quarta-feira, 29 de novembro de 2006

OS MISTÉRIOS DA VENEZUELA

MINHA COLUNA NA TRIBUNA DA IMPRENSA DE 27 DE NOVEMBRO DE 2006



http://www.tribuna.inf.br/porfirio.asp

Fotos do jornal PANORAMA, de Maracaibo




“Tudo o que vai acontecer sob o sol tem sua hora e esta é a hora da Revolução. No há espaço na Venezuela para nenhum outro projeto que não seja a Revolução Bolivariana. Esta é a hora do povo bolivariano, do renascer”

Hugo Chávez, falando ontem a dois milhões de venezuelanos



Ao ver as casas indígenas erguidas sobre palafitas no lago Maracaibo, o florentino Américo Vespúcio, que acompanhou Cristóvão Colombo ao novo mundo, tratou de batizar de Venezuela as primeiras terras continentais tocadas aqui pelos conquistadores. Para ele, estavam todos numa pequena Veneza.

Cinco séculos depois, estou indo ao encontro dos caribenhos com o firme propósito de “descobrir” alguns mistérios da nova Venezuela. É que no próximo domingo, haverá uma nova eleição presidencial e essa é a melhor oportunidade de encontrar o povo ligado e, eventualmente, mais propício a botar seus segredos cívicos à mostra.

Não sei se vou conseguir ir realmente aos recônditos da alma venezuelana, tão impregnada de emblemas patrióticos. Não me considero um “leigo” no país de Bolívar, Miranda e Sucre, onde o pernambucano Abreu e Lima é mais respeitado do que aqui, por sua participação nos sangrentos combates pela libertação da América espanhola e por suas idéias socialistas, que tanto influenciaram a nossa Revolução Praieira de 1848.

Mas sinto à distância que o corpo funcional da Venezuela não está tão motivado para os acontecimentos de repercussão mundial quanto os pobres apaixonados pelo projeto bolivariano. O primeiro sintoma disso é o desinteresse dos diplomatas e funcionários da embaixada venezuelana em Brasília.

Provavelmente, diferentes de boa parte dos diplomatas brasileiros, com os quais contei numa arriscada viagem ao Oriente Médio em 2002, eles não devem estar muito satisfeitos com um governo que se dedica a uma espécie de revolução dentro da legalidade e que, até esta data, reúne a grande maioria das preferências do eleitorado.



O projeto bolivariano



Minha sorte é que, antes de mim, um jovem jornalista brasileiro, que está há quatro anos na Europa e trabalhou na Rádio Vaticano, já desbravou uma boa parte do caminho em Caracas e, pelo companheirismo que estabelecemos a partir desta coluna, será um precioso aliado.

Wellington Mesquita, que terá seu primeiro livro publicado no Brasil, no início do próximo ano, falando dos bastidores da sucessão no Vaticano, viajou para Caracas no meio do ano e está reunindo ele próprio, junto com a esposa, elementos políticos sociológicos para melhor compreender o processo venezuelano.

Porque se há um país sobre o qual a imprensa colonialista tem difundido mentiras sistemáticas, esse país é a Venezuela do presidente Hugo Chávez, um carismático coronel da reserva, vez por outra apresentado aos leitores indefesos daqui como ditador, embora seja ele a mais provada expressão da vontade popular.

Aos 52 anos de idade, Hugo Chávez está no poder depois de obter esmagadoras vitórias eleitorais, incluindo um referendo realizado em 2004, porque a Constituição bolivariana que ele inspirou é a única num regime presidencialista que sujeita os eleitos a confirmação no meio do mandato, desde que essa seja a vontade de parte dos eleitores.

Aliás, não precisa ir até lá para saber do zelo constitucional pelas liberdades públicas. A grande mídia diz o que quer, faz propaganda contra e pinta e borda, embora tenha sido a grande alavanca da tentativa de golpe de 11 de abril de 2002.

Se você tem dúvida, é só acessar pela Internet os jornais e canais de televisão da Venezuela. Há uma grande diversidade de partidos, governadores adversários de Chávez e toda uma orquestração para derrotá-lo no dia 3 de dezembro.

Nesse complô, a elite conseguiu cooptar inclusive alguns setores que se diziam de esquerda e só deixaram cair as máscaras a partir do frustrado golpe de 2002. Para tentar enfrentar a popularidade de Chávez, essa elite obteve a desistência de candidatos de todos os matizes, concentrando o apoio ao governador de Zúlia, Manoel Rosales, que tinha até ontem 27% das pesquisas, contra 59% conferidos a Chavez (A partir de hoje não poderão mais divulgar pesquisas eleitorais dentro da Venezuela).



Por que temem Chávez



Mas por que a grande imprensa tenta satanizar o presidente da Venezuela? Ao contrário do que você possa imaginar, Hugo Chávez tem mantido suas relações com o “mercado” e os Estados Unidos no plano da mais absoluta prudência.

Embora promova uma “revolução” pela concentração de recursos em grandes projetos sociais, incluindo a educação e a saúde, o modelo permanece intocado em suas colunas principais.

Em nenhum momento, até hoje, que eu saiba, Chávez se insurgiu contra a dívida externa, cujos juros paga rigorosamente em dia, embora ela tenha sido absolutamente inchada em 1973, num período em que a Venezuela usufruía da decisão da OPEP de aumentar os preços do petróleo, cujo barril subiu de U$ 3,00 para U$ 14,00.

São regulares, igualmente, as exportações de petróleo venezuelano para os Estados Unidos e o sistema financeiro funciona segundo as mesmas facilidades adotadas aqui no Brasil.

Após o golpe de 2002, Chávez deu um tratamento surpreendente aos generais e almirantes que tentaram derrubá-lo. Muitos deles sequer foram levados a julgamento e o próprio general Lucas Rincón, que havia comunicado ao país a “renúncia” do presidente, acabou sendo nomeado ministro da Defesa, porque Chávez se convenceu que ele foi vítima de informações manipuladas.

O grande problema, me parece, é que Chávez reacendeu a flama bolivariana em toda a população venezuelano, especialmente entre os militares jovens e os segmentos mais pobres da população.

E esse bolivarianismo é fundado no sonho da integração latino-americana, algo que realmente assusta os grandes interesses imperialistas. Alcançar cerne desse projeto é que me faz cruzar os céus da Amazônia e ir até lá.



A próxima coluna (sexta-feira) já será escrita de Caracas. Mas antes, se tiver informações importantes, você poderá ficar sabendo pelo meu blog http://porfiriourgente.blogspot.com

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Quem sou eu

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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.