terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Canto de guerra e dor. Gaza Sobreviverá


Subcomandante MARCOS, EZLN, de algum ponto na serra de Chiapas, México. 30/1/2009, Counterpunch.

Há dois dias, no mesmo dia em que discutíamos a violência, a inefável Condoleezza Rice, funcionária dos EUA, declarou que o que estava acontecendo em Gaza seria culpa dos palestinos, "povo naturalmente violento".
Os rios subterrâneos que correm em rede pelo mundo variam na geografia, mas, todos, cantam o mesmo canto. Esse canto, hoje, é de guerra e dor.
Não longe daqui, num lugar chamado Gaza, na Palestina, no Oriente Médio, bem aqui, perto de nós, o governo de Israel militarmente treinado e armado continua sua marcha de morte e destruição.
Os passos de Israel são passos clássicos nas campanhas militares de conquista: primeiro, bombardeio massivo, para destruir pontos militares "estratégicos" (como dizem os manuais militares) e para "desestimular" movimentos de resistência; depois, controle férreo da informação: tudo que é dito e visto "no mundo exterior", isso é, fora do "teatro de operações", deve ser filtrado por estritos critérios militares; então, fogo intenso de artilharia contra a infantaria inimiga para cobrir o avanço dos soldados para as novas posições; então, sítio e bloqueio, para enfraquecer o inimigo; então, o assalto, que conquista posições de implantação e aniquila o inimigo; então, a "varredura", para "limpar" possíveis "ninhos de resistência".
O manual militar da guerra moderna, com mínimas variações e acréscimos, está sendo seguido, linha a linha, pelo exército invasor.
Pouco sabemos sobre isso, e há especialistas para escrever sobre o chamado "conflito no Oriente Médio". Mas daqui de onde estamos, à esquerda e abaixo, temos algo a dizer:
Conforme as fotos dos noticiários, os pontos "estratégicos" destruídos pela força aérea do governo de Israel são casas, barracos, prédios de apartamentos. Não vimos destruídos um bunker, nem tendas de campanha, nem aeroporto militar, nem há canhões nas ruínas. Então ? e, por favor, perdoem nossa ignorância ?, das duas uma: ou os artilheiros dos aviões têm má pontaria, ou não há, em Gaza, os tais alvos militares "estratégicos".
Nunca tivemos a honra de visitar a Palestina, mas supomos que as pessoas, homens, mulheres, crianças e os velhos ? não soldados ? viviam naquelas casas, barracos e prédios.
Não vimos movimentos de exército de defesa. Só há ruínas de casas, barracos e prédios.
Mas vimos, sim, os esforços fúteis para sitiar a informação, e os governos do mundo tentando decidir-se entre ignorar e aplaudir a invasão, e a ONU, que há muito tempo já é inútil, distribuindo ternos comunidados à imprensa...
Mas... calma. Esperem. Ocorre-nos que talvez, para o exército de Israel, aqueles homens, mulheres, crianças e velhos sejam os soldados inimigos, e, nesse caso, os barracos, casas e prédios onde moravam são os quartéis que têm de ser destruídos...
Então, a chuva de bombas que choveu hoje cedo sobre Gaza visava a proteger o avanço da infantaria israelense, contra o ataque de homens, mulheres, crianças e velhos.
E o exército inimigo que tinha de ser enfraquecido pelo sítio que foi imposto em Gaza é a população palestina que ali vive. E o assalto visou a aniquilar a população. E quem fosse, homem, mulher, criança ou velho, que tentasse escapar ou esconder-se do assalto sanguinário em marcha seria em seguida "caçado", até que a limpeza estivesse completa e os comandantes encarregados da operação pudessem relatar aos superiores: "Missão cumprida."
Outra vez, perdoem nossa ignorância, e talvez estejamos dizendo coisas que não são importantes. E, em vez de condenar um crime em andamento, sendo indígenas mexicanos e guerrilheiros como somos, deveríamos discutir e tomar posição na discussão sobre se quem começou tudo foram os "sionistas", os "anti-semitas" ou as bombas do Hamás.
É possível que nosso pensamento seja muito simples e que não percebamos as nuances e os detalhes sempre importantes nas análises, mas do ponto de vista dos Zapatistas, o que vemos é um exército profissional matando população civil desarmada.
Quem, da esquerda e de baixo, poderia calar-se?
Basta dizer alguma coisa? Nossos gritos algum dia detiveram uma única bomba? Nossa fala salvará a vida de um único palestino?
Achamos que sim, que nossa fala é útil. Não deteremos bomba alguma e nossa palavra não é escudo blindado à prova das balas calibre 5,56 mm ou 9 mm em que se lê o logotipo "IMI", de "Indústria Militar Israelense" gravado na base do cartucho e em fuzil mirado para o coração de uma menina ou de um menino, mas talvez nossa fala una-se a outras forças, no México e no mundo e talvez, primeiro ouvida como murmúrio, depois mais alta, até ser um grito que se ouça em Gaza.
Nada sabemos sobre vocês, mas nós, os Zapatistas do Exército Zapatista de Libertação Nacional, sabemos o quanto é importante, em momento de destruição e morte, ouvir palavras de encorajamento.
Não sei como explicar, mas fato é que, sim, palavras não detêm bombas, mas são como uma brecha que se abre no quarto escuro da morte, por onde entra um raio de luz.
Como sempre, o que tiver de acontecer acontecerá. O governo de Israel declarará que acertou golpe severo no terrorismo, esconderá da opinião pública israelense a magnitude do massacre, a grande indústria da guerra terá obtido apoio econômico para enfrentar a crise, e "a opinião pública global", essa entidade maleável sempre na moda, dará as costas.
Mas não só isso. O povo da Palestina também resiste e sobrevive e continua a lutar e sua causa continua a receber a simpatia dos de baixo.
Sobreviverão muitas crianças, meninos e meninas de Gaza. Crescerão e, com eles, crescerá a força, a indignação, a digna raiva. Muitos serão soldados ou guerrilheiros ou milicianos de algum dos grupos que lutam na Palestina. Alguns, um dia, se verão em combate contra Israel. Esses aprenderão a atirar e atirarão. Outros serão mártires, e se sacrificarão, com um colete ou um cinturão de explosivos.
Depois, os poderosos escreverão sobre a natureza violenta dos palestinos e declararão declarações em que condenarão a violência. E voltarão às conversas sobre se o caso é o sionismo ou se o caso é o anti-semitismo.
Ninguém perguntará quem plantou o que está sendo colhido.
Artigo original, em inglês, pode ser lido em:
http://www.counterpunch.org/marcos01302009.html

Um comentário:

  1. Anônimo11:30 PM

    SubComandante Marcos,
    Graças a ele descobri que podia fazer a minha revolução sem derramar sangue, quando, há muitos anos,numa entrevista, declarou que hoje fazia muito mais com o auxílio de um computador na internet do que com uma submetralhadora.
    Foi o que passei a fazer, e hoje me sinto revolucionariamente útil.
    Obrigado, SubComandante Marcos, por nos apontar o melhor caminho.
    Zilton Tadeu Figueiredo de Campos, ex-paraquedista militar, hoje um revolucionário internáutico.

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.