terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Canto de guerra e dor. Gaza Sobreviverá


Subcomandante MARCOS, EZLN, de algum ponto na serra de Chiapas, México. 30/1/2009, Counterpunch.

Há dois dias, no mesmo dia em que discutíamos a violência, a inefável Condoleezza Rice, funcionária dos EUA, declarou que o que estava acontecendo em Gaza seria culpa dos palestinos, "povo naturalmente violento".
Os rios subterrâneos que correm em rede pelo mundo variam na geografia, mas, todos, cantam o mesmo canto. Esse canto, hoje, é de guerra e dor.
Não longe daqui, num lugar chamado Gaza, na Palestina, no Oriente Médio, bem aqui, perto de nós, o governo de Israel militarmente treinado e armado continua sua marcha de morte e destruição.
Os passos de Israel são passos clássicos nas campanhas militares de conquista: primeiro, bombardeio massivo, para destruir pontos militares "estratégicos" (como dizem os manuais militares) e para "desestimular" movimentos de resistência; depois, controle férreo da informação: tudo que é dito e visto "no mundo exterior", isso é, fora do "teatro de operações", deve ser filtrado por estritos critérios militares; então, fogo intenso de artilharia contra a infantaria inimiga para cobrir o avanço dos soldados para as novas posições; então, sítio e bloqueio, para enfraquecer o inimigo; então, o assalto, que conquista posições de implantação e aniquila o inimigo; então, a "varredura", para "limpar" possíveis "ninhos de resistência".
O manual militar da guerra moderna, com mínimas variações e acréscimos, está sendo seguido, linha a linha, pelo exército invasor.
Pouco sabemos sobre isso, e há especialistas para escrever sobre o chamado "conflito no Oriente Médio". Mas daqui de onde estamos, à esquerda e abaixo, temos algo a dizer:
Conforme as fotos dos noticiários, os pontos "estratégicos" destruídos pela força aérea do governo de Israel são casas, barracos, prédios de apartamentos. Não vimos destruídos um bunker, nem tendas de campanha, nem aeroporto militar, nem há canhões nas ruínas. Então ? e, por favor, perdoem nossa ignorância ?, das duas uma: ou os artilheiros dos aviões têm má pontaria, ou não há, em Gaza, os tais alvos militares "estratégicos".
Nunca tivemos a honra de visitar a Palestina, mas supomos que as pessoas, homens, mulheres, crianças e os velhos ? não soldados ? viviam naquelas casas, barracos e prédios.
Não vimos movimentos de exército de defesa. Só há ruínas de casas, barracos e prédios.
Mas vimos, sim, os esforços fúteis para sitiar a informação, e os governos do mundo tentando decidir-se entre ignorar e aplaudir a invasão, e a ONU, que há muito tempo já é inútil, distribuindo ternos comunidados à imprensa...
Mas... calma. Esperem. Ocorre-nos que talvez, para o exército de Israel, aqueles homens, mulheres, crianças e velhos sejam os soldados inimigos, e, nesse caso, os barracos, casas e prédios onde moravam são os quartéis que têm de ser destruídos...
Então, a chuva de bombas que choveu hoje cedo sobre Gaza visava a proteger o avanço da infantaria israelense, contra o ataque de homens, mulheres, crianças e velhos.
E o exército inimigo que tinha de ser enfraquecido pelo sítio que foi imposto em Gaza é a população palestina que ali vive. E o assalto visou a aniquilar a população. E quem fosse, homem, mulher, criança ou velho, que tentasse escapar ou esconder-se do assalto sanguinário em marcha seria em seguida "caçado", até que a limpeza estivesse completa e os comandantes encarregados da operação pudessem relatar aos superiores: "Missão cumprida."
Outra vez, perdoem nossa ignorância, e talvez estejamos dizendo coisas que não são importantes. E, em vez de condenar um crime em andamento, sendo indígenas mexicanos e guerrilheiros como somos, deveríamos discutir e tomar posição na discussão sobre se quem começou tudo foram os "sionistas", os "anti-semitas" ou as bombas do Hamás.
É possível que nosso pensamento seja muito simples e que não percebamos as nuances e os detalhes sempre importantes nas análises, mas do ponto de vista dos Zapatistas, o que vemos é um exército profissional matando população civil desarmada.
Quem, da esquerda e de baixo, poderia calar-se?
Basta dizer alguma coisa? Nossos gritos algum dia detiveram uma única bomba? Nossa fala salvará a vida de um único palestino?
Achamos que sim, que nossa fala é útil. Não deteremos bomba alguma e nossa palavra não é escudo blindado à prova das balas calibre 5,56 mm ou 9 mm em que se lê o logotipo "IMI", de "Indústria Militar Israelense" gravado na base do cartucho e em fuzil mirado para o coração de uma menina ou de um menino, mas talvez nossa fala una-se a outras forças, no México e no mundo e talvez, primeiro ouvida como murmúrio, depois mais alta, até ser um grito que se ouça em Gaza.
Nada sabemos sobre vocês, mas nós, os Zapatistas do Exército Zapatista de Libertação Nacional, sabemos o quanto é importante, em momento de destruição e morte, ouvir palavras de encorajamento.
Não sei como explicar, mas fato é que, sim, palavras não detêm bombas, mas são como uma brecha que se abre no quarto escuro da morte, por onde entra um raio de luz.
Como sempre, o que tiver de acontecer acontecerá. O governo de Israel declarará que acertou golpe severo no terrorismo, esconderá da opinião pública israelense a magnitude do massacre, a grande indústria da guerra terá obtido apoio econômico para enfrentar a crise, e "a opinião pública global", essa entidade maleável sempre na moda, dará as costas.
Mas não só isso. O povo da Palestina também resiste e sobrevive e continua a lutar e sua causa continua a receber a simpatia dos de baixo.
Sobreviverão muitas crianças, meninos e meninas de Gaza. Crescerão e, com eles, crescerá a força, a indignação, a digna raiva. Muitos serão soldados ou guerrilheiros ou milicianos de algum dos grupos que lutam na Palestina. Alguns, um dia, se verão em combate contra Israel. Esses aprenderão a atirar e atirarão. Outros serão mártires, e se sacrificarão, com um colete ou um cinturão de explosivos.
Depois, os poderosos escreverão sobre a natureza violenta dos palestinos e declararão declarações em que condenarão a violência. E voltarão às conversas sobre se o caso é o sionismo ou se o caso é o anti-semitismo.
Ninguém perguntará quem plantou o que está sendo colhido.
Artigo original, em inglês, pode ser lido em:
http://www.counterpunch.org/marcos01302009.html

Será?

As notícias sobre esta crise financeira e econômica são tantas e contraditórias que às vezes nos questionamos se em toda esta loucura não se esconde coisa pior…
Depois, a insistência com que alguns “formadores de opinião” de serviço nos brindam com afirmações do tipo de que “a procissão ainda vai no adro”, mais nos suscita a suspeita de que a Oligarquia Internacional ainda quer mais… ou seja, ainda não se deu por satisfeita.
Os homens de mão da Oligarquia Internacional andaram todo este tempo a anunciar que bom mesmo era a sacrossanta Economia de Mercado. Diga-se, uma economia livre de qualquer proteccionismo e de qualquer controlo nacional, porém submetida às conveniências do mercado financeiro internacional. Convocaram, inclusive, a Ecologia, onde descobriram um novo “El dourado”. Veja-se, por exemplo, o que se passa com o CO2, que transformaram no mercado do carbono, e as energias alternativas, onde se acotovelam os interesses comerciais de “respeitados” ambientalistas, a começar pelo Sr. Al Gore. Para tanto, lançaram-se num vasto programa de marketing insinuante, com recurso a todos os meios de comunicação. Seus agentes têm-se socorrido de tudo, desde a montagem cinematográfica, à pseudo ciência assente em modelos informáticos programados para dar a resposta política pretendida. É preciso convencer o pacato cidadão que a única forma de proteger o ambiente e salvá-lo do apocalíptico “Aquecimento Global” (Para eles aliás tudo é global…), nada melhor que a Globalização para definir e impor políticas comuns e globais de “preservação” da Natureza, se possível sem o bicho homem comum… Chegam a advogar, entre dentes, o direito de interferir quando os Estados Nacionais não a asseguram “convenientemente”, ou seja, de acordo com as suas regras. Criaram ONGs pseudo-científicas, por vezes financiadas pelos Governos Nacionais, logo com o dinheiro do contribuinte, para denunciar aquilo que eles entendem como destruição da biodiversidade. Todavia muitos dos seus membros não prescindem do conforto que a Economia do Petróleo lhes proporciona. A retórica ambiental prossegue, apesar da crise financeira e económica que vivemos, de que são os principais responsáveis, como também o é a sua indústria em relação à poluição. Na verdade o que buscam, além da oportunidade de um negócio estratégico altamente lucrativo, que a Ecologia Fundamentalista induz, é o total controlo das commodities, através do que podem impor uma escassez deliberada e consequentemente os preços, mas também vergar resistências ao seu secreto Poder Tentacular. Daí que não é um acaso que as áreas da seu enfoque ideológico são normalmente as mais ricas em recursos naturais, de que a Região Amazónica é talvez o exemplo mais extremado. Pela mesma razão, advogam o direito de intervir militarmente onde entendem que a sua “Democracia” é mal compreendida pelos governos locais… Porém só o fazem em países onde abunda o petróleo e o gás natural, ou que são concorrentes em áreas vitais para a sua Economia Global. A guerra com o Iraque começou quando Sadam Hussein pretendeu ser um produtor independente de petróleo, rompendo com o monopólio da OPEP e das Petrolíferas, cujo capital é na sua maioria Ocidental. A actual “guerra fria” com o Irão, tem a ver não tanto com o vector militar, ainda que este seja o argumento mais propalado, mas com o “negócio” do nuclear em que os Oligarcas Internacionais têm um interesse particular, como é óbvio. Quanto mais escassear os combustíveis fósseis, mais aquele se colocará na agenda económica dos principais centros de Capital, que pretendem tê-lo só para si como já fazem em relação a quase tudo.
Daí que tais paladinos da Globalização e do Internacionalismo, quer da esquerda, quer da direita, façam um ataque ideológico sistemático a tudo que cheire a autonomia, a independência, a proteccionismo, que, de imediato, apodam de nacionalismo xenófobo e com outros mimos… Trata-se de uma confusão deliberada para desmoralizar os que, por imperativo moral, pretendem em primeiro lugar a defesa da Economia do seu país, para desta forma melhor servir o povo. A acreditar nas últimas notícias oriundas das terras do Tio Sam, Obama lançou o repto ao consumidor norte-americano para dar preferência aos produtos nacionais, como forma de minimizar o desemprego. Não nos admiremos se a seguir não o chamem também de nacionalista e xenófobo. Na verdade, as grandes potências, nomeadamente os USA, nunca precisaram de o fazer evocando sentimentos arrebatados de patriotismo. Já o fazem e de há muito, só que de forma quase subliminar... A Globalização alargou de tal maneira o domínio económico dessas potências que os seus limites territoriais confundem-se praticamente com as fronteiras geográficas dos Estados Nacionais. Não precisam do proteccionismo clássico porque os seus interesses são garantidos no interior destes, ao mais alto nível, sem que ninguém tenha disso qualquer suspeita!
Desde a primeira hora da crise que afirmam que esta é global e portanto tem que ter uma resposta global. Será? Adiantam que, com justificável receio, que o regresso a qualquer proteccionismo será contraproducente. Ah, isso não temos dúvidas… Mas para quem? Ora se foi pela mão da Globalização Económica que chegámos aqui, como esperar que o mesmo sistema, que gerou tanto desequilíbrio social no Planeta, consiga alguma vez resolver os problemas que são o resultado normal de um sistema que exacerba todos os pecados e vícios de um Capitalismo que aboliu a fruição económica, como método de progresso social dos trabalhadores e dos povos em geral? Segundo as últimas notícias da FAO, a crise põe em risco de fome mais 100 milhões de vidas, além das que já existem. É evidente que a superação da crise não está em mais do mesmo… Mas infelizmente o que observamos é que os governos nacionais se articulam para aplicar as receitas económicas e financeiras que o sistema prodigaliza e estes dizem cínica e simplesmente amém. O nosso socrático governo, por exemplo, ainda por estes dias afirmou que o problema do desemprego não se resolve nem com a redução dos direitos dos trabalhadores, nem com o proteccionismo (SIC)… Olha quem fala? É preciso ter lata… No primeiro caso, nega-o com a nova Lei do Trabalho e com todos os cortes sociais, que têm afectado funcionários públicos e reformados. No segundo, seguem caninamente as directrizes dos seus “donos internacionais”. Depois não venham dizer que não existe uma central de inteligência internacional a comandar os destinos dos povos… em conúbio com os governos nacionais.
É claro que para chegarmos a este estado de coisas muito se trabalhou para desarticular e desconstruir as Economias Nacionais. A primeira de todas, no caso português, foi o abandono do sector primário e, consequentemente, de toda indústria que dele dependendia. Logo aí perdemos a nossa autonomia alimentar. Alguém nos disse um dia que um país que não consegue produzir pão e carne suficientes para alimentar o seu povo, está condenado a depender de outros… Mas a pedra de fecho do arco do empobrecimento nacional foi ter abandonado a cunhagem de moeda própria e o controlo dos fluxos de capital. E agora chegamos ao triste drama de dependermos a 80% de importações para comer e de precisarmos de nos endividar cada vez mais para pagar o que consumimos, que consumimos, em muitos casos, alegremente, sem nos importarmos com o dia de amanhã. Um défice alimentar combinado com a escassez de meios monetários só pode nos conduzir à servidão… Desculpem, mas este é que é o nome do boi… Alguns políticos e economistas insistem no aumento das exportações, como forma de equilibrar a balança comercial e a balança monetária, reduzindo deste modo o recurso ao crédito e ao aumento consequente da dívida externa. Estamos na União Europeia, contudo não somos ainda (por enquanto), em termos económicos, uma província de Bruxelas… ou de Espanha, condição que decerto nos permitiria estar sob o chapéu protector de um governo central, como estão as Regiões Autónomas de alguns países. Mas como exportar mais, se o mundo está em recessão, nomeadamente os nossos tradicionais mercados de exportação: Europa e USA? Mas como, se os nossos factores de produção são agravados pela nossa dependência externa de commodities e capital? Desculpem-nos mas parece que andam a mangar com o Zé Povinho. Ah mas vamos todos viver dos serviços, principalmente da inovação tecnológica…, que não tarda a reinventar a roda… Do Turismo, como se a crise só existisse em Portugal… Cavar a terra, verdadeira fonte de riqueza, e dela tirar o pão, isso é conversa de pacóvios da província, saudosistas do antigamente. “Peixe morre pela boca” e os Senhores do Mundo e os seus vassalos estão precisamente a matar-nos pela boca…
Ficamos, com efeito, a pensar na súbita apetência dos oligarcas internacionais pelo chapéu protector do Estado. Espanta-nos que de uma hora para a outra, ferrenhos neoliberais estendam o chapéu a pedir batatinhas a quem tanto abominaram e tentaram reduzir ao estado mínimo. E conseguiram-no! Que tanto fizeram para desvincular o Capital das suas obrigações sociais. E conseguiram-no! Agora pedem o sacrifício de todos para salvar sobretudo a sua pele… E os governos, que os cidadãos elegeram para defender o bem comum, mas ao que parece estão à frente dos Estados Nacionais para servirem o Sistema Financeiro Internacional, não se fazem de rogados… Estendem à “pobre” Oligarquia Internacional uma mão “generosa” cheia de biliões de euros e de dólares, à custa dos contribuintes e do endividamento progressivo dos Estados. Será isto um acaso? Não nos parece. Ou bem nos enganamos, ou está em marcha a última etapa da destruição do que resta do Estado Nacional, que no fim da crise ficará arruinado, a menos que entretanto haja um milagre… Aproxima-se o ocaso da Civilização Ocidental. Será que é tal que objectivam? Será?
Artur Rosa Teixeira
De Ponta Delgada, Portugal, em 15 de fevereiro de 2009
artur.teixeira1946@gmail.com

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Sobre Gaza, sobre Israel, sobre nós


O direito dos Estados está acima do direito dos povos. Entre Israel e Palestina, um lobby israelense em Washington. Está feita a declaração: aos que querem a terra, ela lhe será dada, uma cova rasa, mais exatamente. Mas não se iludam: Somos todos Palestinos!
Sílvia Ferabolli, Cláudio César Dutra de Souza
(05/02/2009)
Aqui na Europa, manifestações eclodiram por toda parte. Em Paris, uma marcha contra o holocausto palestino reuniu quase 100 mil pessoas. Em Londres, prédios universitários foram ocupados e milhares de estudantes reuniram-se em frente à embaixada israelense exigindo o fim do massacre contra o povo palestino. Outras capitais européias também assistiram várias formas de mobilização popular contra o avanço de Israel sobre o mais famoso bantustão do mundo – a Faixa de Gaza, o campo de extermínio daqueles que vivem a luta e morrem pela causa palestina.
Infelizmente, os milhões de cidadãos que expressaram sua repulsa contra a política israelense em manifestações que varreram o globo, não encontraram eco em suas ações por parte de seus chefes de Estado. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, foi o único líder de uma nação que ousou ouvir o clamor popular e expulsou o embaixador israelense de seu país. Tivessem outras lideranças seguido o exemplo de Chávez na América Latina, África, Ásia, Europa e América do Norte, o isolamento diplomático israelense seria tamanho que não haveria alternativa a Tel-Aviv a não ser o recuo. Contudo, esse não foi o caso. Para além dos clássicos e inócuos chamados de paz, nenhum presidente, primeiro-ministro, rei, chanceler ou sultão ousou desafiar Israel com aquela que é uma das mais radicais armas que a diplomacia internacional possui: a ruptura das relações diplomáticas e o erigir de pesadas sanções políticas e econômicas.
Para entender a apatia da diplomacia internacional frente às ações de política externa israelense é necessário compreender como funciona a ordem internacional e como ela é promotora e perpetuadora de relações de dominação entre Estados opressores e povos oprimidos.
Vivemos dentro de uma lógica política internacional onde o direito dos Estados está acima do direito dos povos. Israel, como um Estado, teria o direito de se defender contra aquilo que ele considera ser uma ameaça a sua sobrevivência estatal, nesse caso, as ações do Hamas. Os palestinos, por seu turno, não possuem um Estado e, portanto, nenhum direito dentro de uma lógica estatal internacional perversa que nega aos povos do mundo qualquer direito para além daquele que seu próprio Estado lhe provém. Fora do Estado, a vida não é possível, já sentenciava Thomas Hobbes, o pai do pensamento realista, e dominante, das Relações Internacionais.
O grande problema que emerge dessa constatação é que embora os Estados interajam em um sistema anárquico, onde não existe uma autoridade central e cada Estado é soberano e, portanto, dono do direito de agir como melhor lhe convir, existe, sim, aquilo que se chama de ordem internacional, cuja responsabilidade pela sua manutenção é das grandes potências. Na atual configuração sistêmica que, embora apresente alguns contornos multipolares no campo econômico, em termos de liderança política e estratégica, é claramente unipolar. Só há um país capaz de fazer Israel parar – os Estados Unidos da América. E por que não o fazem? John Mearsheimer e Stephen Walt, já em 2006, ofereciam uma resposta: o lobby israelense em Washington.
Numa tentativa de compreender o porquê dos Estados Unidos comprometerem seus imperativos de interesse nacional no Oriente Médio pelo massivo apoio a Israel, mesmo quando esse deixa de ser um patrimônio estratégico com o fim da Guerra Fria, Mearsheimer e Walt acabam por revelar uma história de bastidores movida a bilhões de dólares de grupos lobistas israelenses e sustentada por uma poderosa indústria do holocausto. Para aqueles que insistem em ver Israel como um pequeno David que luta para se defender do monstruoso Golias representado pelos árabes-palestinos, selecionamos alguns pontos da obra The Israel Lobby in Washington, que podem lançar luz sobre o atual debate em torno da política expansionista israelense e a condescendência norte-americana para com seu aliado incondicional no Oriente Médio.
“Depois da formação de um grande exército, na esteira do estabelecimento de nosso Estado, nós aboliremos a partilha e expandiremos nosso Estado para toda a Palestina”
No que concerne à suposta fraqueza israelense, Mearsheimer e Walt argumentam que ela é inverídica, na medida em que Israel derrotou os árabes nas Guerras de 1948-49 e 1967, sem a ajuda de forças externas. Foi após essa última vitória que Israel começou a ser considerado um patrimônio estratégico para os Estados Unidos. Conseqüentemente, começou a receber ajuda financeira norte-americana - Israel é o maior receptor de ajuda externa estadunidense no mundo, imediatamente seguido pelo Egito, cuja ajuda está condicionada à manutenção de relações diplomáticas com Israel, enquanto a ajuda aos israelenses não prevê nenhum condicionante.
Quanto ao fator democracia, tal argumento se enfraquece por aspectos da democracia israelense que são estranhos aos valores fundamentais ocidentais: Israel foi explicitamente fundado como um Estado judaico e a cidadania é baseada no princípio da consangüinidade. Dado esse conceito de cidadania, não se estranha que os 1,3 milhões de árabes-israelenses sejam tratados como cidadãos de segunda classe.
Quanto ao Holocausto, os autores argumentam que não há dúvida de que os judeus sofreram historicamente devido ao anti-semitismo e que a criação do Estado de Israel foi, sim, uma resposta apropriada a um longo histórico de crimes contra o povo judaico. Porém, a criação de Israel envolveu crimes adicionais contra um povo absolutamente inocente: os palestinos.
Especificamente no que concerne à disposição de Israel de aceitar a criação de um Estado palestino, dentro da lógica “segurança para Israel e justiça para os palestinos”, como se fosse possível conciliar os imperativos de segurança israelense com o direito à existência do povo palestino, Mearsheimer e Walt nos informam que nunca houve, na proposta sionista, a intenção de dividir o território da Palestina em dois Estados. Como Ben-Gurion sentenciou no final dos anos 1930: “Depois da formação de um grande exército, na esteira do estabelecimento de nosso Estado, nós aboliremos a partilha e expandiremos nosso Estado para toda a Palestina”. Ou seja, desde o princípio, aceitar a idéia de dois Estados foi apenas uma manobra tática israelense, não um objetivo real. Ainda, para alcançar o objetivo de fundação de seu Estado, os sionistas teriam de expulsar um grande número de árabes do território que viria a se tornar Israel. Ben-Gurion viu esse problema claramente já em 1941: “É impossível imaginar a evacuação geral da população árabe senão pela força – e força brutal!” Essa oportunidade veio com a Guerra de Independência (1948-49), quando as forças israelenses forçaram o exílio de mais de 700 mil palestinos. Ou seja, se o povo que formou originalmente o Estado israelense sofreu, também fez, e faz, outro povo sofrer tanto ou mais.
“Os judeus estão loucos”!
Por fim, a tese dos “israelenses virtuosos” versus os “árabes malditos”. De acordo com Mearsheimer e Walt, acadêmicos israelenses de esquerda têm mostrado que os sionistas foram qualquer coisa, menos benevolentes com os árabes-palestinos. A resposta sionista à resistência palestina à criação do Estado de Israel envolveu atos explícitos de limpeza étnica, incluindo execuções, massacres e estupros. A média de mortes nesses mais de 60 anos de conflito é de 3.4 palestinos mortos para cada israelense – a proporção de mortes de crianças é de 5.7 crianças palestinas mortas para cada uma israelense. Tanto é que Ehud Barak uma vez admitiu que se ele tivesse nascido palestino, certamente teria se juntado a uma organização terrorista. Talvez, dissesse melhor, e com mais clareza, uma organização de resistência á uma ocupação externa.
A reflexão de Nidal Basal, um menino palestino de 12 anos, feita durante o período mais intenso das ações militares israelenses na Faixa de Gaza, reflete a perplexidade de milhões de cidadãos pelo mundo. Em resposta a Nidal, esclarecemos que Israel não enlouqueceu, malgrados os bombardeios contra escolas da ONU e a proibição de evacuação civil da região. Dificilmente poderíamos crer que ações militares planejadas e postas em prática em um período do ano em que o presidente da União Européia, Nicolas Sarkozy, em final de mandato, tira férias no Brasil e que o governo dos Estados Unidos vive uma transição de poder, sejam atos impensados de loucura e selvageria despropositada. Nesse caso, haveria atenuantes, como na justiça criminal, ao julgar um cidadão que tenha agido sob “forte emoção” ou que estivesse em algum estado alterado de consciência. Ao contrário, se há premeditação, motivos torpes ou incapacidade de defesa da vítima tudo isso constitui-se em agravantes que poderiam gerar penas mais severas em um julgamento criminal.
Contudo, poderíamos pensar que, ao invés de indivíduos mentalmente perturbados, estivéssemos à mercê de burocratas frios, cuja presença do “outro” fosse apenas um detalhe incômodo entre um objetivo matematicamente traçado e a sua efetiva concretização. Compreendemos com Hannah Arendt a banalidade do mal e nos chocamos profundamente ao pensarmos no quanto os mais perigosos assassinos podem ser pessoas tão afáveis e cultas, que apreciam a arte e amam as crianças e os animais. Eichmann em seu julgamento em Jerusalém nada mais fez do que mostrar-se um burocrata obediente às ordens de seu chefe, mesmo que elas fossem o extermínio de um povo. Assassinos podem ser pessoas muito agradáveis e cordatas. Podem ser eu ou você em uma situação específica tal como a situação de guerra quando o inimigo é todo aquele que não utiliza o nosso uniforme e nem compactua de nossa ideologia.
Itzhak Shamir chamava os palestinos de “gafanhotos”. O general Raphael Eitn, de “baratas”. O Ministro da Defesa, Ben-Eliezer, os definiu como “piolhos” ...
Como pode um Estado considerado uma democracia tão avançada e com expoentes intelectuais de alto calibre perpetrar atos como esses que assistimos na Faixa de Gaza, onde a matança indiscriminada de civis inocentes de forma cruel e arbitrária coloca Israel par a par com as piores das históricas ditaduras do Terceiro Mundo? Em Gaza, uma população encontra-se à mercê de um Estado anômico e sociopático que age premeditada e milimetricamente no intuito de exterminar o maior número de seres humanos contrários aos seus planos expansionistas e imperiais. Todavia, o discurso manifesto é o de eliminar a ameaça terrorista do Hamas (democraticamente eleito e, portanto, apoiado por grande parte dos palestinos). Contudo, é de se perguntar como reconhecer os membros do Hamas no meio da massa indistinta no território de Gaza. Eles usam uniformes, estão reunidos em uma sede oficial a decidir os rumos de sua atuação presente e futura? É evidente que não. Em Gaza, cada cidadão é potencialmente um apoiador, um simpatizante ou possui algum conhecido dentro do Hamas, logo, cada ser humano é um alvo em potencial.
Falamos em seres humanos, mas aqui cabe uma correção, pois os palestinos não parecem estar classificados nessa condição, segundo o ponto de vista de diversos líderes israelenses. Itzhak Shamir os chamava de “gafanhotos”. O general Raphael Eitn os chamou de “baratas”. O Ministro da Defesa, Ben-Eliezer, os definiu como “piolhos” e para o ex-primeiro-ministro Menahem Begin, os palestinos eram “bestas caminhando sobre dois pés”. Por fim, a primeira-ministra Golda Meir chamava-os de “animais de duas patas”. Para Ehud Olmert eles seriam o que nesse exato momento? Certamente, qualquer coisa, menos humanos.
Alguém acredita que o Estado de Israel corre um sério perigo que ameaça efetivamente a sua existência? O Hamas tem um poder definitivamente devastador e que pode causar sérios danos à infra-estrutura e aos cidadões israelenses, motivo mais do que suficiente para um ataque desse porte? As armas que o Hamas possui são modernas e letais e isso constitui-se em um motivo plenamente justificável para que os corpos de palestinos inocentes apodreçam a céu aberto? A resposta a todas essas perguntas é evidentemente negativa e só Israel e os Estados Unidos têm o cinismo de sustentá-las seriamente.
Convencionando que a paz (para si) é um dos objetivos de Israel, aliado com a sua lendária necessidade de segurança, convém lembrar que a paz e a prosperidade caminham de mãos dadas. Após esses trágicos bombardeios, justificáveis tão somente dentro da ótica distorcida do agressor, o proto-Estado palestino vai demorar vários anos para conseguir retornar ao grau de miserabilidade anterior a dezembro de 2008. Sem contar o luto das famílias que perderam seus entes queridos, suas casas, sua história e sua dignidade. Os cemitérios são, sem dúvida, locais em que existe uma grande paz, afinal, os mortos não têm necessidades, queixas ou reivindicações de qualquer ordem. Aos que querem a terra, ela lhe será dada, uma cova rasa, mais exatamente. Como a paz poderá ser feita nessas condições é algo que nos perguntamos e que os líderes israelenses nunca respondem de forma conveniente. O que sabemos, com certeza, é que o governo norte-americano é tão responsável pela atual política genocida israelense contra os palestinos quanto os são as lideranças sionistas dentro e fora de Israel. Os Estados Unidos podem, mas optam por não parar Israel, temendo a reação de um lobby que, pelo poder financeiro de seus membros e a ideologia da indústria do holocausto, ameaça não só tornar Israel o ator central de um teatro de horrores que envergonha a humanidade como também acabar, definitivamente, com a legitimidade da já cambaleante Organização das Nações Unidas.
Não tenhamos ilusões quanto à capacidade de influência dos milhões de cidadãos espalhados pelo mundo que saíram às ruas para protestar contra o flagelo impetrado aos palestinos em nome da pax israelense, que encontra na pax americana a sua parceira ideal no perpetrar de crimes de guerra. Enquanto a lógica que dominar o mundo for aquela do direito dos Estados e não a do direito dos povos, nossa voz não será ouvida e o futuro da humanidade – o nosso futuro – será decidido à nossa revelia. Não nos iludamos: SOMOS TODOS PALESTINOS!
Mais:
Cláudio César Dutra de Souza e Sílvia Ferabolli são colaboradores do Caderno Brasil de Le Monde Diplomatique.

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.