domingo, 25 de janeiro de 2009

A impunidade de Israel vista por Eduardo Galeano


O escritor Eduardo Galeano (foto) lembra que Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções da ONU, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que burla leis internacionais e também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros. Galeano pergunta: quem deu a Israel o direito de negar todos os direitos? Acaso a tragédia do Holocausto implica apólice de eterna impunidade? Ou esse sinal verde provém dos EUA, potência mandona, que tem em Israel o mais incondicional dos seus vassalos?

Eduardo Galeano
Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que, segundo seus autores, pretende acabar com os terroristas, conseguira multiplicá-los.Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua.Não podem nem respirar sem autorização.Perderam a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, perderam tudo. Nem sequer têm direito a eleger os seus governantes.Quando votam em quem não devem votar, são castigados.Gaza está a ser castigada; converteu-se numa ratoeira sem saída.Algo semelhante ao que ocorreu em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador.Banhados em sangue, os salvadorenhos expiram o seu mau comportamento e desde então viveram submetidos a ditaduras militares.A democracia é um luxo que nem todos merecemSão filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com má pontaria sobre as terras que haviam sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou.E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito de Israel à existência, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há anos, o direito à existência da Palestina.Já pouca Palestina resta.Passo a passo, Israel está a apagá-la do mapa.Os colonos invadem e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira.As balas sacralizam o roubo, em legítima defesa.Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva.Hitler invadiu a Polônia para evitar que a Polônia invadisse a Alemanha.Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo.Em cada uma das suas guerras defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços prosseguem.A devoração justifica-se pelos títulos de propriedade que a Bíblia concedeu, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que burla leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros.Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos?De onde vem a impunidade com que Israel está a executar a matança de Gaza?O governo espanhol não terá podido bombardear impunemente o País Vasco para acabar com a ETA, nem o governo britânico terá podido arrasar a Irlanda para liquidar o IRA.Acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade?Ou esse sinal verde provém da potência mandona que tem em Israel o mais incondicional dos seus vassalos?O exército israelense, o de armamento mais moderno e refinado do mundo, sabe a quem mata.Não mata por erro.Mata por horror.As vítimas civis chamam-se danos colaterais, conforme o dicionário de outras guerras imperiais.Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são crianças.E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica.E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um.Por cada cem palestinos mortos, um israelense.Gente perigosa, adverte o outro bombardeamento, a cargo dos meios maciços de manipulação, que nos convidam a acreditar que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinas.E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas bombas atômicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irã foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.A chamada comunidade internacional, existe?Será algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros?Será algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos se põem quando fazem teatro?Perante a tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial brilha mais uma vez.Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, as declarações ocas, as declarações altissonantes, as posturas ambíguas rendem tributo à sagrada impunidade.Perante a tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos.Como sempre.E como sempre, os países europeus esfregam as mãos.A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima, enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre.Porque a caça de judeus foi sempre um costume europeu, mas desde há meio século essa dívida histórica está a ser cobrada aos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, anti-semitas.Eles estão a pagar, em sangue contante a sonante, uma conta alheia.(Este artigo é dedicado aos meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras latino-americanas que Israel assessorou. Eduardo Galeano).

Um comentário:

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.