domingo, 1 de março de 2009

Emílio Azevedo já disse tudo sobre Sarney e Vitorino Freire


Emilio Azevedo*

Jornal Pequeno, São Luiz, 26 se março de 2006

Tribunais, mas escolas, hospitais, ginásios esportivos, pontes, tudo no Maranhão batizado com o nome da Oligarquia Sarney. Até o Tribunal de Contas do Estado deu à sua sede o nome da ex-governadora Roseana Sarney.
Diz a sabedoria popular que uma mentira repetida mil vezes acaba se tornando verdade. No Maranhão, costuma-se repetir com insistência que José Sarney derrotou Vitorino Freire. Trata-se de uma afirmação que não condiz com a verdade. Nunca houve entre os dois um combate direto e definitivo. Algo que justificasse a tese da vitória de um sobre o outro.

Narrarei aqui fatos históricos que apontam que o correto seria dizer que José Sarney apenas substituiu Vitorino Freire no comando da atrasada política maranhense. E substituir, mesmo que a contragosto do substituído, é muito diferente de derrotar.

Primeiro é preciso ficar claro que Sarney é um produto do chamado vitorinismo. Ele começou na política maranhense protegido pelo pai, o desembargador Sarney Costa, amigo de Vitorino Freire e presidente do TRE, num período em que as eleições no Maranhão eram marcadas por enormes fraudes eleitorais, montados para ajudar os candidatos do vitorinismo.

Em 1965 Sarney se elege governador do Maranhão iniciando ali a construção do seu próprio esquema de poder. Disputaram o governo naquela eleição três candidatos. Todos nascidos dentro PSD, isto é, no esquema vitorinista. Coincidentemente, nenhum dos três foi lançado pelo próprio Vitorino Freire, que chegou naquela eleição politicamente fraco, rompido com o então governador Newton Belo e sem o controle do PSD, o partido que simbolizava o seu poder no Maranhão.

Os concorrentes de Sarney naquela eleição foram Renato Archer e Costa Rodrigues. Sem força para lançar um candidato de sua confiança, Vitorino acabou, por exclusão e sem entusiasmo, apoiando Renato. Um apoio que visava mais atrapalhar a candidatura de Costa Rodrigues (lançada por Newton Belo) do que propriamente ajudar Renato Archer a ganhar a eleição.

Newton e Vitorino travaram ali uma grande batalha pelo controle do PSD. Ao final não houve vencedor e o PSD ficou impedido de participar da eleição de 65, com Vitorino e Newton tendo que procurar outros partidos para poder participar daquele pleito.

As chamadas “Oposições Coligadas”, grupo que reunia os adversários históricos de Vitorino, tinham no deputado federal Neiva Moreira uma opção para aquela disputa ao governo. Mas Neiva foi cassado pela ditadura e teve que ir para o exílio.

Diante da falta de alternativa a oposição decidiu apoiar Sarney, que havia sido um dos primeiros a brigar com o governador Newton Belo. Para que o apoio a Sarney fosse formalizado tiveram que ser superadas sérias divergências do passado, quando Sarney foi publicamente acusado por essa mesma oposição de ser beneficiado pela fraude eleitoral orquestrada por seu pai.

Mas as “Oposições Coligadas” serviram para Sarney apenas como moldura. Ele ganhou aquela eleição de 1965 por conta do esfacelamento do PSD e, principalmente, do apoio que recebeu da ditadura militar instalada no Brasil no ano anterior. Foi a ditadura que determinou a vitória dele. Durante a campanha vieram vários generais e coronéis ao Maranhão a fim de garantir sua eleição. Até o acordo com a aposição maranhense foi articulado pelos militares golpistas.

E se quem ganhou foi Sarney, quem perdeu foi o governador Newton Belo, que teve contra si na campanha Vitorino Freire e Sarney, seus antigos aliados. No início da gestão de Newton Belo, Sarney tinha cargos no governo, inclusive uma irmã, Conceição Sarney, que era da assessoria direta do governador.

Newton Belo pagou um preço alto por suas posições e por ter isolado Vitorino Freire. Pressionado pela ditadura militar ele viu, ao final, as candidaturas de Sarney e Renato Archer trabalhando em sintonia contra Costa Rodrigues. Perdida a eleição ele acabou cassado pela ditadura, fato que agradou tanto a Sarney, quanto Vitorino.

Benedito Buzar, um jornalista muito ligado ao esquema Sarney, em seu livro O vitorinismo, destaca que o deputado federal Cid Carvalho, ao lançar a candidatura de Renato ao governo disse na TV que “as candidaturas de Renato Archer e Sarney abrem, pela primeira vez ao povo maranhense, uma perspectiva real de escolha”. Um declaração despropositada se for levado em consideração que os três candidatos tinham exatamente a mesma origem, que por sinal, era também a mesma de Cid Carvalho, o PSD vitorinista.

E o próprio Vitorino, em seu livro de memórias (A laje da raposa) diz com todas as letras que apoiou Renato sabendo que essa candidatura não venceria, servindo apenas para atrapalhar o candidato de Newton Belo e garantir a vitória de Sarney. No livro ele diz explicitamente que preferia Sarney “do que qualquer um dos outros dois (Renato ou Costa Rodrigues)”.

São fatos que reforçam a tese, defendida na dissertação de mestrado do historiador maranhense Wagner Cabral, quando ele defende que o que houve no Maranhão a partir de 1966 foi uma reestruturação do sistema oligárquico e não uma descontinuidade na política maranhense a partir da posse de Sarney.

Juntos até a morte - No final de 1965, com Sarney já eleito governador, a ditadura militar extingue todos os partidos políticos do Brasil, criando em seguida duas novas siglas partidárias, a ARENA, para receber os aliados da ditadura, e o MDB, para os que queriam fazer uma oposição moderada e consentida.

Sarney vai, obviamente, para a ARENA. E Vitorino Freire, ainda senador, também. No momento em que Sarney começa a substituir Vitorino no Maranhão, os dois, o antecessor e o substituto, voltaram a ser correligionários como nos velhos tempos do PSD, quando Vitorino arranjou para Sarney um dos primeiros empregos de sua vida, como assessor do governo de Eugênio Barros.

Apesar dessa nova aproximação partidária (que durou mais de 11 anos, até a morte de Vitorino) surgiu depois uma inimizade entre eles. Mas antes, quando Sarney tomou posse como governador, Vitorino não lhe hostilizou. Em seu livro de memórias ele diz que logo após a posse de Sarney ele não fez “nenhum ataque ao novo governador”, deixando claro que queria continuar a manter com o eleito uma relação cordial.

Ainda em 1966, no primeiro ano do governo Sarney, Vitorino Freire, ainda senador, dá uma entrevista ao jornal Diário de Notícia e diz que não negaria “sua colaboração ao governo em matéria de interesse público”.

Sarney, tendo linha direta com o ditador de plantão e sendo também o governador, achou, assim como seu antecessor Newton Belo, que não precisava, naquele momento, do decadente Vitorino. Era mais conveniente fazer o discurso da mudança e montar as bases que lhe permitiriam ocupar o espaço que estava vago no comando da política estadual.

No final da década de 60, Vitorino não disputa a reeleição para o Senado. Estava inteiramente desarticulado de suas antigas bases no Maranhão (desarticulação feita pelo ex-governador Newton Belo) e sem força suficiente para, naquele momento, fazer valer sua vontade junto à ditadura. A partir dali, mesmo sem mandato, continuou a fazer política como membro do diretório nacional da ARENA, diretório esse que Sarney também fez parte.

Sobre a inimizade entre os dois se percebe, no depoimento publicado no livro de memórias de Vitorino Freire, que ele não assimilou o discurso de mudança utilizado por Sarney. Além da retórica demagógica, uma tentativa frustrada de Sarney de tira-lo do diretório nacional deu um ponto final na relação.

Em meados da década de 70, já com a inimizade estabelecida entre os dois, surge uma nova conjuntura. Nela Vitorino estava, em relação aos anos 60, mais forte dentro da ARENA pois tinha mais proximidade com o então presidente Geisel do que com o ex-presidente Castelo Branco, o primeiro após o golpe.

Sarney, exercendo ali seu primeiro mandato de senador, aceita fazer dentro da ARENA um acordo com Vitorino em torno da escolha do futuro governador do Maranhão a ser indicado pela ditadura. E nesse momento foi Vitorino que não quis conversa.

O general Ernesto Geisel, que era o presidente da época, concedeu uma entrevista nos anos 90 a dois pesquisadores da FGV (Maria Celina D‘Araújo e Celso Castro). Publicada num livro que levou o nome do ex-presidente ele conta, nessa entrevista, fatos da política maranhense dos anos 70. Diz que Sarney e Vitorino eram irreconciliáveis, afirmando também que “Vitorino dizia desaforos de todo jeito sobre o Sarney”.

E os fatos mostram que não era só o presidente da república que conhecia os ataques de Vitorino a Sarney. Em 1977, já no final de sua vida e ainda membro da ARENA, o ex-senador do Maranhão disse para a revista Veja na edição de 12 de janeiro daquele ano que “Sarney furta até cinzeiro de avião”.

E assim, fortalecido dentro da ARENA e falando grosso diante do presidente da república, Vitorino ainda conseguiu influenciar na escolha de um governador do Maranhão nos anos 70 (Nunes Freire) e deixou o seu filho, Luís Fernando, um apagado ex-deputado federal do PSD, com um mandato de senador do Maranhão até o ano de 1982, portanto, cinco anos depois de sua morte. E tudo articulado nos altos escalões da ditadura, a revelia de Sarney, o homem que, de fato, havia lhe substituído no Maranhão.

Na eleição de 1974 Vitorino colocou seu filho como suplente de Henrique de La Roque, que disputou sozinho a eleição daquele ano para o Senado. Os militares, com base num acordo feito com Vitorino, chamaram La Roque para assumir uma vaga no Tribunal de Conta da União, deixando o caminho livre para o filho do velho cacique.

Vitorino morreu em agosto de 1977, filiado a ARENA, o esteio do esquema Sarney no Maranhão. Sua morte deu fim a uma vida pública onde, com ou sem mandato, esteve próximo ao poder central do país. Uma proximidade que durou cinco décadas e que amparou sua vinda ao Maranhão nos anos 30 e depois nos anos 40.

A partir dos fatos fica claro que Sarney nasceu no vitorinismo se beneficiou dele a partir de cargos, do PSD, dos palanques e das articulações junto a Justiça Eleitoral. Depois, quando esse mesmo Sarney substitui Vitorino, o antigo chefe político também soube participar do poder no Maranhão. E sob os ares do sarneysmo, a partir da ditadura militar, a mesma que botou Sarney no poder, Vitorino também tirou grandes vantagens.

E assim se deu a substituição, com a decadência natural de um e o oportunismo e o despudor do outro. Sem o consentimento direto do substituído, mas com aproximações e afastamentos circunstanciais. E sem um confronto direto e definitivo. Enfim, sem uma batalha final que determinasse os vencidos e os vencedores.

Mas, juntos ou separados, Sarney e Vitorino sempre utilizaram o Maranhão para ter poder. Um nasceu em Pernambuco e veio para cá em busca desse poder. O outro nasceu aqui e depois foi se eleger no Amapá para continuar mantendo o poder que tem aqui. E lá se vão 60 anos, seis décadas, um período onde a população desse Estado foi, de fato, a grande derrotada, pois esteve sempre inteiramente desprezada pelo poder conquistado, tanto pelo primeiro, como pelo segundo coronel.

*Emílio Azevedo é jornalista com pós-graduação em políticas públicas

2 comentários:

  1. O povo realmente só vai mudar de atitude e votar certo quando de fato tiver consciência de quem esta votando. Para isso é necessário ter lucidez e esta só é conquistada por meio de EDUCAÇÃO de qualidade e não a atual onde quem pode coloca os filhos em escola pública e aqueles desprovidos não tem outra alternativa senão selar o futuro de seus filhos em escolas públicas de péssima qualidade... Até quando, presidente Lula? Será que o recado de Brizola não lhe abriu os olhos???

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  2. Anônimo8:31 PM

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.