assim, fortalecido dentro da ARENA e falando grosso diante do presidente da república, Vitorino ainda conseguiu influenciar na escolha de um governador do Maranhão nos anos 70 (Nunes Freire) e deixou o seu filho, Luís Fernando, um apagado ex-deputado federal do PSD, com um mandato de senador do Maranhão até o ano de 1982, portanto, cinco anos depois de sua morte. E tudo articulado nos altos escalões da ditadura, a revelia de Sarney, o homem que, de fato, havia lhe substituído no Maranhão.

Na eleição de 1974 Vitorino colocou seu filho como suplente de Henrique de La Roque, que disputou sozinho a eleição daquele ano para o Senado. Os militares, com base num acordo feito com Vitorino, chamaram La Roque para assumir uma vaga no Tribunal de Conta da União, deixando o caminho livre para o filho do velho cacique.

Vitorino morreu em agosto de 1977, filiado a ARENA, o esteio do esquema Sarney no Maranhão. Sua morte deu fim a uma vida pública onde, com ou sem mandato, esteve próximo ao poder central do país. Uma proximidade que durou cinco décadas e que amparou sua vinda ao Maranhão nos anos 30 e depois nos anos 40.

A partir dos fatos fica claro que Sarney nasceu no vitorinismo se beneficiou dele a partir de cargos, do PSD, dos palanques e das articulações junto a Justiça Eleitoral. Depois, quando esse mesmo Sarney substitui Vitorino, o antigo chefe político também soube participar do poder no Maranhão. E sob os ares do sarneysmo, a partir da ditadura militar, a mesma que botou Sarney no poder, Vitorino também tirou grandes vantagens.

E assim se deu a substituição, com a decadência natural de um e o oportunismo e o despudor do outro. Sem o consentimento direto do substituído, mas com aproximações e afastamentos circunstanciais. E sem um confronto direto e definitivo. Enfim, sem uma batalha final que determinasse os vencidos e os vencedores.

Mas, juntos ou separados, Sarney e Vitorino sempre utilizaram o Maranhão para ter poder. Um nasceu em Pernambuco e veio para cá em busca desse poder. O outro nasceu aqui e depois foi se eleger no Amapá para continuar mantendo o poder que tem aqui. E lá se vão 60 anos, seis décadas, um período onde a população desse Estado foi, de fato, a grande derrotada, pois esteve sempre inteiramente desprezada pelo poder conquistado, tanto pelo primeiro, como pelo segundo coronel.

*Emílio Azevedo é jornalista com pós-graduação em políticas públicas

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.