sexta-feira, 11 de maio de 2007

O PAPA, A RELIGIÃO E A SOBERANIA NACIONAL

PEDRO PORFÍRIO
coluna@pedroporfirio.com
Uma visita sob o signo da intolerância
"Se as pessoas são boas só por temerem o castigo e almejarem uma recompensa, então realmente somos um grupo muito desprezível".
Albert Einstein, físico alemão (1879-1955)
O que o chefe da Igreja Católica, Apostólica e Romana veio fazer no Brasil? Papa desde 19 de abril de 2005, depois de dirigir a Congregação para a Doutrina da Fé (sucessora dos tribunais da inquisição), o cardeal alemão Joseph Ratzinger chegou com a síndrome da maldição numa hora em que se espera uma palavra de paz e se reclama o mínimo de transigência e o máximo de diálogo da parte de todos.
Já ao chegar, não fez por menos. Ameaçou com a excomunhão a todos os que divergirem da posição do Vaticano sobre a interrupção da gravidez. A excomunhão é parte do entulho inquisitorial que podia significar a ruína dos cristãos naqueles idos em que o Vaticano exercia todos os poderes sobre o mundo ocidental.
Por que o Papa Bento XVI recorre agora ao anátema, numa intervenção indevida sobre uma discussão que mal começa a se travar no interior de uma nação soberana, de Estado laico e com uma problemática social visível?
Chefe do Estado do Vaticano, o Papa não pode perder de vista que sua palavra não tem imunidade transnacional, em que pese a chefia absoluta da religião católica.
Ele pode afirmar os valores que sustentam a filiação religiosa, segundo os estatutos de sua igreja. Pode até repassar sobre sua estrutura clerical as ordens de comando, segundo os dogmas da infalibilidade que blindam seu trono.
No velho regime político da Igreja Católica, seus bispos, cardeais e demais autoridades em todos os países são nomeados por uma espécie de monarca todo poderoso. É da tradição e não me cabe aqui questioná-la, até porque não freqüento seus ofícios.
Sobre esses representantes do Vaticano, pode o Papa impor sua lei. Afinal, ninguém é obrigado a ser padre, freira ou fiel. Quem o é provavelmente sabe da sobrevivência dessa autoridade incontestável, por ser o “santo padre” ou o sumo pontífice.
Daí a entrar numa polêmica que exige o máximo de responsabilidade com o chicote do castigo vai uma grande distância.
Os costumes são outros
Desde 1950, a igreja católica vem experimentando um declínio entre seus adeptos em todo o mundo. No Brasil, não consegue sequer impor sua disciplina a uma população que ainda é majoritariamente católica. Algumas de suas exigências já não são levadas a sério: aí estão os milhares de divórcios, a vida sexual antes do casamento, as paradas maciças do orgulho gay e a ausência aos cultos litúrgicos obrigatórios segundo seus regulamentos.
Ao longo desse processo de migração de católicos para denominações evangélicas e até mesmo para o desinteresse em relação aos cultos organizados, a Igreja não soube produzir nada que alcançasse algum tipo de resgate.
Faltou ao clero, sob controle do Vaticano, dar continuidade às reflexões do Concílio Vaticano II e aos avanços promovidos no pontificado de João XXIII.
Quando mudou a liturgia da missa, rezando-a em idioma local de frente para os fiéis, a Igreja católica deu um pequeno passo para assimilar o respeito às características de cada povo. Embora seja mais tolerante em relação aos seus clérigos do Oriente, O Vaticano continua querendo ser o único centro do pensamento católico.
Até hoje, tudo gira em função de suas bulas papais e de suas encíclicas. A inserção de dioceses ou prelazias na discussão livre dos problemas concretos dos cidadãos ainda é pontual ou temporária.
Isso leva a um isolamento de fato, a uma relação simbólica entre a Igreja e os fiéis. Nessa questão do aborto, na resistência ao uso de embriões humanos para salvar vidas e curar doenças, a Igreja corre o risco de submeter-se a uma farsa: o mesmo católico que se diz contra o aborto nada faz contra sua prática na ilegalidade, com suas conseqüências fatais sobre as mães desesperadas.
Mais grave, porém, é que o Vaticano opõe-se a qualquer método anticoncepcional que não seja a abstinência. Com isso, torna-se o maior aliado do aborto em países como o Brasil, onde 67% das mulheres desconhecem qualquer método preventivo.
Em nome de seus dogmas obsoletos, que ninguém leva a sério, imagina tolher a vida sexual natural e não admite sequer que nem os casais de papel passado usem contraceptivos, quando qualquer um sabe que a vida conjugal se torna impraticável à falta do prazer de uma relação.
Homicidas poupados
Quando o Papa vem a um país reafirmar a mais absoluta intolerância diante da autonomia do corpo, que nada tem em relação às questões da fé, ele demonstra um estado de desespero de todo o clero e prenuncia até mesmo a possibilidade de uma mudança latente entre seus adeptos.
É como se estivessem recorrendo a um tiro de canhão para matar uma formiga. O Papa não existe para servir de policial das exigências morais que não se fundam nos próprios valores do bem.
Faria muito melhor Bento XVI se falasse às almas daqueles que praticam crimes perversos, roubam, corrompem ou se corrompem. O Papa ameaça excomungar quem defende o aborto de um embrião – mas não promete o mesmo “castigo” para os que roubam vidas humanas de adultos e crianças ou produzem as condições que forjam esse clima de injustiças e exploração, pai dos atos de perversidade que a sociedade já não agüenta mais.
A impressão que Bento XVI passou à sua chegada é que veio a fim de incrementar mais polêmica, mais brigas, para desconforto dos que estão responsavelmente preocupados com o caos social decorrente da explosão demográfica.
Por tal intransigência, a Igreja Católica perdeu sua mística na Europa, onde o aborto é legal e as relações entre parceiros do mesmo sexo já são oficiais em países como a Espanha, de tradição religiosa inquestionável e onde muitos mosteiros viraram hotéis e atrações turísticas.
O pior que se pode fazer à figura de um chefe de uma religião de penetração em centenas de países é transformá-lo em agente de ameaças exóticas e despropositadas.
No Brasil, queremos sim, no mínimo, discutir com liberdade assuntos que nos dizem respeito, enquanto sociedade soberana. Tentar transformar em religiosa uma questão de saúde pública, valendo-se do seu cajado, é uma atitude inábil, intolerante e intolerável. Não é da missão de um visitante, mesmo sendo o Papa.

Um comentário:

  1. Eduardo Lima9:31 PM

    Temos de dar um basta na Homofobia...

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.