sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Enem: aventura da incompetência que tinha tudo para dar errado



Ao transformar o Enem em macro-vestibular, o ministro Haddad envolveu-se numa aventura de consequências gravissimas para a educação.
“Se ainda houvesse suspeita sobre a nossa credibilidade, não teríamos sido aceitos na licitação do MEC”.
Itana Marques, proprietária da CONSULTEC, empresa líder do consórcio que concorreu sozinho para ganhar os R$ 147 milhões destinados ao ENEM 2009, explicando a fraude que determinou o cancelamento do vestibular da UNEB, em 2008, organizado por ela e ainda sob investigação.

"Para mim queriam desestabilizar o ministério porque não faz sentido vazar o conteúdo do Enem. Se fosse um concurso para cargos com salários altos, como muitos que fazemos aqui, poderia haver uma razão comercial, mas vazaram para a imprensa. Queriam melar o concurso. Só pode ter sido por razões políticas".
Azor José de Lima, pediatra e secretário executivo da FUNRIO (Fundação de Apoio à Pesquisa, Ensino e Assistência à Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e ao Hospital Universitário Gaffree e Guinle da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro), também integrante do Consórcio que ganhou o Enem 2009 numa licitasção sem concorrentes.

No Japão, o ministro da Educação já teria feito haraquiri. Na China seria preso na hora. Nos Estados Unidos, um monte de ações por danos morais ganharia os tribunais. No Irã, o caso ficaria aos cuidados da temível Guarda Revolucionária. Se aqui o ministro ainda fosse o educador Cristóvan Buarque, teria sido demitido pelo DDI (o príncipe operário está com o séquito, inclusive o presidente do Banco Central, tratando das olimpíadas de 2016, na epicurista Copenhague).
Mas no Brasil em que Lula virou príncipe absolutista sob a tutela do prior José Sarney, o advogado e economista Fernando Haddad ainda vai ser condecorado depois da barbeiragem que montou, ao custo de R$ 147 milhões, numa aventura que tinha tudo para dar errado. Mas com tais salvaguardas de interesses que o único consórcio que disputou a terceirização da prova será mantido, sob o pretexto de que “não há um segundo colocado para ser chamado”.
Incompetência ou má fé?
Certamente, os miquinhos amestrados desse governo de imposturas considerarão minha opinião como parte de “uma terrível cruzada contra Lula”. Não faltarão bobocas, com uma tal de Jane, do Círculo Boliviarno, para me chamar de fascista (Será que essa idiota sabe o que é fascista?), ou seu parceiro Ricardo, para pôr em dúvida minha sanidade.
É isso: qualquer um pode dizer sandices a meu respeito, porque está em pleno vigor a temporada de triunfo da mediocridade ampla, geral e irrestrita. Temporada em que qualquer boçal pode ser ministro de Estado e qualquer doidivana pode agredir sem ter lido meus escritos em profundidade, hábito que a modernidade suprimiu.
Mas nem por isso vou deixar de levantar minhas suspeitas sobre esse açodado processo de transformação do Enem – um mero exame de avaliação das escolas, tão combatido pelos pelegos da UNE antigamente – num macro-vestibular, envolvendo por pressão universidades federais, que agora estão com as calças na mão sem saber onde fica a saída.
Só mesmo muita incompetência ou as pitadas de má fé que parecem ingredientes obrigatórios do governo Lula para arquitetar uma prova realizada ao mesmo tempo em 10 mil escolas de 1826 municípios, com impressão centralizada numa única gráfica em São Paulo e distribuição por vários meios de transportes, principalmente rodoviários, do Oiapoque ao Chuí.
Só mesmo o interesse de centralizar numa única empresa (sabe como é, ne?) a bagatela de R$ 147 milhões para a seleção de 50 mil alunos de universidades públicas, ainda as mais procuradas apesar da cúpula do MEC (que não é mais MEC porque a Cultura está em outra pasta), além dos 150 mil bolsistas desse famigerado Prouni, o socorro governista aos balcões privados de ensino com o pérfido discurso de garantia de acesso dos pobres ao ensino superior.
Mal apareceu uma dupla “amadora” com uma prova na mão, logo a rapaziada pilhada na trapalhada apelou para o velho discurso de sempre: o pediatra Azor José de Lima, secretário executivo da FUNRIO (Fundação de Apoio à Pesquisa, Ensino e Assistência à Escola de Medicina e Cirurgia do Rio de Janeiro e ao Hospital Universitário Gaffree e Guinle da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) disse que o vazamento destinou-se a desestabilizar o Ministério da Educação e atingir seu titular.
A FUNRIO, criada para os fins enunciados acima, é uma das três integrantes do consórcio liderado pela empresa baiana CONSULTEC. Esse consórcio disputou a concorrência sem concorrentes (sabe Deus porque) atraindo de boa fé 4 milhões e 300 mil aspirantes à Universidade.
A CONSULTEC, preferida nos concursos do governo petista da Bahia, é reincidente nessas práticas de fraude: em dezembro de 2008, o vestibular da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), terceirizado para essa empresa, foi cancelado depois de denúncia anônima de que candidatos já tinham conhecimento prévio do conteúdo das provas.
Que tem truta, tem
Que tem truta nessa trapalhada, ah isso tem. A FUNRIO, apesar de ligada especificamente a um hospital do Rio, aparece envolvida em muitos concursos públicos, incluindo o simulado do ENEM 2009 e seleções para a FUNAI e INSS, em 2009, Corpo de Bombeiros do RJ, Prefeitura Municipal de Niterói e Ministério da Justiça, em 2008.
Com certeza, o ministro Fernando Haddad, que pretende ser candidato a qualquer coisa nas eleições de 2010 em São Paulo, não embarcou nessa aventura por mero diletantismo. Até ele dizer que é obrigado a manter o tal consórcio cheira mal. Como também não se explica que outras empresas do ramo, como a Cesgranrio, tenham desistido de concorrer.
Há uma informação que me deixa com a pulga atrás da orelha: no dia 19 de agosto, um grupo de 25 escolas católicas do Estado do Rio, encabeçado pelo São Bento, Santo Inácio, Notre Dame, Sion e Santo Agostinho, pediram o adiamento do ENEM, alegando, entre outras coisas:
“Devemos avaliar, por exemplo, que os alunos que estão prestes a enfrentar os exames vestibulares ou o Enem tiveram prejuízos pedagógicos causados pelas paralisações forçadas”.
Pelas minhas instigantes investigações (que algum boboca pode chamar de fascista outra vez) a transformação do ENEM em macro-vestibular foi adotada por livre e espontânea pressão nas universidades federais. E sua entrega a empresas privadas, como tudo no governo petista, foi considerada uma imprudência entre os professores.
Trapalhada anunciada
O vazamento da prova do Enem 2009 foi avaliado pelo coordenador do curso Etapa, Carlos Eduardo Bindi, como uma "tragédia anunciada" há meses.
Em entrevista a Ana Okada e Simone Harnik, do jornal ESTADO DE SÃO PAULO, o professor acentuou que "a tragédia só não foi mais brutal, porque ocorreu antes de o exame ser aplicado".
"Em abril, quando tomaram a decisão de usar o Enem como vestibular de universidades federais, não havia a licitação pronta para aplicar a prova. Órgãos mais experientes de vestibular se recusaram a organizar o exame", avaliou.
Apenas o Connasel (Consórcio Nacional de Avaliação e Seleção) participou do processo licitatório. O consórcio é formado pela Consultec (Consultoria em Projetos Educacionais e Concursos Ltda), pela Funrio (Fundação de Apoio a Pesquisa, Ensino e Assistência) e pelo Instituto Cetro (Instituto Nacional de Educação Cetro), com matrizes em Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo, respectivamente.
Na opinião de Bindi, é um risco muito grande as faculdades colocarem a seleção nas mãos de terceiros. Segundo ele, os responsáveis por grandes processos seletivos costumam ser professores com história acadêmica de pesquisa e trabalho nas universidades.
"Essa prova talvez não tenha sido cuidada com todo o carinho que devia ter sido. Isso não pode acontecer. É um absurdo", opina.
Finalmente, por hoje, uma informação e um pressentimento: O ESTADÃO não foi o único órgão de imprensa procurado para a venda da prova vazada. Clique aqui e veja os diálogos gravados com repórter do site R7 Notícias, do Grupo Record.
O pressentimento é que vai ser muito difícil manter esse modelo de macro-vestibular imposto pelo ministro Fernando Haddad.E não me surpreenderá se voltar a ser tudo como dantes, no quartel de Abrantes.

Um comentário:

  1. Caro Pedro Porfirio:
    Ainda acho prematuro qq julgamento, aindsa tenho duvidas se houve ou não vazamento, inda mais partindo do Estadão.
    Um abraço
    Pedro Luiz Moreira Lima

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.