segunda-feira, 9 de março de 2009

A mumificação do pensamento

Sérgio Muylaert*

A mumificação do pensamento é mal das instituições. Ainda que teorias suponham renovar ou reformar, quando as cabeças se aferroam e conspiram contra as idéias, é quase impossível inovar. É preciso que se entendam as mutações. Menos vidas seriam sacrificadas se, no escrever o Manual dos inquisidores, Nicolau Emerich (1320-1399) pressentisse que o fogo da fé e o da heresia não diferem entre si.

O padre Joseph Ratzinger, de orígem alemã, é hoje papa Bento XVI. A condenação de teólogo Leonardo Boff, no ano de 1984, é atribuída a quando o alemão era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e por este nome atende o antigo ofício do tribunal da Inquisição. Conforme o direito canônico um ano de “silêncio obsequioso” foi a pena imposta pelo tribunal em que Ratzinger o interrogou para a condenação do brasileiro por suas teses onde explicava a Teologia da Libertação.

A sociedade brasileira, sob a atmosfera de colônia e idade média, trava a mesma polêmica. De um lado, o judiciário anuncia para os hereges e infiéis impenitentes a fogueira da questão agrária. De outro lado, setores do alto clero católico prenunciam a torquemada, noutro episódio em que a violação de um direito individual foi perpetrada contra uma menina. Por expressar a outra face do problema social é menos relevante a imputação de práticas delituosas. Trata-se de impedir que a própria sociedade discuta, examine e se inteire dos motivos reais que escondem falsas controvérsias.

Neste segundo caso, os ressaltos aparecem mais nítidos, a atraírem atenções da mídia, até mesmo, para ocupar espaço de um certo programa, de apelo sensacionalista, cuja marca é uma repetida letra do alfabeto.

A pretensão da verdade absoluta leva à intolerância, lembra o teólogo da libertação, em seu prefácio para o Manual dos inquisidores. A mumificação do pensamento é portanto a forma sob a qual as instituições insinuam como recorrer ao uso da potência da fé, o fundamentalismo, que trouxe até os dias atuais os mistérios do credo e da ignorância. O discurso da religiosidade é sempre temerário no sentido em que ele aporta nas mentes e as põe submissas, sob pena de dessacralizar-se. Não pode haver história ante o risco de lucidez senão mistérios impelidos pela fatalidade. Versões não devem existir por ojeriza às contradições. Não basta ignorar. É preciso a fé. Tudo deve se reproduzir conforme ao discurso da religiosidade e da fé.

O vaticínio clerical não será menos ofensivo diante do estupro de uma pobre criança aos seus nove aninhos do que os estupros de uma nacionalidade inteira vitimada, quando alguns setores avançados da própria igreja católica se puseram ao lado de muitos dos perseguidos políticos e familiares, durante regime de exceção. A explicação talvez se mostre no fato de que antes de se fortalecer e se tornar doutrina, o catolicismo, ele próprio, esteve sob o estigma da perseguição, quando portas de casas dos cristãos amanheciam pichadas.

Os assuntos humanos, contrariamente a tantos que se supõem divinos, são atributos do ser humano e por estes devem ser resolvidos sem intervenção celeste. Quando Espinoza escreveu Ética adiantou seu pensamento para dizer que Deus não aborrece ninguém e não quer ninguém. Ainda paira sob o ocidente a mancha colonial que dissolveu com ácido Patrice Lumumba.

Somos feitos de perseguições, balas perdidas, somos diásporas e cataclismas, somos vítimas de escravidões e leis dominiais em que as sesmarias se consagram, tantas quantas foram vítimas dos holocaustos milhões de assassinatos nas câmaras de gás, por obra de ideologias e racismos. Hoje, na mais desenvolvida nação do ocidente, um negro estar na presidência, não redime nem prova esquecimento.

Enquanto para nós, tanto um voz do chefe do judiciário nacional, acerca da questão agrária, ou esta, em que se afirma o clero, a censurar o ato pelo qual seja cientificamente interrompida uma gestação, incerta e forçada, qualquer deles diante dos fatos e das circunstâncias, expressa a esclerose em grau interpretativo a que se chega, para a excomunhão (condenação) de todos os partícipes, sem a compreensão das respectivas mutações da sociedade. Por isso se pode dizer que a mumificação do pensamento é mal das instituições.

Se o sistema sesmarial no Brasil foi o embrião do insucesso da questão fundiária a constituir o latifúndio, a Bula Ad Extirpanda, do Papa Inocêncio IV, de outra parte, autorizava torturar os hereges que, segundo ela, seriam os “assassinos das almas, ladrões da fé cristã e dos sacramentos de Deus”. Não se trata da apologia da prática de blasfêmias ou heresias, em que eram queimados na Idade Média os perseguidos pelo Santo Ofício da igreja.

Não faz muito tempo a nação brasileira viveu o esforço do pacto social por um estado democrático de direito, ao romper com as formas jugulares de opressão. Embora não seja o espaço ideal em que se passe a limpo algumas dessas questões-chave, é importante lembrar o credo político de um Rui Barbosa, ao utilizar verbos absolutamente fortes, contra a intolerância. Exatamente por este motivo, a sociedade brasileira mesmo sem as proibições por qualquer opção de modalidade religiosa, constituiu um estado democrático e laico.

*Sérgio Muylaert – advogado em Brasília. Membro efetivo do IAB. Fundador e Presidente da AAJ – Seção Brasileira/DF.
sermuy\@zaz\.com\.br


Um comentário:

  1. Muito competente sua analítica exposição do cerne da questão que permeia o exercício do poder político pela intolerância. Sim, a religião, seja ela qual for, exerce, através da defesa do predomínio da fé sobre a razão, um poder absolutamente político sobre as pessoas, como tão bem nos alertou o grande Nietzsche.
    Com sua licença, convoco-o e a todos que lerem esse comentário, a assistirem ao documentário Zeitgeist - The Movie - disponível na íntegra com legenda em português, neste link: http://video.google.com/videoplay?docid=-1437724226641382024
    Zeitgeist (que significa "espírito do tempo") nos brinda com uma incrível aula sobre a formação das religiões e sobre o uso indiscriminado do seu poder político. Posteriormente, vejam o segundo documentário da série: Zeitgeist - Addendum, que apresenta a solução para nos desligarmos desse poder. Este trabalho é assinado pelo competente diretor Peter Joseph, mas conta com a colaboração de outros intelectuais.
    É fundamental encarar a VERDADE dos fatos para combater os danos oriundos da mumificação do pensamento (e má intenção) das dominadoras instituições que escravizam e exploram a Humanidade.

    ResponderExcluir

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.