domingo, 3 de dezembro de 2006

URNAS ELETRÔNICAS DA VENEZUELA IMPRIMEM O VOTO









Nunca vi eleições tão cercadas de cuidados contra fraude. Está provado que o VOTO PODE SER IMPRESSO PARA EVENTUAL QUESTIONAMENTO.
O processo é o seguinte:

1.Antes de ir para a mesa receptora, o eleitor passa pela baterias de lap tops, onde armazena suas digitais. Aí já apresenta sua carteira de identidade.

2. Na seção, identifica-se novamente e assina a folha de votação.

3. Ato contínuo, vai até a urna eletrônica. Depois que vota, a urna emite um comprovante do seu voto.

4. Ele confere e em seguida o deposita em uma urna comum (caixas de papelão lacradas)

4. Aí, põe o dedo midin numa tinta azul, que durante 24 horas é irremovível. Marcado, ele não tem como votar de novo.

5. Ao final do dia, o presidente da seção retira o chip não regravável, cujos dados podem ser repassados por telefone (inclusive celular) para a Central de Apuração do CONSELHO NACIONAL ELEITORAL

A PARTIR DE HOJE, A VENEZUELA NÃO SERÁ A MESMA


Taxista Zúlia Morales, com seu carro velho de guerra, espera dias melhores com a reeleição de Hugo Chávez

"Vamos aprofundar a revolução e radicalizá-la. Iremos às raízes, assentar uma Venezuela nova, na democracia".
Higo Chávez, em entrevista à CNN norte-americana

Caracas – A partir de hoje, a Venezuela não será a mesma. Para bem o bem o para o mal, não há como deixar como está para ver como é que fica. Só um terremoto impedirá o início de uma nova fase nesta terra bolivariana. E o tempo está sublime soprando uma brisa de frenética esperança.
(Foi um terremoto na quinta-feira santa de 1812, com a morte de 10 mil venezuelanos, que os espanhóis e a Igreja colonialista usaram para jogar o povo contra a declaração de independência, assinada por quase todos os congressistas em 5 de julho de 1811, sob pressão da Sociedade Patriótica. O bispo de Caracas chegou a afirmar que o sismo era um castigo de Deus).
Quando você estiver lendo estas mal traçadas linhas, escritas na madrugada de domingo, a “sorte estará lançada”. Este país de 26 milhões de habitantes, que registrou um crescimento três vezes maior do que o do Brasil (10,2% este ano) terá tido o maior comparecimento às urnas (aqui o voto não é obrigatório).
No sábado, já senti no ar o desespero das elites, que não sabem onde meter a cabeça e já se dizem “vítimas de fraude” e perseguidos. Para o público externo e para os desavisados, dizem que não podem sequer declarar o voto, com medo de represália. E muita gente embarcou nessa lamúria de encomenda.
Urnas transparentes
Que represália seria essa se todas as estações privadas de televisão e 90% dos jornais (inclusive os maiores do país) fizeram campanha escancarada para o governador de Zúlia, Manoel Rosáles, candidato de 20 partidos oposicionistas, dos antigos rivais AD e COPEI até o canhestro “Movimento Ao Socialismo” do ex-esquerdista e ex-guerrilheiro Teodoro Petkoff? E que distribuiu uma “tarjeta negra”, garantindo que ela dará direito a 20% da renda do petróleo, a ser dividida entre os venezuelanos pobres, que têm em Chávez uma espécie de “pai apaixonado”?”.
Fraude? Como? Ao contrário do Brasil, a urna eletrônica não é a dona intocável da verdade. Aqui, o voto é impresso, depois de digitado. O eleitor confere e põe numa urna comum para eventual conferência. Para evitar que um eleitor vote mais de uma vez, ele põe o dedo na máquina “captahuellas”, e sua impressão digital vai para o computador central, como os votos, transmitidos diretamente sem disquetes. Não é de dar inveja?
Mesmo assim, por pressão dos Estados Unidos, há mais de mil “observadores internacionais”, da OEA (60) à União Européia (130). Além disso, estão credenciadas pequenas delegações do Centro Carter e do Mercosul. Três organizações venezuelanas também estão mobilizadas para acompanhar o processo eleitoral, com cerca de 800 observadores. A UE destacou dois especialistas em voto automatizado para revisarem todo o processo.
Para garantir a confiabilidade dos resultados, o Conselho Nacional Eleitoral, uma vez encerrada a votação, programou a abertura de 55% das urnas onde estão os votos de papel, numa inédita checagem preventiva do voto eletrônico.
No desespero, os adversários de Chávez trabalharam um “desabastecimento”, aproveitando os cartões de crédito para comprar ao máximo nos supermercados. Os atacadistas, principalmente os importadores, adiaram suas entregas ao comércio varejista. Mesmo assim, fui a dois supermercados – “Cada” e “Eldorado” e vi que havia tranqüilidade no sábado, dia 2.
Crescimeto récorde
Nessa “inspeção” nas galerias do Parque de la Ciudad, deparei-me com algo que há muito não via: avisos nas portas de lojas oferecendo empregos. Não é para menos, como revela essa notícia distribuída pela France Press:
A economia venezuelana registra doze trimestres consecutivos de alto crescimento do PIB.
O aumento do PIB no terceiro trimestre de 2006 foi beneficiado pelo desempenho do setor privado, cujas atividades cresceram 12,3%, e do setor público, que registrou alta de 2,7%, indicou o Banco Central.
A atividade pública relacionada ao petróleo avançou 0,9% no terceiro trimestre deste ano. Já a atividade privada recuou 11,4%, devido, sobretudo, a trabalhos de manutenção de instalações.
Nos demais ramos de atividade, os que mais cresceram foram o da construção (35,1%), comunicações (22,2%), comércio (19,4%), a indústria manufatureira (10,1%), e os fornecedores de serviços ao governo (4%).
O PIB da Venezuela cresceu 9,3% em 2005, após ter alcançado um aumento histórico de 17,3% em 2004, depois da queda para 9,2% em 2003, que o governo atribui a uma greve patronal da oposição de dois meses, entre dezembro de 2002 e fevereiro de 2003, que quebrou a indústria de petróleo do país.
O curioso é que quanto mais a imprensa tenta assustar os venezuelanos, mais Hugo Chávez a desafia. Diante da massiva propaganda apontando-o como um “castro-comunista”, o coronel bolivariano responde dedicando sua possível vitória a Fidel Castro.
Sobre sua vontade de permanecer mais tempo no poder, depois da reeleição, ele já tornou público que proporá uma revisão constitucional acabando com o dispositivo que limita a dois mandatos.
E mais: aqui, sob sua inspiração, a Constituição não pode sofrer uma só emenda sem que a mesma, uma vez aprovada no Congresso, seja submetida a um referendo popular. Quem já viu mais de 50 emendas na Constituição brasileira, em sua maioria aprovadas por “mensaleiros” e compradas a “peso de ouro” tem motivos de sobra para invejar a carta bolivariana. Qualquer emenda, o povo tem de referendar, viu?
E você ainda fala de ditadura na Venezuela? Dá pena receber e-mails de alguns leitores com agressões ao coronel que uniu as Forças Armadas ao povo, teve peito de enfrentar seu maior cliente de petróleo, os EUA, incrementou um sólido processo de integração com as nações irmãs e está fazendo proveitosos acordos comerciais e de transferência de tecnologia com países como o Brasil, Rússia, China, Irã e Argentina.
Bom. Não me parece nada trágico escrever e véspera para ser lido depois. Porque na minha idade é difícil não ver o óbvio: A Venezuela não será a mesma ate porque, como me observou o ex-guerrilheiro Douglas Bravo (a quem entrevistei sábado – ele não votará em ninguém) a massa chavista tende a abrir caminho e tornar inevitável essa nova Venezuela que está nascendo hoje.
coluna@pedroporfirio.com

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

NO FRONT DA NOVA GUERRA DA VENEZUELA





Com as vitórias de Ortega, na Nicarágua e Rafael Correa, no Equador, conseguir derrotar Chávez não tem preço para o sistema internacional

MINHA COLUNA NA TRIBUNA DA IMPRENSA DE 1 DE DEZEMBRO DE 2006



http://www.tribuna.inf.br/porfirio.asp


Caracas - Uma guerra! Por enquanto de bombardeios pela televisão, rádios, jornais e grandes comícios. Por enquanto.

Eu não pensei que ia me meter no centro de um furacão. Quem vive no Brasil, quem viu agora mesmo uma eleição da cabeça aos pés não podia imaginar que aqui nestas terras petrolíferas os nervos estivessem tão à flor da pele. Um descuido e, sei não.

O curioso é que há 4 anos fracassou o mais bem estudado golpe elaborado pelos laboratórios da CIA & Cia ilimitada. E de maneira inusitada: em menos de dois dias, o povo nas ruas obrigou um grupo de militares e empresários golpistas a libertar o presidente seqüestrado.

E no entanto, como nos tempos de Juscelino no Brasil, não há um só preso político. A mesma mídia que alimentou a tentativa de ruptura legal continua dizendo cobras e lagartos do presidente e concentrando a cobertura eleitoral quase exclusivamente na campanha de Manoel Rosáles, candidato dos nostálgicos de todos os governos e da intentona fracassada.

Se esses grupos já se mordiam por causa do sucesso cada vez maior do coronel bolivariano de 52 anos, sua cólera hipertrofiou-se às nuvens com as vitórias dos sandinistas na Nicarágua e de Rafael Corrêa, jovem e brilhante, no Equador.

Para os patronos das classes dominantes na América Latina tudo está acontecendo por causa daquele que o padre Ernesto Cardenal, poeta sandinista, considera a “reencarnação” de Simon Bolívar, o herói que libertou boa parte da América, mas que não resistiu depois às ambições das oligarquias que se formaram à espreita e morreu aos 47 anos a caminho do auto-exílio.

Trata-se, então, de “cortar o inimigo pela raiz”. Todos os especialistas disponíveis no mercado integram um sofisticado comitê de “inteligência” com a sagrada missão de desconstruir Hugo Chávez, satanizado como um “castro - comunista” que “gasta” o dinheiro do petróleo ajudando a outros países vizinhos, esquecendo os venezuelanos.

Satanização pela culatra

O diabo é que dizem tantas mentiras que acabam produzindo efeitos contrários: Chavez está virando um “santo” porque a Venezuela está sendo cortada de cabo a rabo por obras de grande alcance e programas sociais sérios, em função dos quais metade de todo o orçamento nacional vem sendo destinado para educação, saúde, habitação e diversificação da produção industrial.

Por conta disso, os grandes jornais e estações de televisão começam a sentir uma perda de credibilidade que poderá lhes custar uma espécie de falência por inanição. Na Venezuela, ao contrário do Brasil, esses grandes órgãos da mídia fazem questão de exibir seu ódio a Chávez, o que levou o padre Cardenal a perceber um novo tipo de racismo por causa da pele acobreada.

Na condição de poeta, o ex-ministro de Educação do primeiro governo sandinista esteve na Venezuela e fez algumas preciosas observações:

“Os jornais cada vez se vendem menos, devido aos seus ataques a Chávez, e em conseqüência também diminuiu a publicidade que angariavam. Eles mesmos o reconhecem. Ao fim do dia, vêm-se nas ruas muitos volumes de El Nacional e El Universal por abrir, o encalhe a ser devolvido. A pergunta que o povo se coloca é quem suporta as perdas desses jornais. E quem paga os canais de televisão para dedicarem o seu precioso tempo, não a notícias nem a publicidade, mas antes a ataques políticos”.

“Para mim, vive-se uma autêntica revolução, e não se trata apenas de um líder carismático, mas sim de milhões de venezuelanos que há por detrás dele. É uma revolução distinta de todas as outras, como são distintas todas as revoluções”.

Envolvido numa agenda oficiosa, Cardenal não deve ter tido a oportunidade que tivemos eu, o colega Wellington Mesquita e sua esposa Szilvia (que faz uma pesquisa para uma universidade de Londres). Numa pequena loja do centro da cidade, uma apaixonada família que ali trabalha mostrava seu orgulho em ter participado das manifestações que garantiram a libertação de Chávez. Para Elizabeth Masqueda, o presidente é realmente o Bolívar redivivo. “Estaremos com ele quantas vezes for preciso”.

Este naturalmente não é um sentimento unânime, inclusive entre os que não são da elite. O taxista que me trouxe do aeroporto tem horror do presidente, embora, paradoxalmente, reconheça que trabalha hoje graças à sua política. “E ainda vou acabar votando por sua reeleição, porque a oposição é pior: já esteve no poder e só cuidou do seu lado”.

Um país como o nosso

O mais contraditório é que a Venezuela que eu estou revendo não parece nem um pouco com as fantasias socialistas de alguns dos partidários de Chávez ou as paranóias dos seus detratores. Não me consta que tenha nacionalizado empresas estrangeiras que, ao contrário, estão se sentindo seguras aqui. E aumentando cada vez mais (Esta semana, foi inaugurada uma montadora de carros com capitais iranianas e venezuelanos)

Os extratos sociais permanecem intocáveis e nenhum grande empresário precisou fugir para Miami. Pode ser que, com o fortalecimento da educação pública e as políticas compensatórias semeadas a partir do Plano Bolívar, de 2000, esteja sendo aberto um caminho para uma sociedade menos injusta. Há quem garanta que essa será a grande preocupação do próximo mandato de Chávez.

A sua é uma revolução essencialmente política, no sentido da politização de um povo que viveu disputas artificiais em passado recente e na busca de uma frente continental, como semeou o também coronel Gamal Abdel Nasser entre os árabes.

Como vi com meus próprios olhos o processo que levou Cuba para o socialismo, pode ser que situações parecidas se repitam aqui, com outros cenários. Lembro quando, em 1961, dois anos de fidelismo, li uma faixa próximo ao Aeroporto José Marti, assinada pelo Sindicato dos Trabalhadores na Aviação de Cuba: “Se esto es comunismo, entonces el comunismo es bueno”.

Como a indústria do anticomunismo é mais rentável do que qualquer trabalho decente, esta guerra que encontrei estará longe de acabar com os resultados da eleição presidencial de domingo: Se Chávez vencer, e não avançar realmente no questionamento do modelo econômico e se não der um chega pra lá nessa direita pro-norte-americana, estará sempre vulnerável e exposto a ventos e trovoadas de quando em vez. Se perder, a revanche, a caça às bruxas, como foi tentada em 2002, poderá levar a tantos traumas que, aí, sim, a revolução retórica se converterá num furacão de danos inimagináveis.

Em tempo: estou enviando esta coluna com antecipação de 48 horas. Na quinta-feira, último dia da campanha, Hugo Chávez dará uma coletiva à imprensa estrangeira. Se der tempo, ainda falarei a respeito antes do tão esperado 3 de dezembro.

coluna@pedroporfirio.com

OS MISTÉRIOS DA VENEZUELA

MINHA COLUNA NA TRIBUNA DA IMPRENSA DE 27 DE NOVEMBRO DE 2006



http://www.tribuna.inf.br/porfirio.asp

Fotos do jornal PANORAMA, de Maracaibo




“Tudo o que vai acontecer sob o sol tem sua hora e esta é a hora da Revolução. No há espaço na Venezuela para nenhum outro projeto que não seja a Revolução Bolivariana. Esta é a hora do povo bolivariano, do renascer”

Hugo Chávez, falando ontem a dois milhões de venezuelanos



Ao ver as casas indígenas erguidas sobre palafitas no lago Maracaibo, o florentino Américo Vespúcio, que acompanhou Cristóvão Colombo ao novo mundo, tratou de batizar de Venezuela as primeiras terras continentais tocadas aqui pelos conquistadores. Para ele, estavam todos numa pequena Veneza.

Cinco séculos depois, estou indo ao encontro dos caribenhos com o firme propósito de “descobrir” alguns mistérios da nova Venezuela. É que no próximo domingo, haverá uma nova eleição presidencial e essa é a melhor oportunidade de encontrar o povo ligado e, eventualmente, mais propício a botar seus segredos cívicos à mostra.

Não sei se vou conseguir ir realmente aos recônditos da alma venezuelana, tão impregnada de emblemas patrióticos. Não me considero um “leigo” no país de Bolívar, Miranda e Sucre, onde o pernambucano Abreu e Lima é mais respeitado do que aqui, por sua participação nos sangrentos combates pela libertação da América espanhola e por suas idéias socialistas, que tanto influenciaram a nossa Revolução Praieira de 1848.

Mas sinto à distância que o corpo funcional da Venezuela não está tão motivado para os acontecimentos de repercussão mundial quanto os pobres apaixonados pelo projeto bolivariano. O primeiro sintoma disso é o desinteresse dos diplomatas e funcionários da embaixada venezuelana em Brasília.

Provavelmente, diferentes de boa parte dos diplomatas brasileiros, com os quais contei numa arriscada viagem ao Oriente Médio em 2002, eles não devem estar muito satisfeitos com um governo que se dedica a uma espécie de revolução dentro da legalidade e que, até esta data, reúne a grande maioria das preferências do eleitorado.



O projeto bolivariano



Minha sorte é que, antes de mim, um jovem jornalista brasileiro, que está há quatro anos na Europa e trabalhou na Rádio Vaticano, já desbravou uma boa parte do caminho em Caracas e, pelo companheirismo que estabelecemos a partir desta coluna, será um precioso aliado.

Wellington Mesquita, que terá seu primeiro livro publicado no Brasil, no início do próximo ano, falando dos bastidores da sucessão no Vaticano, viajou para Caracas no meio do ano e está reunindo ele próprio, junto com a esposa, elementos políticos sociológicos para melhor compreender o processo venezuelano.

Porque se há um país sobre o qual a imprensa colonialista tem difundido mentiras sistemáticas, esse país é a Venezuela do presidente Hugo Chávez, um carismático coronel da reserva, vez por outra apresentado aos leitores indefesos daqui como ditador, embora seja ele a mais provada expressão da vontade popular.

Aos 52 anos de idade, Hugo Chávez está no poder depois de obter esmagadoras vitórias eleitorais, incluindo um referendo realizado em 2004, porque a Constituição bolivariana que ele inspirou é a única num regime presidencialista que sujeita os eleitos a confirmação no meio do mandato, desde que essa seja a vontade de parte dos eleitores.

Aliás, não precisa ir até lá para saber do zelo constitucional pelas liberdades públicas. A grande mídia diz o que quer, faz propaganda contra e pinta e borda, embora tenha sido a grande alavanca da tentativa de golpe de 11 de abril de 2002.

Se você tem dúvida, é só acessar pela Internet os jornais e canais de televisão da Venezuela. Há uma grande diversidade de partidos, governadores adversários de Chávez e toda uma orquestração para derrotá-lo no dia 3 de dezembro.

Nesse complô, a elite conseguiu cooptar inclusive alguns setores que se diziam de esquerda e só deixaram cair as máscaras a partir do frustrado golpe de 2002. Para tentar enfrentar a popularidade de Chávez, essa elite obteve a desistência de candidatos de todos os matizes, concentrando o apoio ao governador de Zúlia, Manoel Rosales, que tinha até ontem 27% das pesquisas, contra 59% conferidos a Chavez (A partir de hoje não poderão mais divulgar pesquisas eleitorais dentro da Venezuela).



Por que temem Chávez



Mas por que a grande imprensa tenta satanizar o presidente da Venezuela? Ao contrário do que você possa imaginar, Hugo Chávez tem mantido suas relações com o “mercado” e os Estados Unidos no plano da mais absoluta prudência.

Embora promova uma “revolução” pela concentração de recursos em grandes projetos sociais, incluindo a educação e a saúde, o modelo permanece intocado em suas colunas principais.

Em nenhum momento, até hoje, que eu saiba, Chávez se insurgiu contra a dívida externa, cujos juros paga rigorosamente em dia, embora ela tenha sido absolutamente inchada em 1973, num período em que a Venezuela usufruía da decisão da OPEP de aumentar os preços do petróleo, cujo barril subiu de U$ 3,00 para U$ 14,00.

São regulares, igualmente, as exportações de petróleo venezuelano para os Estados Unidos e o sistema financeiro funciona segundo as mesmas facilidades adotadas aqui no Brasil.

Após o golpe de 2002, Chávez deu um tratamento surpreendente aos generais e almirantes que tentaram derrubá-lo. Muitos deles sequer foram levados a julgamento e o próprio general Lucas Rincón, que havia comunicado ao país a “renúncia” do presidente, acabou sendo nomeado ministro da Defesa, porque Chávez se convenceu que ele foi vítima de informações manipuladas.

O grande problema, me parece, é que Chávez reacendeu a flama bolivariana em toda a população venezuelano, especialmente entre os militares jovens e os segmentos mais pobres da população.

E esse bolivarianismo é fundado no sonho da integração latino-americana, algo que realmente assusta os grandes interesses imperialistas. Alcançar cerne desse projeto é que me faz cruzar os céus da Amazônia e ir até lá.



A próxima coluna (sexta-feira) já será escrita de Caracas. Mas antes, se tiver informações importantes, você poderá ficar sabendo pelo meu blog http://porfiriourgente.blogspot.com

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quarta-feira, 15 de novembro de 2006

RAJADAS DE VIDA EM LUGAR DE RAJADAS DE MORTE

http://www.tribuna.inf.br/porfirio.asp

“Todo o corpo da história indica que as gangrenas políticas não se curam com paliativos”.

Simon Bolívar – citado por Hugo Chávez




Hugo Chávez mandou combustível barato para Nicarágua, o segundo país mais pobre da América Latina, e ajudou Daniel Ortega a derrotar os títeres das aves de rapina dos EUA, que só vêem o nosso continente como seu quintal.
"O presidente Hugo Chávez está prestes a obter mais uma vitória eleitoral na Venezuela: a sexta em oito anos. Nada mal para um político que é tachado de antidemocrático por seus adversários. Em recente pesquisa realizada pela empresa venezuelana Cifras Escenarios e publicada no diário "Panorama" o mandatário aparece com 58,8% das intenções de voto contra 22% de Manuel Rosales, principal candidato da oposição. Outras sondagens indicam uma diferença menor, mas sempre acima dos 20 pontos percentuais".

Wellington M. Mesquita, jornalista brasileiro que se deslocou de Londres para Caracas há 3 meses.




Juro que não ia escrever sobre a Venezuela. Estou fazendo as malas para ir ver com meus próprios olhos esse país que tira o sono de Bush e dos americanófilos e ousa partir para o confronto contra os pérfidos e insaciáveis interesses imperialistas na América Latina.

E vou pela VARIG, aproveitando as milhas que guardei a sete chaves, confiante de que um dia a nossa mais emblemática empresa de aviação voltará a flamejar nos ares do mundo.

Por coincidência, Caracas ainda está nas rotas internacionais da empresa, que limita seus vôos no exterior a Bogotá, Buenos Aires, Frankfurt e à capital venezuelana.

Embora não seja essa a VARIG em que eu gostaria de voar, mas aquela que o governo abandonou à própria sorte e uma estranha lei de recuperação de empresas está deixando mais de cinco mil excelentes profissionais a pão e água, a sobrevivência de sua estrela ainda me toca o coração.

Mais dias, menos dias, as autoridades deste país que vive sob o tormento do caos na aviação vão se render ao óbvio: por sua natureza, por sua história, pelo acervo profissional, o nosso contexto aéreo não pode prescindir da VARIG e dos seus experientes profissionais como sua coluna dorsal.

Mas, como eu ia dizendo, estava querendo escrever sobre um gigante chamado Roberto Requião e sobre os pigmeus que fazem jogo de cena nas soleiras de poderes que assumirão já nas embalagens artificiais preparadas pelos colegas do Duda Mendonça.

Pensei também em relembrar o 11 de novembro de 1955, quando o então ministro da Guerra, o legendário general Lott, deu um contra-golpe para garantir a posse de Juscelino e Jango, contra os quais se levantaram as elites derrotadas nas eleições de outubro, contando com uma sedição militar em que se destacou o almirante Pena Boto, chefe da Cruzada Anti-Comunista.

Sabendo de tudo

Queria mostrar a vitória legalista como uma referência fundamental sobre a natureza histórica de nossas Forças Armadas. Hoje, me parece claro que os militares brasileiros consideram a defesa da Constituição um dogma.

Isso ficou mais evidente ao deparar-me com uma entrevista que Hélio Fernandes deu para um grupo de pesquisa da UERJ, em 2002, que encontrei na busca sobre o 11 de novembro.

O depoimento de Hélio me fez parar a investigação do 11 de novembro. São 24 páginas de história, contadas com a intimidade de quem as vivenciou por dentro. Quem quer que pretenda saber do que aconteceu de importante nesses quase setenta anos de vida profissional de Hélio Fernandes terá muito que aprender, como aconteceu comigo, acessando http://www2.uerj.br/cte/download/helio_fernandes.pdf

Mas como admiti no começo destas mal traçadas linhas, estava me guardando para quando chegar a Caracas, onde estarão jornalistas do mundo inteiro. Só que também estou fazendo o que sempre me ajudou muito antes de ir atrás da notícia: estou pesquisando sobre a Venezuela, numa confortável viagem virtual pelo Google e outras ferramentas.

Através de contatos diretos pelo MSN com o jornalista brasileiro Wellington Mesquita, que há três meses se deslocou de Londres para Caracas, também vou fazendo um verdadeiro curso, prática a que me dedico como forma de reciclar meus conhecimentos, que precisam ser atualizados diariamente.

Nessa caminhada, acabei lendo duas peças essenciais para me inserir com segurança no admirável mundo novo da Venezuela: uma entrevista de Hugo Chávez dada à chilena Marta Harnecker, na qual ele fala desde o dia em que entrou para a Escola Militar, e um inteligente artigo de Wellington Mesquita, publicado aqui mesmo, na TRIBUNA.

De sua matéria, pincei esse trecho: “Apesar de toda propaganda e constantes ataques, Hugo Chávez mantém um índice de popularidade invejável que sobe paulatinamente. Isto com certeza não é o reflexo da imagem de Chávez construída pelos meios de comunicação internacionais, mas sim o resultado de um projeto sócio-econômico que tem colocado às avessas o velho modelo oligárquico venezuelano”.

E uma revelação transcendental para entender o crescimento político do povo venezuelano: “Para o desespero da oposição venezuelana, Hugo Chávez inaugurou uma nova forma de exercer o cargo aproveitando-se de sua grande capacidade comunicativa. O discurso proferido na Assembléia Geral da ONU foi uma pequena amostra daquilo que ele faz todos os dias aqui na Venezuela. Não tem discurso que o líder bolivariano não leia um trecho de um livro, indique uma obra literária e enfatize a importância da Educação. Até o dono de uma livraria de Caracas me disse que o interesse pela leitura aumentou muito depois que Chávez subiu ao poder. É comum o presidente venezuelano utilizar-se de fábulas e histórias venezuelanas para melhor explicar suas idéias à população”.

Civis e militares unidos

Já o trabalho da escritora chilena é uma obra didática profundamente honesta, até porque ela é hoje uma das mais rigorosas observadoras do cenário latino-americano. A entrevista virou um livro e pode ser encontrada na Internet em vários sites.

Alguns leitores me escreveram para falar dessa matéria, mas José Guilherme, de Joinville, fez questão de destacar um bom trecho, em que Chávez relata: “Surge assim o Plano Bolívar 2000, um plano cívico‑militar. A ordem que dei até foi: Se forem casa por casa apalpar o terreno, o inimigo, qual é? A fome. E começamos em 27 de fevereiro de 1999, dez anos depois do Caracazo,(2) como forma de reivindicar os militares. Inclusive utilizei o contraste e disse: Há 10 anos fomos massacrar este povo, agora vamos enchê-lo de amor, vão limpar o terreno, procurar a miséria, o inimigo é a morte. Vamos enchê-los de rajadas de vida, em lugar de rajadas de morte. E na verdade a resposta foi bem bonita. Enquanto nós políticos estávamos metidos no combate político, 40 mil militares estavam operando gente nos povoados pobres, extraindo hérnias, operando pernas, olhos; as maquinarias da engenharia militar abrindo caminhos; aviões militares voando para os sítios mais pobres levando passageiros e cobrando-lhes só o preço de custo”. coluna@pedroporfirio.com



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UM ALIADO DE VERDADE

"O presidente Chávez permanece em pé como a mais importante figura política que representa realmente um desafio governamental ao imperialismo norte-americano. Levou a luta contra a Alca e a invasão do Haiti; derrotou uma tentativa de golpe de Estado patrocinada pelos EUA e demonstrou que bem-estar social, nacionalismo e independência política são viáveis no Hemisfério”.
James Petras, professor aposentado do Departamento de Sociologia da Universidade de Binghamton, em Nova Iorque.

As eleições na Nicarágua, o segundo país mais pobre da América Latina, ganharam uma importância didática. Os pouco mais de 3 milhões e meio de eleitores tendiam até ontem a reconduzir à presidência, depois de 16 anos, o ex-líder guerrilheiro Daniel Ortega, ao qual se aliou justamente o homem que foi financiado e enganado pela CIA, quando os Estados Unidos patrocinaram abertamente a contra-revolução de mercenários, que quase destruiu o país de Sandino sem lograr derrubar pelas armas o governo então legitimado pelas urnas.
É curioso que dêem tamanha importância ao pleito e que ninguém se indigne com a arrogante ameaça do governo norte-americano: se Ortega vencer, proibirá os 700 mil nicaragüenses residentes nos Estados Unidos de enviar ajuda a seus parentes pobres, que totaliza U$ 650 milhões.
Monitora de muitos governos do Continente, inclusive destas plagas, a poderosa super-ong “Diálogo Interamericano” fez coro do estúpidos de Washington: "o fato de uma volta do líder sandinista ao poder é algo muito difícil de aceitar para muitas autoridades americanas” – declarou Michael Shifter, vice-presidente da dita cuja.
Hoje, os norte-americanos que mandaram incendiar a única refinaria da Nicarágua, em 1986, já não podem mais falar do “perigo soviético”. E nem mesmo da exportação da revolução cubana. Cuba está quieta, ás voltas com seus próprios desafios.
O Inimigo do Império
Em compensação, estão de saias justas porque está emergindo na terra de Bolívar uma nova liderança continental, contra a qual, aliás, os banqueiros internacionais e todo o sistema de poder hemisférico já estão jogando pesado com vistas ás eleições venezuelanas de 3 de dezembro.
Hugo Rafael Chávez Frías, hoje o inimigo público número 1 na América Latina do império decadente, está reacendendo com êxito o sonho de Simon Bolívar de uma pátria americana.
Sem prejuízo do próprio crescimento econômico do seu país, que foi quatro vezes maior do que o do Brasil em 2005, está mostrando que as relações entre nações irmãs podem ser solidariamente fraternas.
E não só países deste lado, como até mesmo os pobres dos Estados Unidos, têm se beneficiado de sua determinação de solidariedade ativa. No império decadente, que invadiu o Iraque para roubar seu petróleo e hoje está numa sinuca de bico, os pobres de vários Estados recebem combustível e gás para calefação a preços subsidiados.
Mas foi na Nicarágua enganada pelos EUA que a solidariedade da Venezuela de Chávez foi mais decisiva. Primeiro, ele ofereceu petróleo e fertilizantes ao governo central. Títere dos Estados Unidos, o governo de Manágua não aceitou.
A União de Prefeitos sandisnistas, que reune um terço dos municípios nicaraguenses resolveu aceitar a ajuda diretamente. Resultado: a situação nessas cidades mudou para melhor, ao contrário do que acontece no resto do país, ao qual os norte-americanos prometeram mundos e fundos desde a eleição de Violeta Chamorro, em 1990.
Foram precisos 16 anos para os nicaraguenses famélicos descobrirem o logro em que caíram. O império decadente do sr. Bush não está nem aí para o o quadro desesperador da Nicarágua, com 54% de desemprego e 60% da população de 5,2 milhões de pessoas vivendo na pobreza e na pobreza extrema.
Em compensação, nos últimos 4 anos, os Estados Unidos deram mais de US$ 3 bilhões de auxílio militar para o chamado Plano Colômbia, que inclui 1.500 "conselheiros" das Forças Especiais norte-americanas e todavia não só não derrotaram as FARC ("Forças Armadas Revolucionárias de Colômbia"), como, ao contrário, sofreram importantes derrotas na última ofensiva guerrilheira de 2005-2006.
Perdas no Iraque
A existência de um patriota como Hugo Chávez é hoje decisiva para ajudar os países colonizados a se libertarem do secular domínio do mais poderoso. Qualquer coisa que se diga contra ele é uma idiota repetição da propaganda de Washington que, aliás, vive seus tormentos internos e está contando com a condenação à morte de Sadann Hussein (que ninguém terá peito de executar) para reverter a repulsa do seu povo ao fracasso no Iraque, onde já morreram até ontem de 2.815 soldados norte-americanos.
Cabe aqui um esclarecimento: 70% dos norte-americanos estão hoje contra a invasão do Iraque apenas por causa das mortes dos seus. Se as tropas de Bush e Donald Rumsfeld tivessem dado um passeio (como foi prometido), apossando-se do petróleo iraquiano e assassinando milhares de iraquianos sem perder um só dos seus, o presidente estaria sendo glorificado. E os republicanos ganhariam de ponta a ponta as eleições parlamentares de amanhã.
Você vai dizer que Chávez se aproveita do petróleo. É o que diz a mídia enlatada. Aliás, você que tem tv a cabo me responda: é certo a NET exibir mais de 80 canais estrangeiros e nenhum latino-americano, nem mesmo a televisa mexicana?
Pois se você quer saber da verdade, da pura verdade, vale dar uma lida no trabalho do economista Luciano Wexell Severo, formado pela PUC de São Paulo, sob o título “Venezuela: Petróleo semeando emancipação e crescimento econômico”. Esta matéria pode ser encontrada em vários sites da Internet, inclusive no www.palanquelivre.com
Em seu texto, ele nos surpreende: “Estes sete dispositivos permitem que, apesar do forte crescimento dos preços do petróleo, desde 2004 o PIB não-petroleiro tenha crescido a taxas significativamente mais elevadas que o PIB petroleiro, evidenciando o impacto positivo dos recursos petroleiros sobre as atividades não relacionadas diretamente com o mineral. Enquanto no segundo trimestre de 1999 o PIB não-petroleiro significava 70,5% do PIB total, hoje representa 76,0%. No mesmo período, a participação do PIB petroleiro no PIB total foi reduzida de 20,1% para 14,9%”.
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Jornalista desde 1961, quando foi ser repórter da ÚLTIMA HORA, PEDRO PORFÍRIO acumulou experiências em todos os segmentos da comunicação. Trabalhou também nos jornais O DIA e CORREIO DA MANHÃ, TRIBUNA DA IMPRENSA, da qual foi seu chefe de Redação, nas revistas MANCHETE, FATOS & FOTOS, dirigiu a Central Bloch de Fotonovelas. Chefiou a Reportagem da Tv Tupi, foi redator da Radio Tupi teve programa diário na RÁDIO CARIOCA. Em propaganda, trabalhou nas agências Alton, Focus e foi gerente da Canto e Mello. Foi assessor de relações públicas da ACESITA e assessor de imprensa de várias companhias teatrais. Teatrólogo, escreveu e encenou 8 peças, no período de 1973 a 1982, tendo ganho o maior prêmio da crítica com sua comédia O BOM BURGUÊS. Escreveu e publicou 7 livros, entre os quais O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Foi coordenador das regiões administrativas da Zona Norte, presidente do Conselho de Contribuintes e, por duas vezes, Secretário Municipal de Desenvolvimento Social. Exerceu também mandatos em 4 legislaturas na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, sendo autor de leis de grande repercussão social.