domingo, 18 de outubro de 2009

Tartare de tomate com sabor de petróleo ao molho de campanha


Lula, ciceroneado por Eike, recebe o prêmio sob as vistas de Rex Tillerson

"Na década de 1990 houve o inverso do que temos hoje: havia competição pelo capital, e não pelas reservas. Agora esse poder de barganha foi invertido. O mundo está dependendo do crescimento continuado da produção. Se houver menos incentivo para o aumento da produção, haverá cada vez mais arrocho no mercado".
Michelle Billig, diretora de risco político do PIRA Energy Group, empresa de consultoria de Nova York.

- O jantar está na mesa
Vestindo um terno azul com suaves listras brancas, gravata vermelha esmaecida sobre uma camisa azul celeste, Eike Fuhrken Batista, um jovial cinquentão, aproximou-se do presidente Luiz Inácio e o convidou para sentar à mesa, no majestoso salão dourado do Waldorf Astoria, o tradicional hotel nova-iorquino, que se destaca no número 301 da insone Park Avenue.
- Os lugares estão marcados. Eu sentarei à sua direita – completou, exibindo um sorriso simpático, os olhos azuis de sua mãe alemã e dentes de uma brancura exuberante.
Mais magra, Dona Marisa, presença obrigatória nos banquetes oferecidos ao marido, chamava atenção com seu tailleur vermelho, mas dessa vez não quis roubar a cena. Aconselhada, quase não abriu a boca, a não ser para refestelar-se com os prodígios culinários do “chef” Cedric Tovar, que começaram com uma entrada irresistível: “terrine de tartare de tomate”. Entrada tão saborosa que fez Luiz Inácio deixar cair sobre o prato o fone de ouvido usado para repassar as traduções.
Naquela noite de 21 de setembro, sob temperatura agradável, às portas do outono no Hemisfério Norte, 300 convidados assistiriam à entrega ao nosso semideus de um prêmio do instituto de pesquisas americano Woodrow Wilson Center, em Nova Iorque, o primeiro já concedido a um presidente do Brasil, tendo como gancho sua vitória em 2002.
A láurea era uma pequena escultura em bronze, em que se destacavam as iniciais da entidade: WW. Mas o banquete, que teve como mestres de cerimônia Anthony Harrington e Alain J.P. Belda, co-presidentes do The Brazil Institute, arrecadara nada menos de US$ 726 mil ( quase R$ 1 milhão e 300 mil), dos quais, US$ 200 mil foram pagos pelo próprio Eike, quantia igual à doada por Rex Tillerson, presidente da Exxon Mobil, a mais encorpada das sete irmãs, o avassalador cartel multinacional do petróleo, que está com a mão na massa em algumas jazidas petrolíferas brasileiras, especialmente o vitaminado campo Azulão, na Bacia de Santos.
Se para os convivas aquele evento contribuiria para fortalecer ainda mais os sentimentos de carinho dos empresários norte-americanos ao operário que se fizera um dos presidentes brasileiros mais dóceis a seus interesses, para Eike e Tillerson havia muito mais o que festejar.
Para o “bom burguês” um líder divino
Tão logo chegou a Nova York, Lula deixou as malas no hotel Intercontinental Barclay, no 111 da East 48th Street, fez algumas ligações para o Brasil e deslocou-se por 180 metros até o Waldorf Astoria, onde se reuniu, primeiro com o sempre sorridente Eike Batista e, a seguir, com ele, Rex Tillerson e Carla Lacerda, presidente da Esso, a subsidiária brasileira da petrolífera da família Rockfeller.
Blindada a sete chaves, essa conversa não vazou. Mas pelos pronunciamentos dos empresários, ficou claro que Lula havia satisfeito seus gostos. Depois de enfatizar que “a liderança e o carisma de Lula são presentes de Deus”, o maior doador da última campanha do presidente e do filme baba-ovo sobre sua vida (R$ 1 milhão de cada tacada), proclamou com a voz embargada: “tenho certeza de que seu nome já entrou para a galeria de grandes estadistas da nossa historia”.
Eike, que em julho de 2008 passou a maior aflição de sua vida com a presença da Polícia Federal em sua casa e em suas empresas, por conta dos expedientes de corrupção e suborno que usou para ganhar a licitação da Estrada de Ferro do Amapá, mostrava-se o próprio porta-voz do governo: “o Brasil respeita todos os seus contratos. Repito: o Brasil respeita todos os seus contratos” – disse em seu discurso triunfalista, arrematando: "eu, como brasileiro desta geração, digo com orgulho que o sucesso das minhas empresas não seria possível sem esse Brasil novo”.
Já o presidente da mais tradicional petrolífera dos Estados Unidos, o texano Rex Tillerson, de 57anos, há três no seu comando, lembrou que a subsidiária Esso iniciou suas atividades no Brasil há quase um século e avisou que pretende continuar investindo no país.
O presidente respondeu dizendo que multinacionais nunca tiveram oportunidades tão boas como as criadas pela descoberta do pré-sal. Aos colegas, Tillerson informou ter recebido de Lula a palavra de honra de que todos os contratos com as companhias estrangeiras serão religiosamente respeitados, valendo as condições e os valores estabelecidos pelo regime de concessão vigente até agora.
Uma festa de olho nas jazidas de amanhã
Mais do que os documentos já sacramentados, os patrocinadores da festa estavam na espreita para amarrar compromissos futuros. Afinal, o Brasil de Lula não difere em nada do de FHC em matéria de generosidade com nossas jazidas petrolíferas e continua sendo o eldorado sonhado das multinacionais: até prova em contrário, em qualquer um dos figurinos, a União continuará beliscando apenas 60% do produto de suas jazidas, descobertas pela Petrobrás e disponibilizadas de mão beijada para terceiros. E tudo o que se pensar, a partir do modelo de partilha, assemelhado ao de concessões, será para os novos leilões, a partir para 2010.
As preocupações da indústria petrolífera, no entanto, vão além, muito além do regime de exploração. Tudo o que ela quer é pôr as mãos nas jazidas, como enfatizou Rex Tillerson, pouco depois de assumir a presidência da Exxon, em 2006, falando no Centro de Estudos Estratégicos Internacionais de Washingon:"o maior desafio para nós, sob uma perspectiva geopolítica, é simplesmente obtermos acesso aos campos de produção".
Isto porque o mercado vive o trauma da queda da produção em 2% ao ano, contra uma demanda que aumenta 3% no mesmo período.
Um minucioso estudo de Dalton Francisco dos Santos, geólogo pleno da Petrobrás e diretor do Sindipetro de Alagoas e Sergipe, demonstra que todos os olhos do mundo se concentram na exploração sob a camada de sal nas províncias petrolíferas do Brasil, Golfo do México e Austrália.
Cavando no pré-sal para recompor as reservas
“A expectativa é que essas três novas províncias petrolíferas possam recompor a queda da parcela de extração (23,27 milhões de barris por dia a menos em 2020) como consequência do declínio natural de -3% (percentual otimista) dos reservatórios de petróleo do mundo. Assim, os campos que extraem hoje 81,73 milhões de barris de petróleo por dia, extrairão 58,46 milhões de barris por dia em 2020, efetuando um declínio total de -28% durante 10 anos”.
Essas previsões se assemelham a de Guilherme de Oliveira Estrella, diretor de Produção da Petrobrás, em seu depoimento no Senado: “Os mais pessimistas indicam que teremos um consumo de 85 milhões a 90 milhões de barris, por dia, em 2030. Uma perspectiva média aposta em um consumo de 100 milhões de barris por dia. Mas há uma previsão de termos um consumo mundial de 110 milhões de barris a serem consumidos, por dia, em 2030. O dramático disso tudo é que, considerando os campos já descobertos hoje, eles dariam conta de apenas 30 milhões a 40 milhões de barris por dia. Isso significa que as empresas mundiais, sejam estatais ou privadas, precisam descobrir, até 2030, campos para produzir cerca de 60 milhões a 70 milhões de barris por dia”.
Dalton Francisco dos Santos alerta para o perigo de uma exploração predatória por parte das multinacionais e observa: “no Brasil, a Exxon-Mobil Corp e a Hess Corp já são donas quase que totalmente do campo de Azulão, localizado no bloco do BM-S-22, na bacia de Santos, na costa litorânea do Estado de São Paulo.
O campo de Azulão está sob lâmina de água de 2.223 metros (7.294 pés) de fundura. A profundidade final dos poços deve ficar em torno de 5 mil metros (16.404 pés). O bloco do BM-S-22 é adjacente ao campo de Carioca, onde já estão a Repsol YPF e BG Group, e está a 40 quilômetros (25 milhas) ao sul do campo de Tupi. Azulão pode ter até 8 bilhões de barris de petróleo. É a maior descoberta das Américas desde 1976.
Em 1968, uma das maiores reservas de petróleo da América do Norte foi achada em Prodhoe Bay, no Alasca, mas a extração foi iniciada somente a partir de 1977 pelas Big Oil Arco e Exxon-Mobil. O campo de Prodhoe Bay, hoje quase que totalmente esgotado, tinha uma reserva de 12,8 bilhões de barris de petróleo”.
Como se vê desde já e como demonstrarei em outras colunas, a singularidade da questão energética mundial explica investidas atípicas e personagens de última geração do universo dos sem escrúpulos. O envolvimento pessoal de Eike Batista nas tratativas internacionais sobre a exploração do pré-sal, em que ele também está operando, é o sinal de que matéria tão estratégica está sendo negociada lateralmente, como é de suas práticas, graças às quais sua fortuna multiplicou-se por três nos últimos quatro anos e ele se tornou brasileiro de mais bala na agulha e maior poder de sedução.
O banquete de 726 mil dólares para o gáudio do nosso príncipe operário foi apenas uma das muitas artimanhas dos donos do melhor negócio do mundo. Sem querer ser rigoroso demais, tenho para mim que nessa área o exercício da ambiguidade tende a ser o seu dínamo propulsor, vulnerabilizando nossas riquezas num ofertório de cunho entreguista sob o manto verde-amarelo do disfarce nacionalista.

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.