domingo, 17 de maio de 2009

Lula, um aluno bem aplicado do sistema

Leia estas páginas do meu livro O PRÍNCIPE OPERÁRIO (título provisório) em fase de atualização e conclusão.

Num livro que não se acha mais nas livrarias, Mário Garnero, ex-presidente da ANFAVEA, dedica um bom trecho ao papel de Lula, como "líder sob encomenda".


Nesse período que vai de 1969 a 1972, apesar da pressão da ditadura, os partidos clandestinos, entre os quais o PC do B e o MR-8, sobreviviam na “Oposição Metalúrgica”, valendo-se de remanescentes de 1968, que não haviam sido fichados no DOPS. A chapa de Paulo Vidal venceu sem dificuldades e o sindicato ganhou apoio oficial e dos parceiros norte-americanos, que mantinham um intercâmbio com as entidades sindicais no Brasil.
Seu irmão, como os companheiros do PCB, tinha trânsito nos dois lados e foi sondado para sugerir um companheiro que não fosse “queimado” para enfrentar Paulo Vidal. Mais uma vez o nome de Lula surgiu na sua aba. Ele foi oficialmente convidado a encabeçar a chapa oposicionista, mas preferiu ser primeiro secretário de Paulo Vidal, que teve uma vitória tranqüila.
Como diretor efetivo, passou a dar tempo integral ao sindicato e ficou com a responsabilidade do atendimento aos aposentados e a todas as questões ligadas à Previdência. Foi nesse período que estreitou suas relações com Paulo Villares, seu patrão.
Foi então que Lula despontou como à grande alternativa para dar envergadura ao “novo sindicalismo”, a estrutura “pensada” pelos sindicalistas norte-americanos ligados à CIA, embora com tinturas de “esquerda”. O “novo sindicalismo” tinha como principal papel sepultar tudo o que aconteceu na vida sindical brasileira até os anos setenta. Por um lado, catalogando como “peleguismo varguista” toda a organização sindical anterior ao golpe de 1964. Por outro, relegando ao esquecimento, por “aventureiros” os movimentos que entraram em confronto com a ditadura na segunda metade da década de sessenta.
Centrado originalmente no santuário da “aristocracia operária”, o ABC paulista, o novo sindicalismo combinava um discurso de questionamento classista com a abjuração e estigmatização do passado sindical. Essa disposição de fechar os espaços para lideranças anteriores viria a ser explicitada por Lula, em 21 de setembro de 1977, numa entrevista à revista Isto É: “Não temos compromisso com ninguém, com esquerda, direita ou centro. Só com a classe trabalhadora. No passado, a classe trabalhadora foi usada pelo Partido Trabalhista Brasileiro, e farei de tudo para evitar que seja novamente usada”.
Como novidade, Lula fez sucesso com facilidade. O início da década de setenta era de frustração entre os setores contrários à ditadura, acuados e dispersos. A perseguição era implacável – as prisões lotadas; notícias de centenas de mortes de adversários do regime. Procurava-se alguém que pudesse incomodar o regime de alguma forma. O Parlamento estava inteiramente controlado – uma meia dúzia de deputados “autênticos” esperneava solitariamente. A grande imprensa sucumbira às pressões. O movimento estudantil, que vivera seu apogeu até o AI-5, estava dizimado.
Naquele momento, a válvula de escape era um segmento localizado da igreja católica. Alguns dos seus padres foram presos, acusados de colaborarem com a luta armada. Havia um certo questionamento sobre o comprometimento do clero com o golpe militar de 1964 e se falava pela primeira vez na “teologia da libertação”. O cardeal de São Paulo, dom Evaristo Arns, que assumira esta função em 1970, assimilara a idéia de contribuir para minorar o sofrimento dos perseguidos e ajudar a recompor alguns condutos de descompressão social. Alguns prelados envolveram-se com convicção num esforço de redemocratização, enquanto outros entendiam que, ao contribuírem para a reoxigenação dos movimentos sociais, reduziam as áreas de atritos e eliminavam os potenciais de confronto, tornando o regime “mais palatável”.
Antes de extrapolar São Bernardo para ganhar os jornais de outras cidades, Lula foi atraído pelos norte-americanos, como relata o ex-vice-presidente industrial da Volkswagen do Brasil e presidente da ANFAVEA, Mário Garnero, em seu livro Jogo Duro (Editora Best Seller, 1988, 3º Edição, páginas 130 a 132).
“ Eu me vi obrigado, no final do ano passado, a enviar um bilhetinho pessoal a um velho conhecido, dos tempos das jornadas sindicais do ABC.....
...Sentei e escrevi: Lula....achei que tinha suficiente intimidade para chamá-lo assim, embora, no envelope, dirigido ao Congresso Nacional, em Brasília, eu tenha endereçado, solenemente: A Sua Excelência, Luiz Ignácio Lula da Silva, Espero que o portador o tenha reconhecido por trás daquelas barbas.
No bilhete, tentei recordar ao constituinte mais votado de São Paulo duas ou três coisas do passado, que dizem respeito ao mais ativo líder metalúrgico de São Bernardo: ele próprio, o Lula. Não sei como o nobre parlamentar, investido de novas preocupações, anda de memória. Não custa, portanto, lembrar-lhe. É uma preocupação justificável, pois o grande líder da esquerda brasileira costuma se esquecer, por exemplo, de que esteve recebendo lições de sindicalismo da Johns Hopkins University, nos Estados Unidos, ali por 1972, 1973, como vim a saber lá, um dia. Na universidade americana, até hoje, todos se lembram de um certo Lula com enorme carinho”.
Em seu livro, Mário Garnero não se limita a comentar o treinamento de Lula pela universidade que mantém há anos cursos dirigidos a líderes sindicais estrangeiros. Ele deixa claro sua convicção de que Lula foi fabricado com a anuência dos generais da ditadura:
“Além dos fatos que passarei a narrar, sinto-me no direito de externar minha estranheza quanto à facilidade com que se procedeu a ascensão irresistível de Lula, nos anos 70, época em que outros adversários do governo, às vezes muito mais inofensivos, foram tratados com impiedade. Lula, não – foi em frente, progrediu. Longe de mim querer acusá-lo de ser o cabo Anselmo do ABC, mesmo porque, ao contrário do que ocorre com o próprio Lula, eu só acuso com as devidas provas. Só me reservo o direito de achar estranho.
Lembro-me do primeiro Lula, lá por 1976, sendo apresentado por seu patrão, Paulo Villares, ao Werner Jessen, da Mercedes-Benz, e, de repente, eis que aparece o tal Lula á frente da primeira greve que houve na indústria automobilística durante o regime militar, ele que até então era apenas o amigo do Paulo Villares, seu patrão. Recordo-me de a imprensa cobrir o Lula de elogio, estimulando-o, no momento em que a distensão apenas começava, e de um episódio que é capaz de deixar qualquer um, mesmo os desatentos, com o pé atrás.
Foi em 1978, início do mês de maio. Os metalúrgicos tinham cruzado os braços, a indústria automobilística estava parada e nós, em Brasília, em nome da ANFAVEA, conversando com o governo sobre o que fazer. Era manhã de domingo e estive com o ministro Mário Henrique Simonsen. Ele estivera com o presidente Geisel, que recomendou moderação: tentar negociar com os grevistas, sem alarido. Imagine: era um passo que nenhum governo militar jamais dera, o da negociação com operários em greve. Geisel devia ter alguma coisa a mais na cabeça. Ele e, tenho certeza, o ministro Golbery.
Simonsen apenas comentou, de passagem, que Geisel tinha recomendado que Lula não falasse naquela noite na televisão, como estava programado. Ele era o convidado do programa VOX POPOLI, que ia ao ar na Tv Cultura – o canal semi-oficial do Governo de São Paulo. Seria uma situação melindrosa. “Nem ele, nem ninguém mais que fale em greve”, ordenou Geisel.
Saí de Brasília naquela manhã mesmo, reconfortado pela notícia de que ao governo interessava negociar. Desci no Rio com as malas e me preparei para embarcar naquela noite para uma longa viagem de negócios que começava nos Estados Unidos e terminava no Japão. Saí de Brasília também com a informação de que Lula não ia ar naquela noite.
Mas foi, e, no auge da conflagração grevista, disse o que queria dizer, numa televisão sustentada pelo governo estadual. Fiquei sabendo da surpreendente reviravolta da história num telefonema que dei dos Estados Unidos, no seguinte. Senti, ali, o dedo do general Golbery. Mais tarde, tive condições de reconstituir melhor o episódio e apurei que Lula só foi ao ar naquele domingo porque no vai-não-vai que precedeu o programa, até uma hora e meia antes do horário, prevaleceu a opinião do Golbery, que achava importante, por alguma razão, que Lula aparecesse no vídeo. O general Dilermando Monteiro, comandante do II Exército, aceitou a argumentação, e o governador Paulo Egydio Martins, instrumentado pelo Planalto, deu o nihil obstat final ao VOX POPOLI.
Lula foi a peça sindical na estratégia de distensão tramada pelo Golbery – o que não sei dizer é se Lula sabia ou não sabia que estava desempenhando esse papel. Só isso pode explicar que, naquele mesmo ano, o governo Geisel tenha cassado o deputado Alencar Furtado, que falou uma ou outra besteira, e uns políticos inofensivos de Santos, e tenha poupado o Lula, que levantava a massa em São Bernardo. É provável que, no ABC, o governo quisesse experimentar, de fato, a distensão. Lula fez a sua parte.
Mais tarde, ele chegou a ser preso, julgado pelo Supremo Tribunal Federal, enfrentou ameaça de helicópteros do Exército voando rasantes sobre o Estádio de Vila Euclides, mas tenho um outro testemunho pessoal que demonstra tratamento respeitoso, eu diria quase especial, conferido pelo governo Geisel ao Lula – por governo Geisel eu entendo, particularmente, o general Golbery”.
Sobre esse curso, poucos parceiros de Lula tiveram notícia. Paulo Vidal lembra de viagens aos Estados Unidos, durante as quais se fazia uma rápida lavagem cerebral, mas não confirmou especificamente nada relacionado à John Hopkins University. Mas essa instituição, que tem campus em várias cidades norte-americanas, recebe ajuda para cursos extra-curriculares que são considerados estratégicos em especial na formação de sindicalistas.

12 comentários:

  1. O aluno aplicado poderá cair rapidamente se continuar a achacar a oposição.
    Vou postar seu texto no meu blog, agora.
    Obrigada pela resitência de ontem e de hoje.

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  2. Anônimo10:29 PM

    Caro Porfírio

    Eu tenho o livro do Garnero e comentei alguns dos seus trechos com o saudoso Fausto Wolff, que o citou (o livro, e não os meus comentários) na sua coluna do JB.

    Agora, se juntarmos Lula, FHC, Serra, Aécio, Alckmin, etc., eu me verei obrigado a parafrasear Churchill, dizendo que "Lula é o pior dos candidatos, exceto todos os outros".

    Lembremo-nos de que o Lula foi eleito duas vezes pelo povo. E não se pode caminhar adiante do povo. Quem o tentou se estrepou.

    Abraços

    Alfredo Pereira dos Santos

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  3. Adelinha
    Você só não informou qual é o seu blog e nem mandou seu e-mail. Gostaria de conhecê-los
    abraçps
    Porfírio

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  4. Emerson11:49 AM

    Porfirio, como posso obter este livro?

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  5. Marilda Conceição de Oliveira9:28 PM

    Porfirio,Sr.Anônimo O metalurgico que nos anos 60 se "revelou" foi observado,treinado,lapidado provou ser no futuro eterno aliado; recebeu cursos como Porfírio mencionou de estratégias sindicalistas,custeada pelos sionistas nos anos 70 naquela época os gerentes de RH das grandes empresas eram orientados a estudar sobre greve nas indústrias.
    Quando Lula iniciou as greves,total
    liberdade;o poder sobre os pobres empregados que nada entendiam era: dizer sete vezes a mesma coisa na oitava os pobre coitados concordavam; muitos apoiaram as greves perderam o emprego,ficaram perturbardos sem nunca entenderem o porque!. A VW, Mercedez,[..] tinha seguro sôbre lucros suspensos nada perdiam;- o Garnero naquela época era apaixonado pelo "Pau Brasil" do Amazonas.São todos alunos das mesmas escolas.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.