terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Será?

As notícias sobre esta crise financeira e econômica são tantas e contraditórias que às vezes nos questionamos se em toda esta loucura não se esconde coisa pior…
Depois, a insistência com que alguns “formadores de opinião” de serviço nos brindam com afirmações do tipo de que “a procissão ainda vai no adro”, mais nos suscita a suspeita de que a Oligarquia Internacional ainda quer mais… ou seja, ainda não se deu por satisfeita.
Os homens de mão da Oligarquia Internacional andaram todo este tempo a anunciar que bom mesmo era a sacrossanta Economia de Mercado. Diga-se, uma economia livre de qualquer proteccionismo e de qualquer controlo nacional, porém submetida às conveniências do mercado financeiro internacional. Convocaram, inclusive, a Ecologia, onde descobriram um novo “El dourado”. Veja-se, por exemplo, o que se passa com o CO2, que transformaram no mercado do carbono, e as energias alternativas, onde se acotovelam os interesses comerciais de “respeitados” ambientalistas, a começar pelo Sr. Al Gore. Para tanto, lançaram-se num vasto programa de marketing insinuante, com recurso a todos os meios de comunicação. Seus agentes têm-se socorrido de tudo, desde a montagem cinematográfica, à pseudo ciência assente em modelos informáticos programados para dar a resposta política pretendida. É preciso convencer o pacato cidadão que a única forma de proteger o ambiente e salvá-lo do apocalíptico “Aquecimento Global” (Para eles aliás tudo é global…), nada melhor que a Globalização para definir e impor políticas comuns e globais de “preservação” da Natureza, se possível sem o bicho homem comum… Chegam a advogar, entre dentes, o direito de interferir quando os Estados Nacionais não a asseguram “convenientemente”, ou seja, de acordo com as suas regras. Criaram ONGs pseudo-científicas, por vezes financiadas pelos Governos Nacionais, logo com o dinheiro do contribuinte, para denunciar aquilo que eles entendem como destruição da biodiversidade. Todavia muitos dos seus membros não prescindem do conforto que a Economia do Petróleo lhes proporciona. A retórica ambiental prossegue, apesar da crise financeira e económica que vivemos, de que são os principais responsáveis, como também o é a sua indústria em relação à poluição. Na verdade o que buscam, além da oportunidade de um negócio estratégico altamente lucrativo, que a Ecologia Fundamentalista induz, é o total controlo das commodities, através do que podem impor uma escassez deliberada e consequentemente os preços, mas também vergar resistências ao seu secreto Poder Tentacular. Daí que não é um acaso que as áreas da seu enfoque ideológico são normalmente as mais ricas em recursos naturais, de que a Região Amazónica é talvez o exemplo mais extremado. Pela mesma razão, advogam o direito de intervir militarmente onde entendem que a sua “Democracia” é mal compreendida pelos governos locais… Porém só o fazem em países onde abunda o petróleo e o gás natural, ou que são concorrentes em áreas vitais para a sua Economia Global. A guerra com o Iraque começou quando Sadam Hussein pretendeu ser um produtor independente de petróleo, rompendo com o monopólio da OPEP e das Petrolíferas, cujo capital é na sua maioria Ocidental. A actual “guerra fria” com o Irão, tem a ver não tanto com o vector militar, ainda que este seja o argumento mais propalado, mas com o “negócio” do nuclear em que os Oligarcas Internacionais têm um interesse particular, como é óbvio. Quanto mais escassear os combustíveis fósseis, mais aquele se colocará na agenda económica dos principais centros de Capital, que pretendem tê-lo só para si como já fazem em relação a quase tudo.
Daí que tais paladinos da Globalização e do Internacionalismo, quer da esquerda, quer da direita, façam um ataque ideológico sistemático a tudo que cheire a autonomia, a independência, a proteccionismo, que, de imediato, apodam de nacionalismo xenófobo e com outros mimos… Trata-se de uma confusão deliberada para desmoralizar os que, por imperativo moral, pretendem em primeiro lugar a defesa da Economia do seu país, para desta forma melhor servir o povo. A acreditar nas últimas notícias oriundas das terras do Tio Sam, Obama lançou o repto ao consumidor norte-americano para dar preferência aos produtos nacionais, como forma de minimizar o desemprego. Não nos admiremos se a seguir não o chamem também de nacionalista e xenófobo. Na verdade, as grandes potências, nomeadamente os USA, nunca precisaram de o fazer evocando sentimentos arrebatados de patriotismo. Já o fazem e de há muito, só que de forma quase subliminar... A Globalização alargou de tal maneira o domínio económico dessas potências que os seus limites territoriais confundem-se praticamente com as fronteiras geográficas dos Estados Nacionais. Não precisam do proteccionismo clássico porque os seus interesses são garantidos no interior destes, ao mais alto nível, sem que ninguém tenha disso qualquer suspeita!
Desde a primeira hora da crise que afirmam que esta é global e portanto tem que ter uma resposta global. Será? Adiantam que, com justificável receio, que o regresso a qualquer proteccionismo será contraproducente. Ah, isso não temos dúvidas… Mas para quem? Ora se foi pela mão da Globalização Económica que chegámos aqui, como esperar que o mesmo sistema, que gerou tanto desequilíbrio social no Planeta, consiga alguma vez resolver os problemas que são o resultado normal de um sistema que exacerba todos os pecados e vícios de um Capitalismo que aboliu a fruição económica, como método de progresso social dos trabalhadores e dos povos em geral? Segundo as últimas notícias da FAO, a crise põe em risco de fome mais 100 milhões de vidas, além das que já existem. É evidente que a superação da crise não está em mais do mesmo… Mas infelizmente o que observamos é que os governos nacionais se articulam para aplicar as receitas económicas e financeiras que o sistema prodigaliza e estes dizem cínica e simplesmente amém. O nosso socrático governo, por exemplo, ainda por estes dias afirmou que o problema do desemprego não se resolve nem com a redução dos direitos dos trabalhadores, nem com o proteccionismo (SIC)… Olha quem fala? É preciso ter lata… No primeiro caso, nega-o com a nova Lei do Trabalho e com todos os cortes sociais, que têm afectado funcionários públicos e reformados. No segundo, seguem caninamente as directrizes dos seus “donos internacionais”. Depois não venham dizer que não existe uma central de inteligência internacional a comandar os destinos dos povos… em conúbio com os governos nacionais.
É claro que para chegarmos a este estado de coisas muito se trabalhou para desarticular e desconstruir as Economias Nacionais. A primeira de todas, no caso português, foi o abandono do sector primário e, consequentemente, de toda indústria que dele dependendia. Logo aí perdemos a nossa autonomia alimentar. Alguém nos disse um dia que um país que não consegue produzir pão e carne suficientes para alimentar o seu povo, está condenado a depender de outros… Mas a pedra de fecho do arco do empobrecimento nacional foi ter abandonado a cunhagem de moeda própria e o controlo dos fluxos de capital. E agora chegamos ao triste drama de dependermos a 80% de importações para comer e de precisarmos de nos endividar cada vez mais para pagar o que consumimos, que consumimos, em muitos casos, alegremente, sem nos importarmos com o dia de amanhã. Um défice alimentar combinado com a escassez de meios monetários só pode nos conduzir à servidão… Desculpem, mas este é que é o nome do boi… Alguns políticos e economistas insistem no aumento das exportações, como forma de equilibrar a balança comercial e a balança monetária, reduzindo deste modo o recurso ao crédito e ao aumento consequente da dívida externa. Estamos na União Europeia, contudo não somos ainda (por enquanto), em termos económicos, uma província de Bruxelas… ou de Espanha, condição que decerto nos permitiria estar sob o chapéu protector de um governo central, como estão as Regiões Autónomas de alguns países. Mas como exportar mais, se o mundo está em recessão, nomeadamente os nossos tradicionais mercados de exportação: Europa e USA? Mas como, se os nossos factores de produção são agravados pela nossa dependência externa de commodities e capital? Desculpem-nos mas parece que andam a mangar com o Zé Povinho. Ah mas vamos todos viver dos serviços, principalmente da inovação tecnológica…, que não tarda a reinventar a roda… Do Turismo, como se a crise só existisse em Portugal… Cavar a terra, verdadeira fonte de riqueza, e dela tirar o pão, isso é conversa de pacóvios da província, saudosistas do antigamente. “Peixe morre pela boca” e os Senhores do Mundo e os seus vassalos estão precisamente a matar-nos pela boca…
Ficamos, com efeito, a pensar na súbita apetência dos oligarcas internacionais pelo chapéu protector do Estado. Espanta-nos que de uma hora para a outra, ferrenhos neoliberais estendam o chapéu a pedir batatinhas a quem tanto abominaram e tentaram reduzir ao estado mínimo. E conseguiram-no! Que tanto fizeram para desvincular o Capital das suas obrigações sociais. E conseguiram-no! Agora pedem o sacrifício de todos para salvar sobretudo a sua pele… E os governos, que os cidadãos elegeram para defender o bem comum, mas ao que parece estão à frente dos Estados Nacionais para servirem o Sistema Financeiro Internacional, não se fazem de rogados… Estendem à “pobre” Oligarquia Internacional uma mão “generosa” cheia de biliões de euros e de dólares, à custa dos contribuintes e do endividamento progressivo dos Estados. Será isto um acaso? Não nos parece. Ou bem nos enganamos, ou está em marcha a última etapa da destruição do que resta do Estado Nacional, que no fim da crise ficará arruinado, a menos que entretanto haja um milagre… Aproxima-se o ocaso da Civilização Ocidental. Será que é tal que objectivam? Será?
Artur Rosa Teixeira
De Ponta Delgada, Portugal, em 15 de fevereiro de 2009
artur.teixeira1946@gmail.com

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.