sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Estão espalhando que morri. Embora em dúvida, acho que ainda estou vivo.

“Orgulho-me de estar em tão boa companhia, com Sócrates, Cristo, Bruno, Galileu, Moisés, Savonarola, Dostoievski, Gandhi, Nehru, Mindszenty, Lutero e todos que combateram contra o demônio da ignorância, os decretos ilegítimos e as chagas sociais. Você aprendeu a esperar em Deus, assim como nós compreendemos a existência e o reino universais da Vida e do Amor.”
William Reich, em carta escrita da prisão para seu filho Peter, pouco antes da sua morte.

Primeiro, ligaram-me o Carlinhos e o Robson, da Libertaxi. Depois, recebi outros telefonas. Queriam saber se eu havia morrido. Era o que circulava na praça desde o apagão – quer dizer blackout – uma marolinha elétrica, segundo o Lobão e a Dilma, diferente das duas do governo passado, aqueles, sim, “verdadeiros dilúvios”.
A todos fiz questão de provar que estava mais vivo do que nunca. Tranquilizaram-se. Esses que ligaram, sei, não gostariam de me ver morto. Outros, não sei. Se não tivesse ninguém torcendo pelo meu passamento,  já teria nascido morto. Nesse mundo de canalhas em pencas, deixei alguns encolerizados, desejando-me ver pelas costas, se possível, a sete palmos.
Depois da última ligação, a última, pelo menos até o presente momento, comecei a me tocar. Será que estou vivo mesmo? Minha mulher disse que sim. E ainda vaticinou, plena da mais convicta certeza: você ainda tem muitos anos pela frente.
Não me convenceu. Esses dias, como você deve ter observado, não tenho escrito. Escrever para mim é um insubstituível ato de amor e de vida. Faço-o desde que me entendo por gente. Sob os mesmos impulsos e os mesmos valores, aliás.
Se não estou escrevendo, logo posso estar no limiar da morte cerebral. Ou simplesmente condenado à morte em vida, sob a acusação de teimosia, inconformismo e insubordinação.
Num transe, como aconteceu com William Reich, (judeu “germanizado”, ex-assistente de Freud, ateu, fugitivo dos nazistas), o mais genial dos investigadores da mente e da vida, que morreu numa prisão nos Estados Unidos e teve seus livros queimados depois que o FDA - Federal Food and Drug Administration – o acusou de charlatanismo, por estar desenvolvendo a “máquina do orgone”, um projeto de grande alcance vital*.
Está bem, não chego nem aos pés do inquieto cientista, que foi expulso do partido comunista por sua paixão pela psicanálise, e da Sociedade Pscanalítica por sua militância comunista.
A morte civil e o estômago engulhado
Mas no momento meu estômogo não está conseguindo digerir o que meus olhos vêem e meus ouvidos escutam. Daí a dificuldade de brotar do meu cérebro qualquer coisa que se insira no cotidiano de uma lógica abominável, construída pela hipocrisia e a fraude, num demoníaco turbilhão de aberrações gráficas e eletrônicas.
Neste momento, sinto-me abatido pela “morte civil”. Creio que não sou o único, antes, pelo contrário. Quando saio às ruas, dou-me ao trabalho de olhar os semblantes das pessoas. Tenho a sensação de um desfile de mortos vivos no desespero da corrida ao ar condiconado ou a ventilador que não eram tão vitais quando cheguei ao Rio, no frescor daquele abril de 1959.
Se ligo meus ouvidos, danificados pela tortura do frio julho de 1969, só ouço pasmaceira, conversa que já não serve nem para boi dormir. Mas que virou sonho de consumo, razão de viver de quem já se habituou à vida de gado – recusando queimar a mufa, deixando a arte do pensamento crítico aos cuidados de meia dúzia de cortesãos e arautos de uma mídia que se rivalizizam na doce vida da superficialidade boçalizada.
Não é só isso. Temo estar adquirindo uma paranóia fatal, a paranóia da internet. Explico: recebo muitas mensagens, a maioria, lamentavelmente, apenas “repassadas” por seus autores, que adquiriram o péssimo hábito de terceirzarem suas opiniões.
E vou lhe dizer com todo carinho e respeito: estou para descobrir alguma manifestação minimamente isenta, portanto, honesta. Cada um oferece um “pacote fechado”. Seja da direita ou da esquerda, dessa ou daquele corrente de pensamento, em geral, a lucidez e o senso de justiça passam ao largo de seus cérebros nervosos.
Onde está a coerência?
Exemplos? Em julho, o governo brasileiro recebeu com carinho e afeto a visita de Avigdor Lieberman, chanceler israelense, cujo partido é tão racista e belicista que mete medo aos próprios sionistas. Fora uma meia dúzia de gatos pingados, ninguém se levantou contra o objetivo de sua missão – torpedear a visita do chefe de outro Estado, que é o melhor parceiro comercial do Brasil no Oriente Médio. Não obstante, agora, em novembro, foi o próprio presidente de Israel, Shimon Perez, que veio aqui bater em todas as portas dos podres poderes para dizer que desaprova um ato de soberania do governo brasileiro.
Nesse episódio, quem aplaude a matança sistemática de palestinos que Israel promove, ao ponto de estar sendo levado aos tribunais pelas carnificinas de Gaza, só tem palavras para estigmatizar o presidente iraniano.
Lula recebeu Shimon Perez, chefe de um Estado usurpador e assassino, e ouviu dele um VETO à visita do presidente do Irã, nosso melhor parceiro comercial no Oriente Médio. E ainda tem gente que acha que chefe sionista está certo.

Outra coisa é o epíteto de ditador atribuído ao presidente da Venezuela, reeleito em pleito  limpíssimo, que eu acompanhei com meus próprios olhos em 2006. Como ele é hoje o principal alvo dos contrariados donos do mundo, que já tentaram derrubá-lo em 2002, o seu sistema de participação direta do povo, através de referendos, em função do qual ganhou o direito de concorrer a um terceiro mandato, é tido como expressão de uma “ditadura populista”.
Seu colega colombiano, Álvaro Uribe, que hospeda um monte de bases militares norte-americanos de cara para a Venezuela, também está correndo atrás do terceiro mandato, só que pelos métodos da corrupção dos parlamntares. Como ele é da copa e da cozinha do Pentágono, ninguém diz uma única palavra contra sua pretensão.
E o milionário Bloomberg, que ganhou o direito ao terceiro mandato, numa campanha em que gastou mais de US$ 100 milhões, por uma estanhíssima decisão da Câmara Municipal de Nova York? Aí os críticos do líder venezuelano fazem um patético silêncio obsequioso. É tal o ódio e a incoerência que um amigo me escreveu alertando para o perigo de Chávez ter sua bomba atômica,  como desdobramento de suas boas relações com o Irã. É mole ou quer mais?
Quanto ao outro lado, poderia falar muitas coisas. Mas não há nada mais desonesta do que essa posição do governo em relação aos aposentados, num país em que a população tende a ser mais idosa e vive a dramática incerteza ante a insensibilidade de quem esvazia a previdência pública só para abrir caminho aos grandes bancos, beneficiários do vertinoso crescimento da previdência privada.
Se ainda estiver vivo, e se tiver obtido uma trégua do meu estômago, voltarei ao assunto, logo, logo.
*A partir de 1933, a investigação de William Reich sobre o “orgone” tomou todo o seu tempo e o obrigou a encerrar a sua prática particular da medicina. Reich colocou na cabeça que esta energia, a orgone, não é liberada unicamente durante o orgasmo, mas que ele representa uma força vital que sustenta o conjunto da criação - uma espécie de força cósmica, invisível e onipresente, constituindo o fundamento mesmo da existência. Sua teoria é que todos os males humanos resultam de bloqueios no fluxo dessa força. Em conseqüência ele concentra seus trabalhos sobre uma maneira de captar, utilizar, desenvolver e de um modo geral, de manipular o “orgone”.

4 comentários:

  1. Caro Pedro,
    Se estão dizendo por aí que você morreu responda que quem morreu de fato foi a dona vergonha... Esta sim se foi há tempo. O pior é que ela deixou como herdeiro um safadinho barbudo e seus coleguinhas. Infelizmente como hoje não temos mais a dona vergonha, esses seus sucessores estão fazendo a festa. Porém, apesar de tudo, dona vergonha também tinha alguns outros parentes, pessoas probas e honestas que hoje vagam nesse verdadeiro deserto chamado oposição real. Porfírio cabe a ti esse bastão. Que tenhas uma longa vida e muita paciência!

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  2. "Escuta Ze Ninguem" esse e o livro em que Reich verbaliza esse momento.obrigada por sua cronica . sao como vagalumes nesse enorme apagao etico que as instituicoes estao a reverberar ." que bela a roupa do rei!
    so que ele esta NU. grata pela sua lucidez.

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  3. Meu Amigo Pedro Porfírio, grande lutador pelo bem estar social do Povo brasileiro, principalmente pelo do Rio de Janeiro, sua obra ao longo dos tempos nunca será esquecida e não são pequenas velhacarias que afetarão sua continuidade! Está vivo e bem vivo em todos nós, hoje e sempre!
    Um grande abraço do seu amigo,
    Marcos Pinto Basto

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  4. Shimon Peres, em hebraico שמעון פרסfoi muito bem recebido no Brasil assim como,será muito bem recebido no Brasil, Ahmadinejad; os judeus não são contra a vinda dele ao Brasil.

    "Como chefe de Estado, Ahmadinejad tem o direito de vir ao Brasil, visitar o Presidente Lula e fazer negócios.

    Em São Paulo - Mais de mil judeos
    participaram de um protesto contra a visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad ao Brasil, marcada para o próximo dia 23.

    O Brasil é um Estado Laico, aquí recebemos todos os povos refugiados da guerra, ou da miséria, sem preconceito; oferecendo-lhes, amor e carinho.

    Hoje, estes povos querem mandar nos direitos que pertence aos cidadãos brasileiros?, só e unicamente porque tem medo dos sionistas?. --- E o que o Brasil tem com isso?---.

    O Presidente Brasileiro Sr. Lula. tem o direito,e dever diplomático de receber no Brasil, todos os representantes de todas as Nações do mundo, sem distinção; oferecendo-lhes cordialidade, fraternidade e paz.

    Aos emigrantes que aquí habitam, cabe respeitar o País, e o povo brasileiro, que os acolheu com amor e carinho, respeitando suas crenças e seus costumes.

    Jornalismo parcial. Mostra apenas um lado: Aquele que interessa. É por essas e outras que a imprensa está tão desacreditada,dando tiros no pé, do alto de sua arrogante incompetência,sendo seguida apenas pelo grupo cada vez menor dos burgueses semi-esclarecidos, que repetem como papagaios o discurso das classes dominantes, como se isto tudo fosse caso de paixão futebolística.
    Pedro Porfírio:
    Você é muito importante "A cada novo minuto você tem a liberdade e a responsabilidade de escolher para onde quer seguir, mas é bom lembrar, que tudo na vida tem seu preço"
    "O essencial em seu êxito não é tanto aquilo que você distribui e sim a maneira pela qual você se decide a servir."
    "Se você tem qualquer mágoa remanescendo da véspera, comece o dia, à maneira do Sol:- esquecendo a sombra e brilhando de novo."
    “Francisco Cândido Xavier
    obs: o suco da folha da couve é bom
    para males do estômago, abraços,
    http://marildaoliveira.blogspot.com

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.