segunda-feira, 29 de junho de 2009

O que fazer? O depoimento de um jovem como resposta

Entre a mais de meia centena de e-mails que recebi sobre minha coluna O QUE FAZER?, que pretendo condensar e publicar aqui, escolhi "um verdadeiro depoimento" de um jovem advogado de Londrina, com mestrado pela Universidade de Cooimbra. Vale a pena refletir sobre o que ele escreveu
"Caro Pedro Porfírio,
Muito do que penso hoje é reflexo direto da leitura de seus textos, o que torna compreensível que atualmente vislumbre como principais vícios da sociedade brasileira (quiçá, em variada proporção, mundial) seja a insensibilidade com seu próprio destino e a completa ausência de juízo crítico, uma absurda preguiça de pensar. No seu texto conclamou, se bem entendi, os teóricos à prática, ao fazer. Desde logo faço aqui minha mea culpa, e assumo – de maneira alguma vangloriosamente – que sou um dos que renitem neste divórcio entre teoria e prática, entre o falar e o fazer. No meu caso, isto, antes de uma consciência política, passa por uma evolução pessoal. Apesar disto, e em absoluto tentando justificar-me, sinto que o simples ato de pensar, se interessar, buscar compreender os fatos, e não somente repetir o que os grandes meios de comunicação repassam, parece hoje ser uma atitude realmente discrepante. Ao menos no círculo social que frequento, o qual não é grande, mas envolve “pessoas estudadas”, para utilizar-se de um jargão. Sou formado em Direito por universidade pública, e mestrando pela Universidade de Coimbra. E, em ambos os ambientes, esta consciência crítica, a capacidade e interesse de compreensão dos acontecimentos existia somente em uma minoria, da qual eu sempre fui um admirado telespectador e aprendiz. Expondo portanto uma análise a partir da minha vivência pessoal, e a começar pela graduação, posso afirmar-lhe seguramente que, dentre cerca de 40 alunos, apenas 5 ou 6, em meu ponto de vista, reuniam esta capacidade de compreensão. Havia outros alunos muito inteligentes na sala, mas uma inteligência que eu digo meramente técnica, reprodutiva, e não construtiva, e mais um ou outro que, assim como eu, era mais um entusiasmado por uma postura contestadora do que alguém ainda dotado de um juízo crítico amadurecido para a idade. Se, pelo pouco contato que tenho com muitos deles, pudesse relatar fielmente o que acontecera com este espírito “revolucionário”, diria que quase todos adotaram hoje um tom pragmático em suas vidas, um ensimesmamento. Ainda, para falar de Centro Acadêmico, o C.A. de direito da UEL há anos não possui uma diretoria combativa. O meu primeiro ano de faculdade, em 2002, foi o único em que se promovia – ou ao menos se tentava – seriamente uma conscientização política, alguma mobilização, havendo inclusive, por exemplo, uma forte e concreta oposição ao aumento de tarifas do transporte público na cidade. Depois desta gestão, as demais não se sabe a que veio.
Quanto à pragmaticidade, se é que esta é uma boa definição, parece ser uma constante nos tempos modernos. Se a falta de uma ideologia, uma consciência política, uma utopia mesmo – pois para mim, como já disse Eduardo Galeano, a utopia é o que nos faz andar – já é inculcada desde tenra idade, os que resistem parece que cada vez mais facilmente são dissuadidos desta ingenuidade. Eu, por exemplo, sempre fui tido pelos mais velhos como um “idealista”, no sentido depreciativo do termo. Alguém que assim pensava em razão da idade, da inexperiência, a quem ainda não se havia feito sentir o fel da vida. Alguém que, quando tivesse contas a pagar, filhos a sustentar, que manter o emprego, veria que a vida não é feita de sonhos, aspirações, ou algo que exceda a luta seu pelo pão diário, ou brioches, croissants… Sinceramente, nunca entendi e aceitei – e ainda não o faço – de que maneira a idade nos faria abandonar este espírito juvenil, desfaria esta quimera revolucionária. Sempre acreditei que o tempo apenas nos faria, ou assim deveria ser, maturar nossas convicções, mas não abandoná-las. A meu ver, os que me chamavam de idealista ou não haviam amadurecido neste ponto, ou nunca foram verdadeiramente críticos. E neste ponto sempre vi um grande exemplo em você. Talvez pareça um tanto banal, mas saber que você, após tudo o que passou e viveu, ainda mantém esse espírito verdadeiramente combativo, íntegro, de forma alguma se entregando aos jogos dos poderes, ou ao comodismo da vida, me fez acreditar ser possível ser “diferente”, manter as convicções. Mesmo eu já flertei com o pragmatismo da vida, mas ainda assim sempre mantive contato com seus textos, e é também através deles que tenho buscado voltar àquela ânsia de mudança, e evoluir para a prática.
Quanto à luta política, é claro que ela é mais fácil para alguns do que para outros. Com certeza, diante de minha posição pessoal, me é mais fácil inteirar de certos assuntos e mesmo tomar alguma concreta atitude política. No entanto, isto de forma alguma justifica a desmobilização que sente o país, como você ressaltou. Creio que não é o caso de se formar uma população inteira em educação política, no sentido de inculcar em todos noções elementares de política, formas de governo, etc. Não que isto não fosse desejável, mas sim porque creio irrealizável. Creio que uma menor parte apenas se interessaria por um conhecimento mais refinado. Porém, o que impressiona é a insensibilidade, o descaso com a cidade, consigo próprio. Se há algum problema no bairro, os moradores limitam-se a ficar praguejando, vez ou outra mandar cartas ao jornal ou esperar ser entrevistado por um programa de telejornal local para manifestar sua indignação. Isto é consciência política, interessar-se pela vida de seu bairro, de sua cidade. Mas sequer isto se vê. Organização, mobilização, associação, reivindicação, manifestação, isto pouco se vê. E quando se vê, não raro surge de forma deturpada. Aqui em Londrina, por exemplo, quando em um assalto a residência em bairro nobre matam um dos moradores, organiza-se inclusive marcha pela paz. Quando ocorre um latrocínio de algum empresário no centro da cidade, ou algum outro crime qualquer, a mídia mostra variadas manifestações de indignação da população. No entanto, se na periferia matam alguém, o povo “tá pouco se fudendo”. Vira espetáculo, com direito a aparição nos programas policialescos locais. O importante não é o combate à violência, mas que ela fique longe de nossa casa. Para citar um outro exemplo, em Londrina foi eleito um prefeito corruptíssimo, uma versão londrinense do Maluf, com amplo apoio das camadas populares. No entanto, na semana seguinte ao término das eleições, seu mandato foi cassado pelo TSE. Apesar de eu ser contrário à posse deste político (Belinati), acreditei que com a cassação haveria grandes manifestações na cidade, e inclusive achava que deveria haver. Mas o que houve, de concreto, foi uma manifestação em frente ao fórum no dia seguinte, e nada mais. Alguma declaração aqui, outra ali, algumas notas no jornal, e com o tempo rapidamente o povo assimilou o fato. Quer dizer, além de preferirem o rouba mas faz, são ainda incapazes de ir além do voto. E isto é geral. As pessoas perderam o hábito da contestação. Seus direitos são violados constantemente, seja pelo poder público, seja por grande empresas – principalmente bancos – mas somente em situações drásticas é que busca-se lutar pelos direitos.
E a falta de senso crítico também e generalizada. Renunciam completamente ao exercício do pensar. Há uma generalizada preguiça pela leitura. Constantemente eu ouço o comentário de que para fazer Direito precisa gostar de ler. Não concebo que a necessidade de ler possa ser algum obstáculo, algum desestímulo. E bem sei que, mesmo entre meus colegas de faculdade, se eu enviar-lhes algum artigo, via internet, que ultrapasse ma página, talvez nem isso, muitos terão preguiça de lê-lo. Continuando-se na internet, e para manter-se em exemplos banais, mas que a meu ver são bem ilustrativos justamente por serem triviais, revolta-me a quantidade de e-mails spam diariamente reenviados e de conteúdo absurdo. Por exemplo, há não muito tempo recebi um desses e-mails, de uma amiga minha, estudante de direito em uma universidade particular aqui na cidade, que alertava para uma senha de segurança nos casos de sequestro relâmpago. Caso não conheça, tratava-se de, na hora do saque, digitar sua senha ao contrário, por exemplo, ao revés de 1234, digitar 4321. O caixa entregaria seu dinheiro, mas comunicaria a polícia de que estava ocorrendo um sequestro relâmpago. Talvez esteja sendo muito áspero, mas reputo uma completa renúncia a qualquer atividade racional acreditar neste e-mail. Ele leva ao absurdo de que este mecanismo de segurança é tão secreto, que os bancos sequer informam aos seus clientes. Foi alguém que, por alguma razão, descobriu, e imbuído de bondade e solidariedade, resolveu disseminar a informação via e-mail. Ainda, é enfastiante e revoltante a quantidade e slides que também são enviados por e-mail, com mensagens bíblicas, de otimismo, de amor, e que para simbolizar a beleza e alegria da vida são recheados de fotos de crianças brancas, loiras, e se possível de olhos claros. As negras relegam-se para as mensagens de tragédia, exploração, guerra, fome da África. E depois ainda vem um colunista da Veja afirmar que no Brasil há mais uma preocupação governamental em criar um problema racial do que uma questão racial de fato.
No entanto, quanto às outras atividades “contestatórias” que citou, creio que estava a fazer referência às marchas a favor da descriminalização do uso da maconha. Aqui, tenho umas ressalvas a fazer. Em estudo que fiz por ocasião da graduação, para falar em breves linhas, vi que o processo de criminalização da maconha teve um histórico de instrumento de controle sobre populações marginalizadas, bem como interesses financeiros. No primeiro ponto, nos EUA ela serviu inicialmente para criminalizar a população imigrante mexicana, e quanto ao segundo, diante das ótima propriedades têxteis da cannabis, havia interesse de grandes empresas, principalmente a Dupont, em retirá-la do mercado, haja vista trabalharem com outra matéria-prima. Quanto isto, porém, fica no ar a pergunta do porque de a Dupont, por exemplo, não passar a trabalhar com a fibra têxtil da cannabis ao invés de procurar proibir sua comercialização? Os textos que consultei não respondiam, sequer abordavam, esta indagação, mas, de qualquer forma, fica ao menos hipotetizado uma das possíveis causas para a criminalização da maconha. Ela também foi imposta pelos Estados Unido ao mundo, e iniciada principalmente por um secretário governamental norte-americano, Harry Anslinger, culminando, se não me engano, na Convenção de Combate às drogas de Onu assinada em 1961. O Brasil comprou integralmente esta idéia, e inclusive no período da ditadura houve um recrudescimento do combate ao tráfico e uso de drogas, chegando-se em determinado momento a haver uma equiparação de penas. Pela fonte que li, isto foi um mecanismo de legalizar uma repressão cujo alvo dissimulado eram os contestadores políticos da época. E, se você tiver acesso às primeiras propagandas televisivas de combate ao uso, verá que elas não tinham nenhum respaldo científico. O retrato pintado nestas propagandas não condiz em forma alguma com a realidade. Em uma delas mostra-se um marido amoroso e afável que, após fumar, torna-se agressivo e violento, vindo a matar sua esposa. E mesmo sob aspecto “tecnicamente jurídicos”, sou deveras contrário à criminalização, seja por que é conduta que, concretamente, não afeta a ninguém, seja por que na prática ela ainda hoje se presta unicamente para estereotipar e criminalizar formas de vida, modos de ser, ou também porque sua criminalização tem provocado efeitos colaterais insuportáveis. De qualquer forma, o que queria aqui dizer é que acho válido, ao menos em tese, estas manifestações pela legalização. Apesar de ser partidário da descriminalização, nunca participei de nenhuma passeata, convenção, ou algo. Nunca fui além de conversas com alguns amigos. E, se em um ponto eu talvez concorde com você, é não tanto pela contestação, mas pela forma com que é conduzida. Como nunca participei de nenhuma manifestação, minha análise talvez seja errônea, mas tenho a ligeira impressão de que estas passeatas muitas vezes são movidas mais por diversão do que por algum outro motivo, o que então talvez desvirtue qualquer pretensão contestadora que os organizadores avoquem. Creio, realmente, que marchas pela legalização são como marchas pela paz: elas podem até mostrar seu descontentamento, mas não surtem efeito prático algum. Porém, sou amplamente a favor do debate em torno do tema. Desculpe-me por não citar as fontes aqui, mas não estou com acesso às mesmas no momento, mas posso providenciá-las.
Com certeza você está esperando mensagens relatando as atitudes já tomadas por seus leitores, as experiências já vividas, e não uma mera e longa carta de intenções, que, diante da inércia de seu redator, transmuta-se em indício de hipocrisia. De qualquer forma, externar-me aqui propiciou-me maior clareza sobre alguns de meus próprios pensamentos. Seu apelo ao “fazer”, à atitude é extremamente válido e necessário, e creio que é algo que todos nós que nos julgamos politizados devemos nos cobrar diuturnamente. Espero, sinceramente, que no próximo e-mail eu tenha outras histórias a contar.
Renato Moreno dos Santos

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.