quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Considerações necessárias sobre o fiasco de um protesto de rua

"O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons"
O "Fora Sarney" no Rio, lamentavelmente, teve pouco mais 100 pessoas

Estive sábado na manifestação “Fora Sarney”, que foi do Posto 6 ao Copacabana Palace, na Avenida Atlântica. Quando cheguei, um grupo de pouco mais de 100 pessoas já se deslocava pela calçada da praia, sem causar qualquer transtorno ao trânsito.
Para estacionar o carro, tive que ir até a Constante Ramos, em cuja esquina me deparei outra vez com o grupo, a grande maioria de jovens, que repetia alguns chamamentos contra Sarney, mas também tratava de hostilizar “estranhos”, gritando “tem um palhaço querendo aparecer”.
Mas tarde, já pela internet, fiquei surpreso com as notícias dos jornais, que falavam de 250 e até 300 manifestantes. Isso não aconteceu, tenho obrigação de dizer, a bem da verdade. Considerando o sentimento nacional, detectado por uma pesquisa em que 70% dos entrevistados pediam a renúncia de Sarney, lamento declarar que a manifestação de rua no Rio de Janeiro foi um grande fiasco.
Com a responsabilidade de quem tem granjeado o respeito de muitas pessoas, em todo o Brasil, deixei para escrever a respeito agora, na madrugada desta quinta-feira, 20 de agosto de 2009.
Mais do que reportar a escassa adesão registrada, cabe-me propor a você uma reflexão: comparativamente, o protesto de rua contra a permanência de um cidadão pilhado nos mais torpes atos de corrupção deve ter tido pouco mais de 10% da passeata em defesa da legalização da maconha.
Se compararmos com outros eventos a frustração será maior. A cada ano, os gays, lésbicas e simpatizantes jogam mais de um milhão de pessoas na mesma Avenida Atlântica, que fica apinhada de alegres defensores do direito à livre opção sexual, para muitos ainda uma afronta aos “costumes sadios” da sociedade humana.
O “Fora Sarney” foi convocado por um site da internet e por uma comunidade do Orkut, que já teria mais de 7 mil inscritos. Nisso, tentou introduzir um novo “comando” e uma nova fonte de mobilização. Não deixou de ser uma tentativa voluntarista, empírica e, na prática, sem alicerces políticos.
Pode até ser que pesou muito o que seria uma divulgação limitada, de precária abrangência e frágil poder de mobilização. Pode até ser que o “acórdão” de véspera no Senado, em torno de um cala-boca geral, tenha retirado o crédito do protesto.
Eu fui lá porque acredito que a rua nos permite travar novos conhecimentos, olho no olho.
Mas também não tive sucesso como mobilizador. Fiz chegar aos leitores deste jornal duas colunas, com indicativos precisos sobre os locais dos protestos em várias cidades do país.
Chamei também por telefone três parceiros de outros momentos, dois dos quais trabalharam comigo, quando exerci o mandato de vereador. Compareceu apenas um - um jornalista que passou dois anos na Austrália e voltou ao Brasil há dez dias. Os outros alegaram imprevistos de última hora e disseram que não poderiam ir ao protesto.
Como fiquei pouco tempo na passeata, só cruzei com uma única pessoa do meu círculo de leitores. Se havia outras, não as identifiquei e ninguém veio falar comigo.
Desde aquele sábado venho matutando sobre protesto tão raquítico, como se o povo tivesse perdido o hábito de espernear em público, achando que a simples divulgação de e-mails pela internet é tudo o que PODE fazer.
Assim, à primeira análise, constatei que o sistema está dando de dez nos que estão incomodados com a roubalheira, os desvios de conduta e com suas demonstrações de cinismo e suas agressões aos elementares valores éticos e morais.
Mas vi também que o mal é muito mais grave. Está bem que apenas uma centena de gatos pingados foi dizer “fora Sarney”. Em compensação, apesar do apoio dado ao meliante pelo homem mais popular do Brasil, ninguém ousou ir à rua para dizer “fica Sarney”.
É fato que a população, órfão de lideranças realmente confiáveis, não quis engrossar uma manifestação convocada pela internet, sem a garantia de que, em estando ali, não se prestaria a massa de manobra de adversários de ocasião, que usam e abusam de jogar para a platéia.
Mas é igualmente fato que os militantes da versátil base governista, na qual o ex-presidente da ARENA pontifica com um cardeal intocável, estão preferindo o conforto da sombra e a proteção do anonimato.
Não se pode dizer que o fiasco dessa manifestação decreta o silêncio dos inocentes. Mas alguma coisa precisa ser objeto de uma reflexão honesta sobre o processo político brasileiro.
É provável que na raiz dessa desmobilização esteja a confluência de atitudes antagônicas. De um lado, o “fenômeno” Lula reintroduziu técnicas de alienação e cooptação de alto teor hipnótico. De outro, seus adversários parecem atuarem como reles canastrões, deixando transparecer que só desejam estar no lugar dos que hoje comandam nossos podres poderes.
Como alimentadores dessa apatia tétrica estão os sábios do templo: a grande mídia, as universidades e as organizações sociais, todas embaladas na política de resultados, em função da qual a solidariedade foi profissionalizada e a militância política está sendo remunerada inclusive nos raros bolsões de matiz ideológico.
Nesse ambiente emasculado sem a necessidade de baionetas, vence quem for mais rápido no gatilho. E quem está por cima da carne seca dispõe quase do monopólio das ações.
A agravar esse estado de coisas, grassa o culto à superficialidade, às palavras de efeito e ao curto e grosso. Eu mesmo tenho sido aconselhado a escrever textos menores. Quando um cidadão recebe minha coluna de 7 mil caracteres já pensa duas vezes antes de deter-se nela.
Tenho tentado reduzi-la e prometo a mim mesmo fazê-lo. Mas minha noção de relacionamento honesto recomenda não deixar de dizer aquilo que ajuda a construir o raciocínio.
Apesar desse quadro, como já vivi muito, muito li e muito vi, não vou me deixar abater por decepções como a de sábado. Aliás, mesmo tendo participado de disputas eleitorais e até cogitando de voltar à liça, tenho clareza e segurança sobre a natureza da minha contribuição, que a nada de pessoal almeja.
Como nas amizades que cultivo, habituei-me a não fazer nada contando a reciprocidade. Se faço algum bem a alguém, é por livre e espontânea vontade. Dou as roupa do corpo, se considerar necessário, mas se já tive muitas respostas compensadoras, considero sempre que a responsabilidade de me vestir de novo é inteiramente minha.
Assim também é meu sentido de sacrifício, despojamento e doação no processo político. Se eu não estivesse aqui, ao pé da Serra dos Três Rios, oferecendo meus depoimentos e minhas opiniões a você, estaria fazendo o que?
Eu e você, portanto, não podemos entregar os pontos só porque nossas causas justas ainda não ganharam corpo e tocaram os corações e mentes de quem mais precisa pensar, posiciona-se e agir.
Estar dando esse depoimento, hoje, não é entregar-se à amargura e ao sofrimento. Antes, pelo contrário, espero que a franqueza e a lisura de minhas palavras falem mais alto do que qualquer retórica forçadamente triunfalista.
coluna@pedroporfirio.com

2 comentários:

  1. Cleia Carvalho10:47 AM

    Que vergonha!!!!...., o povo não comparecer em massa para expurgar os corruptos deste país. Não é só Suir-ney não. Aqui em São paulo chegou a 1000 pessoas, e sabado agora estaremos novamente nas ruas. espero que pelo menos agora compareçam mais pessoas. Temos que continuar mostrando a nossa indignação até acabar com esse chiqueiro que está matando o povo com a gripe suir-nadores.
    Abs

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  2. Prezado Pedro Porfírio, como cidadã brasileira, em nome do "Bom" povo brasileiro que colocou magnificamente, " neste momento está calado", aproveito para agradeçer a postura do Senador Flávio Arns que entrará com recurso no conselho de ética exigindo uma explicação superior porque ? arquivaram tantas infrações e delitos cometidas pelo Presidente do Congresso Sr. Sarney; - lhe digo Porfírio; - o BOM cidadão está preocupado em se manifestar; - o que ocorre há 45 anos da nossa história de governo a "minha" conclusão é que ainda vivemos uma “grande” ditadura militar; - aberta! pela vergonha e imposição da ONU que os militares tiveram pela falta de capacidade deixando a inflação chegar a 1500% ; - criteriosamente escolheram alguns membros para à partir dali "comandar" a Nação Brasileira. O primeiro” Sarney” foi militar, o segundo “Collor” filho de políticos ligados aos militares, confiscando todas as poupanças que os pobres coitados dos brasileiros economizaram em suas míseras vidas.
    O militar Golbery , preocupado, enviou um portador em busca do barbudo que estava bravamente orientando, liderando, os trabalhadores na região do ABC paulista, “os donos do poder militarista”,alem de detestá-lo o chamavam aquele fedorento,revolucionário e barbudo ; - e infelizmente fizeram do Lula, que era a esperança do povo brasileiro, mais um "robô" a ser manipulado pelos militares sem amor à pátria que obedece a elite, os mega-empresários, sob o comando da mídia sionista. Envio ao senhor meus parabéns, pela sua colocação; - o povo brasileiro "o Bom" agradece, Saudações, Marilda Conceição de Oliveira / http://marildacdeoliveira.blogspot.com/

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.