sábado, 21 de novembro de 2009

Feriado de Zumbi, a pior forma de evocar a “consciência negra”


"Nós, do Brasil, somos uma raça miscigenada. Eu tenho a minha bisavó negra, que foi escrava. A minha avó era mulata. Se você olha para mim, eu sou branco, mas eu não sou branco de fato. Então, não existe problema racial no Brasil"
José de Alencar, vice-presidente da República, 28 de março de 2007.
“No Brasil, há brancos na aparência que são africanos na ancestralidade. E há negros, na aparência, que são europeus na ascendência! O professor Sérgio Pena, no estudo denominado Retrato Molecular do Brasil, chegou à conclusão de que, além dos 44% dos indivíduos autodeclarados pretos e pardos, existem no Brasil mais 30% de afrodescendentes, dentre aqueles que se declararam brancos, por conterem no DNA a ancestralidade africana, principalmente a materna”.
Roberta Fragoso Menezes, advogada.


Na montagem, poucos no monumento de Zumbi e praias apinhadas
A transformação em feriado do dia atribuído à morte de Zumbi dos Palmares se insere nesse ambiente de fantasias, hipocrisias, manipulação e irresponsabilidade que faz a festa dos oportunistas e dos falsos profetas.
Estou falando ainda de um feriado que começou pela cidade do Rio de Janeiro, contra meu voto na Câmara Municipal na década de 90, mas vejo que há uma tendência a alastrá-lo pelo Brasil. Aqui, já é também feriado estadual e não será de admirar se um dia, por conta da farsa em curso, tornar-se efeméride nacional com direito à suspensão da atividade laboral.
E vejo essa paralisação – que acarreta um prejuízo de mais de R$ 500 milhões à cidade do Rio de Janeiro, como espelho de uma época de sinais trocados, em que uma súcia de gigolôs do povo vende a idéia suicida de que, na falta de remuneração justa ao trabalho, a resposta é reduzir ao mínimo possível a atividade laboral.
Ações “afirmativas” made in USA
Produto recente da engenharia política compensatória, a questão racial é tratada no Brasil com a reles importação de “ações afirmativas” adotadas nos Estados Unidos, onde o pau comeu até o assassinato de Martin Luther King e Malcolm X, líderes de duas vertentes do basta ao racismo ativo que enodoava a democracia norte-americana.
Lá, efetivamente, travou-se uma luta contra estatutos segregacionistas, que acumularam uma pesada dívida da sociedade com a comunidade negra. Por séculos, principalmente nos Estados do sul, os negros foram bloqueados do acesso às escolas, ao trabalho qualificado e ao convívio com os brancos. Havia lugares em que não podia entrar no mesmo ônibus ou comer no mesmo restaurante dos brancos.
Os entraves registrados entre nós tiveram e têm características diferentes e estão intrinsecamente associados à condição social. Passam pelo mesmo sufoco negros e brancos das favelas, das periferias e das classes subalternas.
Em outras palavras, se as estatísticas apontam para o baixo percentual de negros em cargos de chefia ou no andar de cima da economia, essa é uma decorrência do baixo índice de mobilidade social, diante de um Estado que opera intencionalmente a cristalização fatalista da sociedade de ricos e pobres.
Os negros que chegaram ao Brasil como escravos são partes das camadas seletivamente embarreiradas. É fácil, por visível a olho nu, detectar o quadro de subalternização dos negros. Quero ver é uma pesquisa sobre os brancos e negros que, como o presidente Lula, conseguiram pular a cerca dos extratos de pobreza e de ignorância, os milhões de miseráveis condenados a uma vida segregada até bater as botas.
Não seria exagero dizer que a exploração de uma “consciência negra” conflituosa é mais um ardil do sistema para confundir e dividir as classes oprimidas. Essa afirmação tem suporte nas “ações afirmativas” como as cotas raciais nas universidades públicas, através das quais os negros, pobres ou não, ganham uma janela negada aos seus parceiros pobres, que não podem fazer uso da condição racial para acessar ao ensino público de terceiro grau sob a proteção de cotas.
Feriado como cortina de fumaça
A discriminação racial no Brasil existe, com suas características próprias. Portanto, deveria ser combatida com tratamentos próprios. Nesse aspecto, num momento de rara lucidez, o governador Sérgio Cabral pôs o dedo na ferida na atitude das empresas. É evidente a discriminação, sobretudo nas áreas que lidam com o público.
Mesmo com a escolaridade necessária, é difícil encontrar um garçom negro. O mesmo acontece entre vendedores das grandes lojas. Por que essa exclusão racial não é enfrentada?
O problema é que a questão racial no Brasil entrou em discussão no mesmo momento em que criar uma ONG passou a ser um bom negócio. A solidariedade profissionalizou-se e o enfrentamento dos cancros sociais deixou de ser um objetivo honesto para virar um pretexto maroto.
Se não existir um certo tipo de tragédia não haverá como levantar recursos, públicos e privados, para manter os que se auto-definiram como operadores das soluções. Portanto, o pior que pode acontecer a pessoas financiadas como terceiros interessados para enfrentar determinado problema é o seu desaparecimento.
Nesse sentido, uma certa indústria de interesses dissimulados tende a viver de cortinas de fumaça. Qual o ganho para os negros com a paralisação da atividade econômica para lembrar a morte do seu maior ícone?
Como acontece todos os anos, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, o feriado de Zumbi num dia ensolarado é apenas um convite ao banho de mar. Isso eu vi mais uma vez nesse último dia 20: enquanto as praias estavam apinhadas de brancos, mestiços, mulatos e negros, os eventos programados junto ao monumento de Zumbi não reuniram mais de 300 pessoas, a quase totalidade trazidas em ônibus da Viação Braso Lisboa fretados por alguma ONG.
Nem mesmo a performance do governador Sérgio Cabral, que encenou alguns passos de capoeira, teve público condizente. Isso em contraste com as passeatas do orgulho gay, que empolgam as massas existencialmente aflitas, em fieiras de milhões de almas, felizmente num domingo, que já é dia de descanso pelo direito natural. (Ou será que os grupos GLS vão querer também ter o seu feriadinho?).
Quando me opus ao feriado de Zumbi e, depois, ao de São Jorge, lembrei que essa era forma mais inadequada de salientar a pujança do negro na formação da nossa cultura. Seria mais inteligente a realização de eventos nas escolas e centros sociais, sem prejuízo da atividade econômica, que é a garantia da produção dos meios à preservação do emprego de negros e brancos.
Mas o poder da farsa fala mais alto nos dias de hoje. No caso de nosso comércio, quem se beneficia dessa “homenagem” são as lojas dos shoppings, cada dia mais avassaladoras em relação às de porta de rua. Elas abrem de 3 da tarde às 9 da noite e abiscoitam a freguesia em ambiente de oligopólios.
É esse tipo de estupidez que me torna cada vez mais cético em relação ao futuro de um país em que, ao invés de pleitear melhor remuneração ao seu labor, o povo é induzido a acreditar em que o bom da vida é trabalhar cada vez menos.

12 comentários:

  1. Dr. Porfírio,
    parabéns pelo artigo. a introdução, onde vc. diz: "é esse tipo de estupidez...." isto lembra duas frases do Albert Einstein: 1)"Triste época ! É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito;" 2)"Só duas coisas são infinitas:o Universo e a estupidez humana. Quanto à primeira, não tenho certeza." Também concordo que o povão (negros, brancos, mulatos,......) continua sendo manipulado por uma elite escravocrata. Tudo bem, até quando? Parabéns !

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  2. Leon
    Obrigado pelo comentário, rico em ensinamentos que muito me acrescentaram.

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  3. Porfírio, aqui em Londrina está prestes a ser implantado o feriado da consciência negra. A matéria já foi votada na Câmara, faltando apenas o veto do prefeito. O tema teve repercussão na mídia, e pude ver que o debate girou sob uma simplificação estúpida do tema, sendo ainda nítido o tom racista dos que eram contrários ao feriado. Você expôs muito bem a real problemática do assunto, separando o feriado da celebração da consciência negra. Concordo plenamento com seu artigo. Feriados nada mais são do que um pretexto para o ócio e a volúpia. A luta e afirmação da consciência negra prescinde disto, e é feita muito mais eficazmente de outras formas. E, em Londrina inclusive, há um movimento pelo negro de boa atuação. Agora, esta identificação "feriado - afirmação da consciência negra" é uma produção da mídia, ou ela apenas reflete a consciência da população?

    Abraço.

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  4. Renato
    Infelizmente, a artimanha é completa. Inventam a manobra e ainda definem o que deve ser discutido. Resultado: a fraude ganha cores do bem e leva seus oposicitores a combatê-la pelo pior viés. Tudo porque o sistema tem sido competente em suas práticas de dominação. Ninguém tem mais envolvimento com a causa da maioria negra do que eu. Mas, o jogo é pessado.

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  5. Senhor Pedro Porfírio.

    Quem foi não deixa de ser, sempre será. Esta é uma condição humana, é como se estivesse no DNA. Há os que deixaram de ser mas toda vez que se depara com a lembrança; suam frio e fazem um grande esforço para não refazê-lo.
    Desde o início da década de setenta fiz sindicalismo, um pouco por teimosia outro por pura convicção.
    Foi neste período que me deparei com dois grandes segmentos do movimento negro, aqueles que entendem que o problema da negritude é uma questão de classe, portanto vão na linha do que Vossa Senhoria escreve sobre “Feriado de Zumbi, a pior forma de evocar a "consciência negra”.
    Custei a entender a postura daqueles que separavam a luta dos negros da luta dos demais trabalhadores, todos, vítimas daquilo que o Senhor chama de “escravos do salário”.
    Com o aprofundamento do debate entendi este posicionamento, porque o negro, tem além da questão de classe a sua negritude que é impedimento para romper as barreiras da ascensão social. Um branco subindo na vida passa desapercebido ocupa o seu espaço, sobe e desce e pode passar desapercebido, um negro em ascensão ao contrário, torna-se visível, vitima da tratoragem de todos os lados, inclusive dos da sua raça. Isto; falta o negro entender que raça não é sinônimo de cor.
    Ademir Klein

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  6. Porfírio boa noite
    Gostei do artigo e gostaria de botar lenha nesta fogueira com relação as cotas. Sou professor da rede pública de ensino onde estão a maior parte dos alunos negros.Falam sempre em fazer cotas, pra todo mundo, mas não falam em melhorar a qualidade do ensino público que serve a maior parte dos negros e pobres de uma forma geral.
    abraços

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  7. Anônimo11:30 PM

    Os principais atores do abolicionismo brasileiro foram os grandes latifundiários proprietários de escravos e uma nova elite urbana - mais apta aos desafios exigidos pelo capitalismo - que disputavam a hegemonia política e econômica no Brasil.
    Ambos com motivações econômicas, longe de qualquer filosofia humanitária, provando que anti-escravismo não é sinônimo de anti-racismo, por isso para os contendedores o lugar social que deveria ser ocupado pelos ex-escravos era a marginalidade. Entendiam que negros e escravos eram inaptos para um país que mudava, se desenvolvia e buscava a prosperidade
    Os Negros e escravos foram espectadores e objetos da disputa de poder intra-elite nos finais do século 19. De modo geral o povo assistiu atônito a substituição da mão de obra escrava pela livre e o nascimento da República. Durante a abolição a elite dominante pensou na forma de garantir a não integração da população negra e pobre na sociedade que surgia, queriam civilizar o Brasil com brancos europeus. Venceu o projeto que desejava uma liberdade sem asas, sem cidadania e sem dignidade. Venceu o projeto que desejava uma República sem povo, uma República oligarca e com contínuos espasmos autoritários. Venceu o projeto que desejava uma República incompleta, negligenciadora do bem comum.
    O resultado dessa vitória prejudicou o desenvolvimento econômico e social do Brasil. Estamos entre os países mais desiguais do mundo, sob usurpação do bem público através de inversão de prioridades, malversação e corrupção endêmica impregnada nos aparelhos de Estado. A classe dominante brasileira é antinacional
    racista, egoísta, preguiçosa, truculenta, violenta e,
    invariavelmente,esses qualitativos
    ecoam na classe média. A população negra continua majoritariamente a margem das benesses produzidas pelo trabalho coletivo. Está em desvantagem escolar e econômica, se encontra na pobreza, cárcere, desempregada, na informalidade, subemprego, em moradias precárias.
    A construção do Dia Nacional da Consciência Negra contrapõe-se as idéias orientadas pela versão histórica oficial, quando sustentam
    unilateralmente o dia 13 de maio. Elevam a Princesa Isabel ao símbolo
    maior do processo de libertação dos homens e mulheres escravizadas
    Vende nas escolas de todo país a idéia de que a filha de D. Pedro 2º é nossa redentora, de coração
    benevolente e caridosa,libertadora
    dos escravos, com isso reafirmam o projeto da elite do século 19.
    No dia 20 de novembro questionamos os resultados da Abolição e da República incompletas - escolha política do Estado e das elites brasileira. Projeta a extinção do racismo e a superação das mazelas que ele produz para o país.
    Transformar o Brasil em um país livre,soberano e com justiça social
    tal qual sonhou os palmarinos, nos dias 20 de novembro o movimento
    negro brasileiro organiza atividade
    públicas como forma de reivindicar políticas públicas de promoção social para a população negra e pobre. comunidades nas periferias dos grandes e médios municípios do país,onde concentram a massa pobre e alijada das benesses sociais. Podemos considerar o Dia Nacional da Consciência Negra uma data cívica de todos brasileiros. A população negra, através do movimento negro,mesmo sobrecivendo
    sob históricas desvantagens sociais e econômicas em trinta e seis anos, conseguiu tirar do fundo do baú da história um herói nacional. Isso se faz quando se tem profunda penetração na alma nacional, capacidade de propagar idéias e interferir na superestrutura da nação: ações efetivas contra a violência do Estado e do tráfico que vitimiza a juventude negra.
    (E o suco da couve está tomando?)
    Http://marildacdeoliveira.blogspot.com/

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  8. Anônimo8:55 AM

    Muito bom e oportuno este artigo. Isto é como dar balas para crianças famintas. Dá a sensação momentanea de que se alimentou, mas apenas assanha a verminose já instalada.Como bem disse o professor Carlos Henrique não há preocupação em melhorar a qualidade do ensino e sim criar arifícios apara enganar a pobreza em geral.A policagem vibra e sobrevive com estas quinquilharias sociais. Qualquer hora craim o dia internacional da pobreza... de espíruto!

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  9. Salvador de Farias12:53 AM

    Mas Porfíro:
    Quem colocou aquela cabeçona do Zumbi na Praça XI foi o Brizola, pessoa que você cultua muito. Disseram que custou uma fortuna, superfaturada.

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  10. Anônimo7:26 PM

    Concordo com o post que fala sobre quem colocou a estátua do zumbi na Praça XI. O Brizola caiu no conto do herói negro, visto que há contestações sobre a existência de tal personagem. Mas, "inergarvermente" Brizola foi o líder político que mais se preocupou com a sitação dos negros e pobres em geral. Ele e Darcy sempre defenderam o povo brasileiro, independente se afro, ou euro descendente, se índio ou oriental descendente. Como você bem disse, o sistema é competente para produzir factóides e arrsatar pessoas de bem em seus embrólios.

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  11. Interessante a lógica de Narloch ao falar que Zumbi tinha escravos. Vejamos.

    1-Primeiramente Narloch fala que O QUILOMBO tinha escravos com base na obra de Edison Carneiro, O Quilombo dos Palmares:

    "Os escravos que, por sua própria indústria e valor, conseguiam chegar aos Palmares, eram considerados livres, mas os escravos raptados ou trazidos à força das vilas vizinhas continuavam escravos..." (Edson Carneiro, O Quilombo dos Palmares)

    2-Em seguida, com base nesse trecho do livro que fala do Quilombo, Narloch diz que ZUMBI tinha escravos.

    3-E, logo após, na mesma página, Narloch fala:

    "Não dá para ter certeza de que a vida NO QUILOMBO era assim mesmo..." (Leandro Narloch, Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, pág. 86)

    Bom, se não dá para ter certeza de que a vida do Quilombo era assim, forçosamente então não dá para ter certeza de que a vida de Zumbi também era como ele narra.

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Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.