domingo, 11 de janeiro de 2009

Carta aberta aos norte-americanos do rei da Jordânia em 1947

Rei Abdállah I
A Palestina, que tinha 1.000.000 de árabes e 100.00 judeus no final da Iª Guerra Mundial , passsou a ter em 1947, 1.200.000 árabes e 600.000 Judeus devido à política maciça de imigração implementada pelo movimento internacional sionista, com apoio das potências ocidentais. A proposta de partilha dava ao judeus 57% do teritório e aos árabes 43%. É claro que os árabes não podiam aceitar. A desporporção era enorme!


S.M., Rei Abdállah I



The American Magazine, novembro, 1947. E na internet, em
http://politics.propeller.com/story/2006/08/03/as-the-arabs-see-the-jews/,
"Esse fascinante ensaio, escrito pelo avô do rei Hussein, Rei Abdállah I, foi publicado nos EUA seis meses antes do início da Guerra de 1948, entre israelenses e palestinos".

É prazer especial dirigir-me ao público norte-americano, porque o trágico problema da Palestina não será jamais resolvido sem a simpatia dos norte-americanos, sem seu apoio, sem que compreendam.

Já se escreveram contudo tantas palavras sobre a Palestina
- é talvez o assunto sobre o qual mais se escreveu em toda a história -, que hesito. Mas tenho de falar,
porque acabei por concluir que o mundo em geral, e os EUA em especial, sabem praticamente nada sobre a causa
pela qual os árabes realmente lutam.

Nós, árabes, acompanhamos a imprensa dos EUA, talvez
muito mais do que os senhores pensem. E nos perturba muito
constatar que, para cada palavra impressa a favor dos
árabes, imprimem-se mil a favor dos sionistas. Há muitas
razões para que isto aconteça.

Vivem nos EUA milhões de cidadãos judeus interessados
nesta questão. Eles têm vozes fortes, falam muito e
conhecem bem os recursos da divulgação de notícias. E há
poucos cidadãos árabes nos EUA, e ainda não conhecemos
bem as técnicas da propaganda moderna.

Os resultados disto têm sido alarmantes. Vemos na imprensa
dos senhores uma horrível caricatura de nós mesmos e lemos
que aquele seria nosso verdadeiro retrato. Para que haja
justiça, não podemos deixar que esta caricatura seja
tomada por nosso retrato verdadeiro.

Nosso argumento é bem simples: por quase 2.000 anos, a
Palestina foi quase 100% árabe. Ainda é preponderantemente
árabe, apesar do enorme número de judeus imigrantes. Mas
se continuar a imigração em massa, em pouco tempo seremos
minoria em nossa própria casa.

A Palestina é país pequeno e muito pobre, quase do
tamanho do estado de Vermont. A população árabe é de
apenas 1,2 milhão de pessoas. E fomos obrigados a receber,
contra nossa vontade, cerca de 600 mil judeus sionistas. E
nos ameaçam com muitos mais centenas de milhares.

Nossa posição é tão simples e natural, que surpreende
que tenha sido questionada. É exatamente a mesma posição
que os EUA adotaram em relação aos infelizes judeus
europeus. Os senhores lamentam que eles sofram o que sofrem
hoje, mas não os querem em seu país.

Tampouco nós os queremos em nosso país. Não porque sejam
judeus, mas porque são estrangeiros. Não queremos centenas
de milhares de estrangeiros em nosso país, sejam ingleses,
noruegueses, brasileiros, o que sejam.

Pensem um pouco: nos últimos 25 anos, fomos obrigados a
receber população equivalente a um terço do total de
habitantes nativos. Nos EUA, seria o mesmo que o país ser
obrigado a receber 45 milhões de estrangeiros, contra a
vontade dos norte-americanos, desde 1921. Como os senhores
reagiriam a isto?

Por nossa reação perfeitamente natural, contra sermos
convertidos em minoria em nossa terra, somos chamados de
nacionalistas cegos e anti-semitas impiedosos. A acusação
seria cômica, se não fosse tão perigosa.

Nenhum povo da Terra jamais foi menos anti-semita que os
árabes. Os judeus sempre foram perseguidos quase
exclusivamente por nações ocidentais e cristãs. Os
próprios judeus têm de admitir que nunca, desde a Grande
Diáspora, os judeus desenvolveram-se com tanta liberdade e
alcançaram tanta importância quanto na Espanha enquanto a
Espanha foi possessão árabe. Com pequenas exceções, os
judeus viveram durante séculos no Oriente Médio, em
completa paz e amizade com seus vizinhos árabes.

Damasco, Bághdade, Beirute e outros centros árabes sempre
incluíram grandes e prósperas comunidades de judeus. Até
o início da invasão sionista na Palestina, estes judeus
receberam tratamento mais generoso - muito, muito mais
generoso - do que o que receberam na Europa cristã. Hoje,
infelizmente, pela primeira vez na história, aqueles judeus
começam a sentir os efeitos da resistência árabe ao
assalto sionista. Muitos judeus estão tão ansiosos quanto
os árabes e querem o fim do conflito. Muitos destes judeus
que encontram lar acolhedor entre nós ressentem-se, como
nós, com a chegada de tantos estrangeiros.

Por muito tempo intrigou-me muito a estranha crença, que
aparentemente persiste nos EUA, segundo a qual a Palestina
sempre teria sido, de algum modo, "terra dos
judeus". Recentemente, conversando com um
norte-americano, desfez-se o mistério. Disse-me ele que a
maioria dos norte-americanos só sabem, sobre a Palestina, o
que lêem na Bíblia. Dado que havia uma terra dos judeus no
tempo de que a Bíblia fala, pensam eles, concluem que nada
tenha mudado desde então.

Nada poderia ser mais distante da verdade. E, perdoem-me,
é absurdo recorrer ao alvorecer da história, para concluir
sobre quem 'mereceria' ser dono da Palestina de
hoje. Contudo, os judeus fazem exatamente isto, e tenho de
responder a este "clamor histórico". Pergunto-me
se algum dia houve no mundo fenômeno mais estranho do que
um grupo de pessoas pretenderem, seriamente, reclamar
direitos sobre uma terra, sob a alegação de que seus
ancestrais ali teriam vivido há 2.000 anos!

Se lhes parecer que argumento em causa própria, convido-os
a ler a história documentada do período e verificar os
fatos.

Registros fragmentados, que são os que há, indicam que os
judeus viviam como nômades e chegaram do sul do Iraque ao
sul da Palestina, onde permaneceram por pouco tempo; e
então moveram-se para o Egito, onde permaneceram por cerca
de 400 anos. À altura do ano 1300 a.C. (pelo calendário
ocidental), deixaram o Egito e gradualmente dominaram alguns
- mas não todos - os habitantes da Palestina.

É significativo que os Filistinos - não os judeus -
tenham dado nome ao país. "Palestina" é,
simplesmente, a forma grega equivalente a
"Philistia".

Só uma vez, durante o império de David e Salomão, os
judeus chegaram a controlar quase toda - mas não toda -
a terra que hoje corresponde à Palestina. Este império
durou apenas 70 anos e terminou em 926 a.C. Apenas 250 anos
depois, o Reino de Judá já estava reduzido a uma pequena
província em torno de Jerusalém, com território
equivalente a 1/4 da Palestina de hoje.

Em 63 a.C., os judeus foram conquistados pelo romano
Pompeu, e nunca mais voltaram a ter nem vestígio de
independência. O imperador Adriano, romano, finalmente os
subjugou em circa 135 d.C. Adriano destruiu Jerusalém,
reconstruiu-a sob outro nome e, por centenas de anos, nenhum
judeu foi autorizado a entrar na cidade. Poucos judeus
permaneceram na Palestina; a enorme maioria deles foram
assassinados ou fugiram para outros países, na Diáspora,
ou Grande Dispersão. Desde então, a Palestina deixou de
ser terra dos judeus, por qualquer critério racional
admissível.

Isto aconteceu há 1.815 anos. E os judeus ainda aspiram
solenemente à propriedade da Palestina! Se se admitir este
tipo de fantasia, far-se-á dançar o mapa do mundo!

Os italianos reclamarão a propriedade da Inglaterra, que
os romanos dominaram por tanto tempo. A Inglaterra poderá
reclamar a propriedade da França, "pátria" dos
normandos conquistadores. Os normandos franceses poderão
reclamar a propriedade da Noruega, "pátria" de
seus ancestrais. Os árabes, além disto, poderemos reclamar
a propriedade da Espanha, que dominamos por 700 anos.

Muitos mexicanos reclamarão a propriedade da Espanha,
"pátria" de seus pais ancestrais. Poderão exigir
a propriedade também do Texas, que pertenceu aos mexicanos
até há 100 anos. E imaginem se os índios norte-americanos
reclamarem a propriedade da terra da qual foram os únicos,
nativos, ancestrais donos, até há apenas 450 anos!

Nada há de caricato, aí. Todas estas aspirações e
demandas são tão válidas e justas - ou tão fantasiosas
- quanto a "ligação histórica" que os judeus
alegam ter com a Palestina. Muitas outras ligações
históricas são muito mais válidas do que esta.

De qualquer modo, a grande expansão muçulmana, dos anos
650 d.C., definiu tudo e dominou completamente a Palestina.
Daquele tempo em diante, a Palestina tornou-se completamente
árabe, em termos de população, de língua e de religião.
Quando os exércitos britânicos chegaram à Palestina,
durante a última guerra, encontraram 500 mil árabes e
apenas 65 mil judeus.

Se uma sólida e ininterrupta ocupação árabe, por 1.300
anos, não torna árabe um país... o que mais seria
preciso?

Os judeus dizem, com razão, que a Palestina é a terra de
sua religião. Parece ser o berço da cristandade. Mas, que
outra nação cristã faz semelhante reivindicação? Quanto
a isto, permitam-me lembrar que os cristãos árabes - e
há muitas centenas de milhares de cristãos árabes no
mundo árabe - concordam absolutamente com todos os
árabes, e opõem-se, também, à invasão sionista da
Palestina.

Permitam-me acrescentar também que Jerusalém, depois de
Meca e Medina, é a cidade mais sagrada no Islam. De fato,
nos primórdios de nossa religião, os muçulmanos
rezávamos voltados para Jerusalém, não para Meca.

As "exigências religiosas" que os judeus fazem,
em relação à Palestina, são tão absurdas quanto as
"exigências históricas". Os Lugares Santos,
sagrados, para três grandes religiões, devem ser abertos a
todos, não monopólio de qualquer delas. E não confundamos
religião e política.

Tomam-nos por desumanos e sem coração, porque não
aceitamos de braços abertos talvez 200 mil judeus europeus,
que sofreram tão terrivelmente a crueldade nazista e que
ainda hoje - quase três anos depois do fim da guerra -
ainda definham em campos gelados, deprimentes. Permitam-me
destacar alguns fatos.

A inimaginável perseguição aos judeus não foi obra dos
árabes: foi obra de uma nação cristã e ocidental. A
guerra que arruinou a Europa e tornou impossível que estes
judeus se recuperassem foi guerreada exclusivamente entre
nações cristãs e ocidentais. As mais ricas e mais vazias
porções do planeta pertencem, não aos árabes, mas a
nações cristãs e ocidentais.

Mesmo assim, para acalmar a consciência, estas nações
cristãs e ocidentais pedem à Palestina - país
muçulmano e oriental muito pequeno e muito pobre - que
aceite toda a carga. "Ferimos terrivelmente esta
gente", grita o Ocidente para o Oriente. "Será
que vocês podem tomar conta deles, por nós?" Não
vemos aí nem lógica nem justiça. Não somos, os árabes,
"nacionalistas cruéis e sem coração"?

Os árabes somos povo generoso: nos orgulhamos de "a
hospitalidade árabe" ser expressão conhecida em todo
o mundo. Somos solidários: a ninguém chocou mais o terror
hitlerista do que aos árabes. Ninguém lastima mais do que
os árabes o suplício pelo qual passam hoje os judeus
europeus.

Mas a Palestina já acolheu 600 mil refugiados. Entendemos
que ninguém pode esperar mais de nós - nem poderia
esperar tanto. Entendemos que é chegada a vez de o resto do
mundo acolher refugiados, alguns deles, pelo menos.

Serei completamente franco. Há algo que o mundo árabe
simplesmente não entende. Dentre todos os países, os EUA
são os que mais pedem que se faça algo pelos judeus
europeus sofredores. Este pedido honra a humanidade pela
qual os EUA são famosos e honra a gloriosa inscrição que
se lê na Estátua da Liberdade.

Contudo, os mesmos EUA - a nação mais rica, maior, mais
poderosa que o mundo jamais conheceu - recusa-se a receber
mais do que um pequeníssimo grupo daqueles mesmos judeus!

Espero que os senhores não vejam amargura no que digo.
Tentei arduamente entender este misterioso paradoxo. Mas
confesso que não entendo. Nem eu nem nenhum árabe.

Talvez tenham ouvido dizer que "os judeus europeus
querem ir para a Palestina e nenhum outro lugar lhes
interessa."

Este mito é um dos maiores triunfos de propaganda, da
Agência Judaica para a Palestina, a organização que
promove com zelo fanático a emigração para a Palestina.
É sutil meia-verdade; portanto, é duplamente perigosa.

A estarrecedora verdade é que ninguém no mundo realmente
sabe para onde estes infelizes judeus realmente querem ir!

Imaginar-se-ia que, tratando-se de questão tão grave, os
americanos, ingleses e demais autoridades responsáveis
pelos judeus europeus teriam pesquisado acurada e
cuidadosamente - talvez por votos -, para saber para
onde cada judeu realmente deseja ir. Surpreendentemente,
jamais se fez qualquer levantamento ou pesquisa! A Agência
Judaica para a Palestina impediu-o.

Há pouco tempo, numa conferência de imprensa, alguém
perguntou ao Comandante Militar norte-americano na Alemanha
o que lhe dava tanta certeza de que todos os judeus
quisessem ir para a Palestina. Sua resposta foi simples:
"Fui informado por meus assessores judeus."
Admitiu que não houvera qualquer votação ou levantamento.
Houve preparativos para uma pesquisa, mas a Agência Judaica
para a Palestina fez parar tudo.

A verdade é que os judeus, nos campos de concentração
alemães, estão hoje sob intensa pressão de uma campanha
sionista, por métodos aprendidos do terror nazista. É
perigoso, para qualquer judeu, declarar que prefere outro
destino que não seja a Palestina. Estas vozes dissonantes
têm sofrido espancamentos severos e castigos ainda piores.

Também há pouco tempo, na Palestina, cerca de 1.000
judeus austríacos informaram à organização internacional
de refugiados que gostariam de voltar à Áustria e já se
planejava o seu repatriamento. Mas a Agência Judaica para a
Palestina soube destes planos e aplicou forte pressão
política para que o repatriamento não acontecesse. Seria
má propaganda, contrária aos interesses sionistas, que
houvesse judeus interessados em deixar a Palestina. Os cerca
de 1.000 austríacos ainda estão lá, contra a vontade
deles.

O fato é que a maioria dos judeus europeus são
ocidentais, em termos de cultura e práticas de vida, com
experiência e hábitos urbanos. Não são pessoas das quais
se deva esperar que assumam o trabalho de pioneiros, na
terra dura, seca, árida da Palestina.

Mas é verdade, sim, pelo menos um fato. Como estão postas
hoje as opções, a maioria dos judeus europeus refugiados,
sim, votarão por serem mandados para a Palestina,
simplesmente porque sabem que nenhum outro país os
acolherá.

Se os senhores ou eu tivermos de escolher o campo de
prisioneiros mais próximo, para ali vivermos a vida que nos
reste, ou a Palestina, sem dúvida também escolheríamos a
Palestina.

Mas dêem alternativas aos judeus, qualquer outra
possibilidade, e vejam o que acontece!

Contudo, nenhuma pesquisa ou escolha terá alguma
utilidade, se as nações do mundo não se mostrarem
dispostas a abrir suas portas - um pouco, que seja - aos
judeus. Em outras palavras, se, consultado, algum judeu
disser que deseja viver na Suécia, a Suécia deverá estar
disposta a recebê-lo. Se escolher os EUA, os senhores
terão de permitir que venha para cá.

Qualquer outro tipo de consulta ou pesquisa será farsa.
Para os judeus desesperados, não se trata de pesquisa de
opinião: para eles, é questão de vida ou morte. A menos
que tenham certeza de que sua escolha significará alguma
coisa, os judeus continuarão a escolher a Palestina, para
não arriscarem o único pássaro que já têm em mãos, por
tantos que voam tão longe.

Seja como for, a Palestina já não pode aceitar mais
judeus. Os 65 mil que havia na Palestina em 1918, saltaram
hoje para 600 mil. Nós árabes também crescemos, em
número, e não por imigração. Os judeus eram apenas 11%
da população, naquele território. Hoje, são um terço.

A taxa de crescimento tem sido assustadora. Em poucos anos
- a menos que o crescimento seja detido agora - haverá
mais judeus que árabes, e seremos significativa minoria em
nossa própria terra.

Não há dúvida de que o planeta é rico e generoso o
bastante para alocar 200 mil judeus - menos de um terço
da população que a Palestina, minúscula e pobre - já
abriga. Para o resto do mundo, serão mais alguns. Para
nós, será suicídio nacional.

Dizem-nos, às vezes, que o padrão de vida árabe
melhorou, depois de os judeus chegarem à Palestina. É
questão complicada, dificílima de avaliar.

Mas, apenas para argumentar, assumamos que seja verdade.
Neste caso, talvez fôssemos um pouco mais pobres, mas
seríamos donos de nossa casa. Não é anormal preferirmos
que assim seja.

A triste história da chamada Declaração de Balfour, que
deu início à imigração dos sionistas para a Palestina,
é complicada demais para repeti-la aqui, em detalhes.
Baseia-se em promessas feitas aos árabes e não cumpridas
- promessas feitas por escrito e que não se podem
cancelar.

Declaramos que aquela declaração não é válida.
Declaradamente negamos o direito que teria a Grã-Bretanha
de ceder terra árabe para ser "lar nacional" de
um povo que nos é completamente estranho.

Nem a sanção da Liga das Nações altera nossa posição.
Àquela altura, nenhum país árabe era membro da Liga. Não
pudemos dizer sequer uma palavra em nossa defesa.

Devo dizer - e, repito, em termos de franqueza fraterna
-, que os EUA são quase tão responsáveis quanto a
Grã-Bretanha, por esta Declaração de Balfour. O
presidente Wilson aprovou o texto antes de ser dado a
público, e o Congresso dos EUA aprovou-o, palavra por
palavra, numa resolução conjunta de 30 de junho de 1922.

Nos anos 1920, os árabes foram perturbados e insultados
pela imigração dos sionistas, mas ela não nos alarmou.
Era constante, mas limitada, como até os sionistas pensavam
que continuaria a ser. De fato, durante alguns anos, mais
judeus deixaram a Palestina, do que chegaram - em 1927, os
que partiram foram o dobro dos que chegaram.

Mas dois novos fatores, que nem os britânicos nem a Liga
nem os EUA e nem o mais fervoroso sionista considerou,
começaram a pesar neste movimento, no início dos anos 30,
e fizeram a imigração subir a patamares jamais imaginados.
Um, foi a Grande Depressão mundial; o outro, a ascensão de
Hitler.

Em 1932, um ano antes de Hitler tomar o poder, só 9.500
judeus chegaram à Palestina. Não os consideramos
bem-vindos, mas não tememos que, àquele ritmo, ameaçassem
nossa sólida maioria árabe. Mas no ano seguinte - o ano
de Hitler -, o número saltou para 30 mil. Em 1934, foram
42 mil! Em 1935, 61 mil!

Já não era a chegada ordeira de idealistas sionistas. Em
vez disto, a Europa jorrava sobre nós levas de judeus
assustados. Então, sim, afinal, nos preocupamos. Sabíamos
que, a menos que se detivesse aquele fluxo gigantesco, seria
a catástrofe para nós, os árabes, em nossa pátria
palestina. Ainda pensamos assim.

Parece-me que muitos norte-americanos crêem que os
problemas da Palestina são remotos, que estão muito
distantes deles, que os EUA nada têm a ver com o que lá
acontece, que o único interesse dos EUA é oferecer apoio
humanitário.

Creio que os norte-americanos ainda não viram o quanto,
como nação, são responsáveis em geral por todo o
movimento sionista e, especificamente, pelo terrorismo de
hoje. Chamo-lhes a atenção para isto, porque tenho certeza
de que, se se aperceberem da responsabilidade que lhes cabe,
agirão com justiça e saberão admiti-la e assumi-la.

Sem o apoio oficial dos EUA ao Lar Nacional preconizado
por Lorde Balfour, as colônias sionistas seriam
impossíveis na Palestina, como seria impossível qualquer
empreitada deste tipo e nesta escala, sem o dinheiro
norte-americano. Este dinheiro é resultado da
contribuição dos judeus norte-americanos, num esforço
pleno de ideais, para ajudar outros judeus.

O motivo foi digno: o resultado foi desastroso. As
contribuições foram oferecidas por indivíduos, entidades
privadas, mas foram praticamente, na totalidade,
contribuições de norte-americanos, e, como nação, só os
EUA podem responder por elas.

A catástrofe que estamos vivendo pode ser deposta inteira,
ou quase inteira, à porta de suas casas. Só o governo
norte-americano, voz quase única em todo o mundo, insiste
que a Palestina admita mais 100 mil judeus - depois dos
quais incontáveis outros virão. Isto terá as mais
gravíssimas conseqüências e gerará caos e sangue como
jamais houve na Palestina.

Quem clama por esta catástrofe - voz quase única no
mundo - são a imprensa dos EUA e os líderes políticos
dos EUA. É o dinheiro dos EUA, quase exclusivamente, que
aluga ou compra os "navios de refugiados" que
zarpam ilegalmente para a Palestina: as tripulações são
pagas com dinheiro dos EUA. A imigração ilegal da Europa
é montada pela Agência Judeus Americanos, que é mantida
quase exclusivamente por fundos norte-americanos. São
dólares norte-americanos que mantêm os terroristas, que
compram as balas e as pistolas que matam soldados ingleses
- aliados dos EUA - e cidadãos árabes - amigos dos
EUA.

Surpreendeu-nos muito, no mundo árabe, saber que os
norte-americanos admitem que se publiquem abertamente nos
jornais anúncios à procura de dinheiro para financiar
aqueles terroristas, para armá-los aberta e deliberadamente
para assassinarem árabes. Não acreditamos que realmente
estivesse acontecendo no mundo moderno. Agora, somos
obrigados a acreditar: já vimos estes anúncios com nossos
próprios olhos.

Falo sobre tudo isto, porque só a franqueza mais completa
pode ser-nos útil. A crise é grave demais para que nos
deixemos deter por alguma polidez vaga, que nada significa.

Tenho a mais completa confiança na integridade de
consciência e na generosidade do povo norte-americano.
Nós, árabes, não lhes pedimos qualquer favor. Pedimos
apenas que ouçam, para conhecer a verdade inteira, não
apenas metade dela. Pedimos apenas que, ao julgarem a
questão palestina, ponham-se, todos, no lugar em que
estamos, nós, os palestinos.

Que resposta dariam os norte-americanos, se alguma agência
estrangeira lhes dissesse que teriam de aceitar nos EUA
muitos milhões de estrangeiros - em número bastante para
dominar seu país - meramente porque eles insistem em vir
para os EUA e porque seus ancestrais viveram aqui há 2.000
anos?

Nossa resposta é a mesma.

E o que farão os norte-americanos se, apesar de terem-se
recusado a receber esta invasão, uma agência estrangeira
começar a empurrá-los para dentro dos EUA?

Nossa resposta será a mesma.

Um comentário:

Quem sou eu

Minha foto
Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.