domingo, 3 de dezembro de 2006

A PARTIR DE HOJE, A VENEZUELA NÃO SERÁ A MESMA


Taxista Zúlia Morales, com seu carro velho de guerra, espera dias melhores com a reeleição de Hugo Chávez

"Vamos aprofundar a revolução e radicalizá-la. Iremos às raízes, assentar uma Venezuela nova, na democracia".
Higo Chávez, em entrevista à CNN norte-americana

Caracas – A partir de hoje, a Venezuela não será a mesma. Para bem o bem o para o mal, não há como deixar como está para ver como é que fica. Só um terremoto impedirá o início de uma nova fase nesta terra bolivariana. E o tempo está sublime soprando uma brisa de frenética esperança.
(Foi um terremoto na quinta-feira santa de 1812, com a morte de 10 mil venezuelanos, que os espanhóis e a Igreja colonialista usaram para jogar o povo contra a declaração de independência, assinada por quase todos os congressistas em 5 de julho de 1811, sob pressão da Sociedade Patriótica. O bispo de Caracas chegou a afirmar que o sismo era um castigo de Deus).
Quando você estiver lendo estas mal traçadas linhas, escritas na madrugada de domingo, a “sorte estará lançada”. Este país de 26 milhões de habitantes, que registrou um crescimento três vezes maior do que o do Brasil (10,2% este ano) terá tido o maior comparecimento às urnas (aqui o voto não é obrigatório).
No sábado, já senti no ar o desespero das elites, que não sabem onde meter a cabeça e já se dizem “vítimas de fraude” e perseguidos. Para o público externo e para os desavisados, dizem que não podem sequer declarar o voto, com medo de represália. E muita gente embarcou nessa lamúria de encomenda.
Urnas transparentes
Que represália seria essa se todas as estações privadas de televisão e 90% dos jornais (inclusive os maiores do país) fizeram campanha escancarada para o governador de Zúlia, Manoel Rosáles, candidato de 20 partidos oposicionistas, dos antigos rivais AD e COPEI até o canhestro “Movimento Ao Socialismo” do ex-esquerdista e ex-guerrilheiro Teodoro Petkoff? E que distribuiu uma “tarjeta negra”, garantindo que ela dará direito a 20% da renda do petróleo, a ser dividida entre os venezuelanos pobres, que têm em Chávez uma espécie de “pai apaixonado”?”.
Fraude? Como? Ao contrário do Brasil, a urna eletrônica não é a dona intocável da verdade. Aqui, o voto é impresso, depois de digitado. O eleitor confere e põe numa urna comum para eventual conferência. Para evitar que um eleitor vote mais de uma vez, ele põe o dedo na máquina “captahuellas”, e sua impressão digital vai para o computador central, como os votos, transmitidos diretamente sem disquetes. Não é de dar inveja?
Mesmo assim, por pressão dos Estados Unidos, há mais de mil “observadores internacionais”, da OEA (60) à União Européia (130). Além disso, estão credenciadas pequenas delegações do Centro Carter e do Mercosul. Três organizações venezuelanas também estão mobilizadas para acompanhar o processo eleitoral, com cerca de 800 observadores. A UE destacou dois especialistas em voto automatizado para revisarem todo o processo.
Para garantir a confiabilidade dos resultados, o Conselho Nacional Eleitoral, uma vez encerrada a votação, programou a abertura de 55% das urnas onde estão os votos de papel, numa inédita checagem preventiva do voto eletrônico.
No desespero, os adversários de Chávez trabalharam um “desabastecimento”, aproveitando os cartões de crédito para comprar ao máximo nos supermercados. Os atacadistas, principalmente os importadores, adiaram suas entregas ao comércio varejista. Mesmo assim, fui a dois supermercados – “Cada” e “Eldorado” e vi que havia tranqüilidade no sábado, dia 2.
Crescimeto récorde
Nessa “inspeção” nas galerias do Parque de la Ciudad, deparei-me com algo que há muito não via: avisos nas portas de lojas oferecendo empregos. Não é para menos, como revela essa notícia distribuída pela France Press:
A economia venezuelana registra doze trimestres consecutivos de alto crescimento do PIB.
O aumento do PIB no terceiro trimestre de 2006 foi beneficiado pelo desempenho do setor privado, cujas atividades cresceram 12,3%, e do setor público, que registrou alta de 2,7%, indicou o Banco Central.
A atividade pública relacionada ao petróleo avançou 0,9% no terceiro trimestre deste ano. Já a atividade privada recuou 11,4%, devido, sobretudo, a trabalhos de manutenção de instalações.
Nos demais ramos de atividade, os que mais cresceram foram o da construção (35,1%), comunicações (22,2%), comércio (19,4%), a indústria manufatureira (10,1%), e os fornecedores de serviços ao governo (4%).
O PIB da Venezuela cresceu 9,3% em 2005, após ter alcançado um aumento histórico de 17,3% em 2004, depois da queda para 9,2% em 2003, que o governo atribui a uma greve patronal da oposição de dois meses, entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003, que quebrou a indústria de petróleo do país.
O curioso é que quanto mais a imprensa tenta assustar os venezuelanos, mais Hugo Chávez a desafia. Diante da massiva propaganda apontando-o como um “castro-comunista”, o coronel bolivariano responde dedicando sua possível vitória a Fidel Castro.
Sobre sua vontade de permanecer mais tempo no poder, depois da reeleição, ele já tornou público que proporá uma revisão constitucional acabando com o dispositivo que limita a dois mandatos.
E mais: aqui, sob sua inspiração, a Constituição não pode sofrer uma só emenda sem que a mesma, uma vez aprovada no Congresso, seja submetida a um referendo popular. Quem já viu mais de 50 emendas na Constituição brasileira, em sua maioria aprovadas por “mensaleiros” e compradas a “peso de ouro” tem motivos de sobra para invejar a carta bolivariana. Qualquer emenda, o povo tem de referendar, viu?
E você ainda fala de ditadura na Venezuela? Dá pena receber e-mails de alguns leitores com agressões ao coronel que uniu as Forças Armadas ao povo, teve peito de enfrentar seu maior cliente de petróleo, os EUA, incrementou um sólido processo de integração com as nações irmãs e está fazendo proveitosos acordos comerciais e de transferência de tecnologia com países como o Brasil, Rússia, China, Irã e Argentina.
Bom. Não me parece nada trágico escrever e véspera para ser lido depois. Porque na minha idade é difícil não ver o óbvio: A Venezuela não será a mesma ate porque, como me observou o ex-guerrilheiro Douglas Bravo (a quem entrevistei sábado – ele não votará em ninguém) a massa chavista tende a abrir caminho e tornar inevitável essa nova Venezuela que está nascendo hoje.
coluna@pedroporfirio.com

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.