domingo, 9 de novembro de 2008

Como blindar um bilionário. A cautela de Obama

Mauro Santayana
JORNAL DO BRASIL 9 DE NOVEMB RO DE 2008
Quando o banqueiro Daniel Dantas foi ouvido por uma das tantas comissões parlamentares de inquérito transformadas em espetáculos de televisão, estranhamos, neste mesmo espaço, a reverência com que a ele se dirigiam. Os parlamentares procediam como se se tratasse de figura venerável, e não de homem de negócios pelo menos controvertidos. Quando a Polícia Federal, no cumprimento de seu dever, o prendeu, o mundo quase desabou, tal como ocorrera no episódio da batida de fiscais da Receita contra a Daslu. Era inadmissível que o mago das finanças fosse tratado como um suspeito qualquer.
Livre da prisão pela agilidade do STF, o banqueiro se sente agora à vontade. Ninguém o incomoda – mas são perseguidos aqueles que, no cumprimento da lei, o processaram. Inverte-se a situação. Hoje, o delegado que o prendeu está sob investigação, e sua casa é invadida. Noticia-se que a cúpula do Poder Judiciário prepara medidas contra o juiz que determinara a prisão temporária do banqueiro.
Parece improvável que o juiz e o delegado tenham cometido erros formais durante o processo contra Dantas. Esses erros são costumeiros e comuns, quando se trata de suspeitos pobres. Há centenas de prisioneiros nas penitenciárias brasileiras por arbitrariedade da polícia e descaso da Justiça, isso sem falar no rigor das sentenças, quando se trata do povão. Nesse caso, os erros formais não constituem escândalo, quando são cometidos. Quando se cometem contra os poderosos, a reação é outra. Eles podem pagar bons advogados. Podem encontrar aliados nos meios de comunicação e obstruir a Justiça.
Estamos andando na contramão da atualidade. Diante da evidência de que os operadores do sistema financeiro mundial, a partir de Wall Street, atuaram criminosamente, deveríamos estar, aqui, investigando com mais profundidade os banqueiros especuladores. Não há grupo que mereça mais atenção do que o Opportunity, cuja atuação, mediante a ficção dos paraísos fiscais, é conhecida e proclamada. É hora de que se conheça o conteúdo dos computadores do banqueiro.
Já que estamos no assunto, é evidente a vantagem de um sistema bancário privado fundado em numerosos bancos médios e pequenos sobre a concentração em poucas instituições. Eles demonstram ser instrumentos mais adequados ao financiamento das atividades econômicas. Foi essa distribuição regional dos institutos de crédito, realizada a partir da crise bancária provocada pelo fechamento do Segundo Banco dos Estados Unidos, durante o governo Jackson, que estimulou a ocupação do Oeste e seu desenvolvimento econômico. No Brasil, até há poucas décadas, eram os bancos regionais – muitos deles municipais – que ofereciam crédito às atividades produtoras, além das instituições estatais. A concentração, com o surgimento de grandes organizações privadas, se iniciou durante os governos militares. Essa política não impediu a falência de várias delas, com o prejuízo dos depositantes e dos cofres públicos. Por outro lado, os grandes bancos estaduais foram compelidos à privatização durante o despotismo manhoso dos tucanos, que, inebriados pelo neoliberalismo – essa aventura de gângsters de Wall Street – destruíram o pacto federativo e entregaram a economia aos estrangeiros e seus sócios nacionais.
Estamos assistindo, nestes dias, ao louvamento da fusão entre dois grandes bancos privados nacionais. Se essa fusão se der – o que depende ainda das autoridades competentes – ela será importante e conveniente para as famílias controladoras, mas não é certo que sirva ao interesse nacional. Para a democracia, quanto mais distribuído for o poder econômico, melhor. Seria bom para o país que o governo, impelido pela necessidade de dar resposta à crise, promovesse o ressurgimento de bancos regionais, com mais conhecimento e sensibilidade a fim de atender à demanda de crédito das pequenas e médias empresas.
Em seu primeiro e breve encontro com os jornalistas, o presidente Barack Obama foi cauteloso. Disse, como era de se esperar, que cada presidente tem seu mandato, e não poderia opinar sobre determinados assuntos antes de assumir o cargo. Ao falar sobre o Irã, manteve a mesma postura imperial da política externa, ao vetar o direito de os iranianos desenvolverem seus projetos nucleares. Esta é uma das dificuldades do novo presidente. Com seu nome e a cor da pele, terá que caminhar sobre o fio da navalha nas questões com os países muçulmanos.
Domingo, 09 de Novembro de 2008 - 02:00

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.