domingo, 28 de janeiro de 2007

SEGURANÇA PARA ALÉM DA FÓRMULA PSICANALÍTICA

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"Arrisque-se! Toda vida é um risco. O homem que vai mais longe é geralmente aquele que está disposto a fazer e a ousar. O barco da 'segurança' nunca vai muito além da margemDale Carnegie, jornalista e escritor norte-americano (1888-1955"


O faz de conta é o quevale numa sociedade impregnada de hipocrisias, sob a égide do me engana que eugosto.Não falo isso por amargura; falo porque é preciso.
Porque essetratamento feérico dispensado à questão da segurança, em particular neste Estadodo Rio de tantas torpezas, faz lembrar a piada do psicanalista: ele não curouos desarranjos intestinais do paciente desesperado, mas, em compensação,ensinou-lhe a conviver com suas manifestações.
Aqui nestetorrão aplica-se o mais novo achado da modernidade: a sensação de segurança. Acoisa continua feia e vai continuar, porque, como disse o menino no documentário“Falcões”, cai um bandidinho, dez avançam na fila.
Mas oespetáculo de providências circenses faz o gosto da urbe assustada. O governadoré do ramo. Cresceu politicamente fazendo os velhinhos dançarem como se moçosfossem. Operou sobre o existencial e se deu bem.
A Coragem das farsas
E agora exibeà distinta platéia a coragem das farsas. O charme é a chamada Força Nacional deSegurança, o fim da picada. Trazem policiais alienígenas a R$ 120,00 por dia,quatro vezes mais do que pagam aos da casa.
Eles metem carvão no rosto, vestem uniformes de guerra, dão passos de gansos, mas e daí, edaí? Na quarta-feira, numa manhã de sol, meu amigo levou um tiro, perdeu um rime ainda está no CTI por conta de um assalto numa quieta pracinha de VistaAlegre. Ele era apenas um transeunte, onde crianças brincavam por conta dasférias que já estão indo. Agora, pelo resto da vida, será apenas umsobrevivente.
Essa cena foiapenas o repeteco de um cotidiano de quem vive perigosamente só por transitarnuma grande metrópole. E não há sinais de que qualquer coisa vá mudar por conta da sensação de segurança vendida como produto de festa pelo triângulo do podere por uma mídia de calças curtas.
É o bicho.Todos sabem o óbvio, mas todos o detestam como medicação matreira. O chefe depolícia que saiu, com mais de 100 mil votos no balaio, está pronto para assumira imunidade plena do Parlamento, onde já pululam espécimes semelhantes.
Mas sua tropade choque, especializada em venda de impunidade, está presa, até a hora em queum juiz for forçado, pela belesura da vigente legislação a abrir-lhes o xadrez.Se é que isso não aconteceu no mais discreto ritual.
Soltos,poderão recuperar as estrelas e, quem sabe, os controles, se não, como é moda,assumirão mais uma franquia do crime organizado sob forma de milíciasdominadoras, que, sob o pretexto de espantar a droga, tomam conta do pedaço,estabelecem um imposto paralelo e ainda seqüestram sem constrangimento osdireitos políticos da plebe indefesa.
Nesses ogovernador não vai tocar, até porque trocou figurinhas com vários dos seus“cabeças”, alguns, inclusive, postulantes de cargos parlamentares na santaaliança vencedora.
Para esses,vale a equação: quanto mais violência na cidade, mais serão valorizados comopoder paralelo no comércio do outrora sagrado direito à segurança.
Se correr, o bicho pega
Aí ficamostodos lembrando o dilema atroz: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.
Resultado:existem mais de 100 mil seguranças particulares no Estado do Rio, o dobro doefetivo da Polícia Militar. E entre eles, pelo menos um terço são ou forampoliciais, valendo-se dessa condição para vender o direito ao porte de arma.
Isso é o quêsenão uma perversa inversão de valores? Ganhando merrecas (não sei se mudariamse ganhassem mais) os policiais são presas fáceis de todo tipo de corrupção.Numa única investida, mais de 412 PMs de 106 patrulhas apareceram nos “gibis”dos caça-níqueis e traficantes.
Vocêpode acreditar em qualquer coisa que não comece pela arrumação da casa?Chamar forasteiros, que não sabem onde pisar, dá holofotes da mídia e ofereceaos menos atentos a “sensação de segurança” recomendada pela psicanálise, masdaí imaginar algo parecido com proteção aos cidadãos é desonesta manipulação deparanóias.
A bem da puraverdade, Sérgio Cabral ouviu o galo cantar, mas não sabe aonde. Com medo dasombra daquele que o fez candidato e lhe ofereceu o escudo da máquina do Estado,contrariando seu discurso de campanha, sob inspiração da Bené, a rainha dodespreparo, mandou cortar o cheque-cidadão de forma sumária.
Esse chequenão era flor que se cheire, mas também é o mesmo que os programas compensatóriosdo governo petista, como era nos tempos de FHC e de todos esses que seguempiamente a orientação do “Consenso de Washington”, do “Diálogo Interamericano” edo inescrupuloso FMI.
Na medida queage bruscamente na extinção de um hábito de 8 anos, você acaba botando os péspelas mãos. Nas favelas e comunidades carentes, isso é glicerina pura. Nãofaltará traficante para dar uma mãozinha aos despossuídos.
E não foi sóisso, não. Em algumas comunidades pobres, como o Jacarezinho, de 60 milhabitantes, fecharam as “Casas da Paz” um projeto que tinha tudo para dar certo.
Curioso: nãomexeram com os condomínios favorecidos por taxas subsidiadas de água, que foramfontes inesgotáveis de votos para o conhecido Eduardo Cunha, outrora (?) marquêsda CEDAE. Condomínios com piscina, e outros confortos, tomados de carrosparticulares, pagam meia pataca pela água em nome de programas sociais dearaque.
Pode-se falarem segurança para todos com essas mixórdias? Se o governo fosse realmentedeterminado, enfrentaria o caos com a ajuda da população. Numa cidade em quetodo mundo usa celular e que boa parte dos assaltos e delitos vários sãopraticados à luz do dia, não faltaria quem colaborasse.
Mas colaborarcomo? Um morador de Anchieta cuja comunidade foi “conquistada” por um braço das“milícias”, polícias mineiras, como são conhecidas, queixou-se:
- Antes,tínhamos como denunciar, no sapatinho. Agora, ninguém é doido para se queixar àpolícia dos seus próprios colegas.
Houve umtempo, em algum lugar que não conheço, que a segurança foi tratada como coisaséria e os cidadãos podiam transitar lépidos e fagueiros de um lado para outro.Hoje, porém, nesses tempos em que a televisão nos monitora, temos que nosconformar com a canhestra “sensação de segurança”.
Meus Deus!
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2 comentários:

Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.