terça-feira, 10 de março de 2009

O suicídio do Vaticano e o assassinato da própria fé

HÉLIO FERNANDES
TRIBUNA DA IMPRENSA

Logo no título fiz questão de responsabilizar o culpado maior e verdadeiro dessa excomunhão que estarreceu o mundo. E concluir identificando imediatamente os efeitos destruidores e devastadores sobre a própria Igreja Católica.
Para Bento XVI, individualmente, é mais um equívoco colossal, dos muitos que vem praticando. O mundo católico se surpreende e se desespera com os seguidos erros do papa, quase todos provocados pela arrogância. Que é um pecado capital em qualquer pessoa, e uma ignomínia ainda maior no chefe da Igreja, pretenso e suposto porta-voz de Deus.
Coletivamente, a Igreja, em queda acentuada há muito tempo, planta mais descrença, espalha mais desesperança, acentua o descompasso entre a cúpula e os católicos verdadeiros e praticantes.
Ainda não se passou um mês da decisão totalmente imprudente de Bento XVI, reabilitando aquele que negou o Holocausto. Bento XVI voltou atrás, disse que não estava bem informado.
Agora não pode repetir o gesto do desmentido e da omissão, pois teria que fazer uma longa pregação, tão longa quanto os erros e equívocos praticados.
O medíocre e desconhecido dom José Cardoso sozinho não teria o mínimo de condições para praticar tantas exorbitâncias. Relacionemos separadamente os atos amaldiçoados que cometeu. Assim, será mais fácil condená-lo e compreender a condenação desse arcebispo, apoiado pela alta cúpula do Vaticano, mas repudiado pelos católicos, estes sim, representantes legítimos da Igreja.
1 – Excomungou toda a equipe médica.
2 – Aplicou a pena máxima da Igreja, para a mãe da menina.
3 – Inocentou o padrasto, afirmando que “o estupro é menos grave”, esquecendo que tudo começou com ele. Não fosse o estupro praticado covardemente em casa, nada teria acontecido. Com a decisão do Vaticano (colocada servilmente como “execução” do arcebispo) da excomunhão geral, os católicos mais do que fiéis deixaram de entender (e de seguir) as razões do comando da Igreja, decisão vinda diretamente da Santa Sé.
O estupro é um dos atos mais repulsivos e repugnantes. Cometido por um padrasto, indefensável. Atingindo uma menina de 9 anos, inexplicável. Indo até o fim na violação convicta e compenetrada, a ponto de engravidar a menina, inconfessável. Não só perante Deus, mas também no tribunal da opinião pública. E da Justiça.
Só que essa monstruosa combinação de crimes não foi julgada por nenhum tribunal jurídico e sim no tribunal da própria Igreja. Que se igualou ao estuprador, tão violenta quanto ele, tão desigual apesar de pregar a igualdade.
A culpabilidade do arcebispo, a ratificação feita pela CNBB, todos cumprindo ordens absurdas e pecaminosas do Vaticano, felizmente tiveram protestos e revoltas compensatórios da parte de órgãos e de cidadãos.
Em primeiro lugar, aplausos para a veemência e decisão instantânea da Comissão Nacional de Medicina, defendendo os médicos que apenas trabalhavam, cumprindo missão legalíssima.
A opinião pública, composta de cristãos e católicos, também merece elogios. Preservaram sua fé, mas não perdoaram os atentados.
E o próprio presidente Lula dessa vez não se omitiu, criticou a excomunhão. Poderia ter sido mais duro e mais autêntico, colocando as críticas no âmbito do próprio Vaticano-Santa Sé. Como esta é um Estado, Lula estaria responsabilizando de igual para igual. Mas pelo menos Lula, nesse caso raro, merece elogios.
Faltou a palavra de um magistrado do mais alto escalão, enquadrando o arcebispo e membros da CNBB, em crimes passíveis de punição. O aborto é legal no Brasil em muitos casos, principalmente em estupros com perigo de vida.
Acredito que os jornalões (sempre voltados para eles mesmos) deixaram o profissionalismo jornalísticos de lado e não ouviram ninguém, digamos logo, do Supremo. Muitos teriam falado, até mesmo os 11 membros da mais alta e definitiva corte, que estariam identificando crime grave. E apontando a punição não só para o estuprador, mas também para aqueles que o apoiaram.
PS – Houve um tempo, em que este repórter, apaixonado por oradores (principalmente os sacros), percorria igrejas, tentando descobri-los e ouvi-los. (Quase sempre em companhia de Gilberto Marinho, então presidente do Senado, grande figura.)
PS 2 – Hoje, esses oradores sacros estão em falta, os que falam nas igrejas são medíocres, cansativos e monótonos. Essa ausência no chão da Igreja alcançou o ponto mais alto, sem lideranças no próprio Vaticano. Está aí a explicação da queda violenta da Igreja Católica. Parece que sobrou apenas a liturgia, luxuosa e caríssima, embora belíssima.

Um comentário:

  1. Caro Hélio...
    Muito competente a sua análise da queda da "Santa" Madre Igreja que, de madre não tem absolutamente nada, pois ancorada na perseguição ao sexo feminino.
    Muito a propósito seu questionamento da ausência de opinião dos representantes da Justiça neste episódio indubitavelmente caracterizado como "crime de calúnia e difamação", pois fere frontalmente a CF, Art. 5, Inciso X, e a Lei de Defesa da Criança e do Adolescente.
    Não creio que a ausência deles seja de responsabilidade da imprensa, especialmente, porque o Sr. Gilmar Mendes não perde oportunidade para chamar os holofotes para si, quando se trata de defender seus interesses e de seus protegidos criminosos ladrões dos cofres públicos. Creio que a razão dessa ausência, como você clareou, é uma intencional posição político-diplomática do Governo Federal em relação ao Estado do Vaticano que, incompreensivelmente, ainda detém a posse do poder estatal que não lhe cabe; um poder que há muito já deveria ter sido extinto, até por uma questão de lógica jurídica. É por essa e outras que a Igreja Católica se acha no direito de cometer crimes contra a humanidade e contra as pessoas: o excesso de poder garante a sua impunidade.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.