domingo, 4 de outubro de 2009

A salvação olímpica do Brasil ou faltou alguém em Copenhague

Lula soube da vitória em primeira mão, mas espero para chorar diante das câmeras. Já Eduardo Paes não fez por menos: cobriu o "piranhão" com uma faixa triunfalista.
“Fui dormir à meia-noite e acordei às quatro da manhã e me beliscava de vez em quando para ver se era verdade que a gente tinha ganho as Olimpíadas”.
Luiz Inácio Lula da Silva, comandante-em-chefe do Brasil na batalha de Copenhague.

Pronto. O Brasil está salvo. O sangue quente latino ganhou a olímpica guerra na nórdica e fria, mas fogosa, Copenhague. Haja chocolate. Ao custo de R$ 26 bilhões (o orçamento de 2 anos da Prefeitura do Rio de Janeiro para tudo, inclusive pagamento dos aposentados e pensionistas), o Rio de Janeiro será sede das olimpíadas daqui a 7 anos. Algo tão importante para a Pátria, que já gastaram R$ 100 milhões por conta, só nos prolegômenos.
Poetas e canastrões cantaram loas em prosas e versos. O GLOBO nunca faturou tantos anúncios numa só edição. A de sábado tinha 200 páginas. Haja papel. Todo mundo está pagando uma baba em cores para tirar uma casquinha.
O exibido prefeito Eduardo Paes, que pegou o bonde andando na última estação, e não tem nada a ver com a gestação da criança, mandou cobrir o “piranhão”, edifício da Prefeitura, com uma faixa bombástica: “Rio 2016, um outro futuro começa agora”.
Lula, que chorou para as câmeras fingindo que soubera do resultado na mesma hora que a gente*, já está falando num macro favela-bairro. Espera acabar com as favelas cariocas até 2016. Não explicou se com o sem os muros que seu aliado Sérgio Cabral está mandando construir para formalizar os guetos, com a tecnologia usada por Israel para fazer o grande campo de concentração da Palestina.
Falou só nas do Rio de Janeiro que, segundo os trogloditas de direita, cresceram com por culpa de Brizola. Os milhares de barracos espalhados por São Paulo e por todas as demais cidades brasileiras não icomodam os olímpicos visitantes. Portanto, podem ficar como estão para ver como é que ficam.
Também não disse como será a farra. Para maquiar o Complexo do Alemão, Rocinha a Manguinhos, o erário morrerá em R$ 1 bilhão (mais do que a receita tributária anual de Niterói), de onde é lícito supor que estamos diante de mais um blefe do incorrigível príncipe operário.
A panacéia para todos os males
Mas como eu ia dizendo, a escolha do Rio de Janeiro para sede dos jogos olímpicos de 2016 está sendo vendida à plebe ignara como a mais milagrosa das panacéias. Todo mundo, em todos os recantos do solo pátrio, terá uma colher de sopa. Nem que seja só por três semanas.
O ambiente, nestes dias primaveris, intui o milagre dos peixes. Sérgio Cabral Filho, titular do mais medíocre governo do Estado do Rio, cuja única saliência é a criminalização dos bolsões da pobreza para justificar a matança dos seus jovens, espera faturar horrores nas eleições vindouras, em que não terá mais Garotinho para apresentá-lo aos pobres beneficiários do seu assistencialismo.
É que para cumprir os compromissos firmados com o COI, vão ter que dar um banho de loja na Barra da Tijuca e nas áreas usadas pelo evento: de cada estaca plantada, de cada melhoria consolidada, o governador espera achar um poço de votos.
A festa olímpica, que se fez bem à Barcelona em 1992, deixou a canadense Montreal com uma dívida de 30 anos por causa das despesas com o certame, em 1976. Não foi por pirraça que a maioria dos moradores de Chicago (que já sediou os jogos pan-americanos em 1959) manifestou-se contra sua própria candidatura. Os norte-americanos, que já receberam quatro olimpíadas, partem de um princípio elementar: o gasto sai de todos os contribuintes, mas o faturamento beneficia apenas alguns segmentos da economia. O resto é pura ilusão.
A César o que é de César
Se, para surfar na onda, quisermos ressaltar os efeitos positivos da escolha, como a necessidade de obras e providências que, lamentavelmente, só acontecerão por pressão externa – do contrário o povo ficaria chupando dedo – não podemos deixar de registrar a grande impostura do circo montado a partir de Copenhague.
Se alguém tem mérito, se alguém jogou todas as suas cartas para que o carioca chegasse ao orgasmo e Lula encenasse turbilhões de emoção, esse alguém deveria estar na Dinamarca, como convidado especial: falo do ex-prefeito César Epitácio Maia.
Essa política mesquinha de falsos brilhantes não tem estatura para dar a Cesar o que é de Cesar, apesar das filiações partidárias distintas e do ódio amargo que seu ex-pupilo Eduardo Paes nutre pelo criador.
Como não sou canalha e não aceita imposturas, lembro a quem interessar possa que a idéia de trazer para o Brasil os jogos olímpicos partiu do ex-prefeito já no primeiro ano do seu primeiro mandato. Isso depois de ouvir sugestões nesse sentido de João Havelange e Roberto Marinho.
Foi Cesar Maia quem comandou sozinho a batalha pelas olimpíadas de 2004. Depois, voltou à carga pela de 2012. E como conseguiu trazer para o Rio os jogos pan-americanos de 2007, contando com o apoio discreto do governo federal na hora das despesas (Sérgio Cabral alegou caixa vazia e negou fogo), ofereceu ao mundo a informação de que para a cidade do Rio de Janeiro organizar um evento esportivo dessa magnitude não é nenhum bicho de sete cabeças.
Isso que os canalhas deveriam lembrar, antes de fixar-se no relato de que “os erros de 2007 não se repetirão”. Porque quem faz política com honestidade e se garante não precisa forçar carreira tentando agredir os fatos. O Pan de 2007 dissipou as paranóias que pesavam na rejeição do Rio como cidade olímpica. Que se reconheça isso, até porque não há nada mais cretino do que tentar obter dividendos eleitorais com o chapéu dos outros.
Uma escolha mais do que óbvia
Se eu lhe dissesse que a escolha do Rio de Janeiro era fato consumado, não estaria exagerando. Chicago não ameaçava, porque, além dos Estados Unidos serem o país que mais recebeu olimpíadas neste período moderno, a partir de 1896 (a última em Atlanta, Geórgia, em 1996), a população de Chicago não estava nem aí para a pretensão dos seus governantes e do mercado imobiliário.
Tóquio já sediou uma olimpíada, em 1964 e também os japoneses não viam na escolha a salvação de sua lavoura. Madri pagava pelos jogos de Londres, também na Europa, em 2012, e, no passado, pela olimpíada de Barcelona, em 1992.
O que move o voto do Comitê Olímpico é a projeção dos interesses envolvidos. Nada mais óbvio do que escolher uma cidade da América do Sul (já provada nos jogos pan-americanos), considerando que só na Austrália já se realizaram duas olimpíadas – Melbourne, em 1956, e Sidney em 2000.
Se a vitória do Rio de Janeiro será boa ou ruim para a cidade e para o país vai depender muito da seriedade como ela for tratada, sem esse ufanismo de encomenda e essa tentativa abominável de faturamento eleitoral. Projetar números é fácil. Afinal, a estatística é a ciência segundo a qual se eu como uma galinha e meu vizinho não come nenhuma – cada um come meia galinha.
Se alguma lição deve ser tirada dos jogos pan-americanos de 2007, ela diz respeito à falta de uma previsão mais consequente para a utilização dos equipamentos esportivos após a competição. Nesse caso, vale a pena considerar o exemplo de Mar Del Plata, na Argentina, que ampliou o potencial esportivo de sua população e do entorno com a abertura de suas praças esportivas para o povo, após o pan de 1995.
O mais é cortina de fumaça de viciadas intenções.

*O resultado da última votação de Copenhague saiu ás 12h40m do dia 2 de outubro (hora de Brasília). Mas só foi oficialmente divulgado uma hora e dez minutos depois, para que as autoridades dos países interessados, como de praxe, fossem informadas previamente, de onde as lágrimas do sr. Luiz Inácio vieram com atraso e esperaram o aviso de “luz, câmera, ação”.

4 comentários:

  1. Afinal, a estatística é a ciência segundo a qual se eu como uma galinha e meu vizinho não come nenhuma - cada um come meia galinha.>Somos univisionários? Com essa mesma tese, fui reprovado em Estatística em um curso no qual refutei a pinoquiária como ciência....

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  2. Oi Pedro!
    Falam em corredor de ônibus... Ou seja carros e ônibus vão continuar nas ruas... Com corredor ou sem corredor, a gente vai continuar entalado no trânsito. A Barra é um funil. Sem metrô, depois das Olimpíadas, vai ficar muito pior.
    Cerquem-se as favelas e se sobrar pobre o governo se encarrega de eliminar... e por aí vai...
    Com essas "soluções" pífias, bem fica claro que a decisão pelo Rio de Janeiro foi uma decisão apenas política, de cartas marcadas, uma articulação de fora para dentro, sacou?
    Triste é ver os escravos a comemorar nas areias de Copacabana... O serviço de lavagem cerebral já foi concluído e com êxito. Parabéns à Globo e Cia.!
    Isso me lembra os tempos da ditadura, enquanto rolava a bola, nos porões, o pau comia. A tática é a mesma. "Pão e circo" para o povo e lá se vai a Amazônia, o pré-sal, Anistia, reforma agrária...
    Abraço.

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  3. Tita

    Bem lembrada a questão dos ônibus. E tudo o mais que você escreveu eu assino embaixo. E uma pena que, como você lembrou, "o serviço de lavagem cerebral já foi concluído e com êxito. Parabéns à Globo e Cia.!"

    Abraços

    Porfirio

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  4. Pertinaz
    E no entanto você tinha toda razão. Estava apenas constatando o óbvio.
    Abraços
    Porfírio

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.