sábado, 28 de janeiro de 2012

Bem que eu avisei: ou você se liberta da inércia, ou outros prédios cairão sobre sua cabeça

Se a causa da tragédia foi obra mal feita, então recorra ao capacete: outras iguais estão em curso.

“Não constam na Secretaria de Urbanismo qualquer pedido de licenciamento de obras recentes nesses imóveis, qualquer denúncia de obra irregular e ainda qualquer registro de ocorrência ligada à estabilidade e segurança das edificações”.
Da nota da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro sobre o desmoronamento de três prédios.

“Não conheço o projeto, não vi a obra e sequer sabia como a sala era antes”
Engenheiro Paulo Sérgio da Cunha Brasil, dono da Estruturar Projetos e Engenharia, responsável por um laudo sobre a obra.
Derrubei apenas as paredes de tijolos. O concreto não foi tocado”.
Alexandro da Silva Fonseca, pedreiro que escapou milagrosamente dentro do elevador.
Paulo Renha, dono de administradora de imóveis e síndico do prédio, poderia ter parado as obras, se quisesse.
Não há exagero em afirmar que, mais do que brasileiro, Deus é carioca.  Se esses três prédios da chocante tragédia da quarta-feira, 25, tivessem desmoronado três horas antes, estaríamos contando mais de um milhar de mortos. Ali no buliçoso coração da cidade há um formigueiro humano e ao cair da tarde as pessoas se esbarram na rotina de fim do expediente. É um vai-e-vem nervoso e não são poucos os que “dão um tempo” nos bares da redondeza para esperar passar o pico do trânsito.

Não há também exagero em dizer que o diabo igualmente sentou praça nestas paragens inebriantes. O que abalou a 13 de maio, entre a Cinelândia de tantos agitos e o movimentado Largo da Carioca, é o que o lugar comum proclama como tragédia anunciada aos olhos de um sistema de gestão corrompido até a medula, onde tudo pode acontecer como aborto de concepções obsoletas e o propinoduto viçoso que acomete quem tem algum mandato fiscalizador – seja agente público, seja um síndico sensível a alguns trocados.
Nesse convívio dialético entre Deus e o diabo na terra do sol as grandes urbes estão expostas inexoravelmente a hecatombes continuadas que dispensam terremotos e tsunamis.  Aqui as mãos sujas do homem propenso a tentações do caráter dispensam a fúria da natureza. Não faz muito, um restaurante foi para os ares ao nascer do dia 13 de outubro passado, na emblemática Praça Tiradentes, detonado por suas instalações irregulares de bujões de gás.
 
Nesta terra descuidada, as possibilidades de aberrações urbanas são cada vez mais frequentes
. O cenário está montado para isso: velhas edificações geminadas em cadeia são preservadas sem qualquer monitoramento e desafiam as próprias leis vigentes. Qualquer fiscal sabe que o código de posturas proíbe o funcionamento de cursos acima do terceiro andar. Mas pelas conhecidas cargas d’água uma empresa mantinha professores e alunos do sexto para cima.
Na década de 70, trabalhei no 9º andar do velho Edifício Colombo, um dos que vieram abaixo. Ali funcionava a Focus Propaganda, do saudoso Alfredo Souto de Almeida, o homem que em 1948 revelou Fernanda Montenegro, Chico Anísio e Sílvio Santos. O prédio ficava na “rua” Manoel de Carvalho,  o  beco estreito de 55 metros que ligava a Rio Branco à 13 de Maio, nos fundos do Teatro Municipal, e já então desafiava as leis, pela ausência de qualquer dispositivo de prevenção contra incêndios: agarrado aos outros do pedaço não tinha escada externa ou  qualquer alternativa razoável de evacuação.
A qualquer comentário sobre essa situação precária, aduzia-se a desculpa compensatória: todo o Centro da Cidade, além de bairros como Copacabana e até Ipanema e Leblon eram e são apinhados por edifícios colados uns aos outros, alguns preservados pelos decretos das APACs, áreas de proteção artísticas e culturais concebidas para “inibir o crescimento dos bairros”, e para o desespero dos moradores, condenados a viverem em pardieiros até que aconteça coisa semelhante à tragédia de quarta-feira.
 
Esse desmoronamento noturno parece até um aviso, uma espécie de senha do que está por vir.
Digam o      que disserem, mas suas causas são muito mais profundas do que as imediatas explicações que alimentam a ansiedade decorrente. Tudo o que alegam pode ser e pode não ser. Porque se fosse o que cada um diz, principalmente por conta da obra no nono andar do Edifício Liberdade (Meu Deus, até nessa avacalham essa santa utopia)  é de se estranhar a complacência do síndico e a omissão da vizinhança, que não fez qualquer queixa ao bispo.
Prédio velho é prédio velho e envelhece mais ainda quando se sabe, como revelou o historiador Nireu Cavalcanti – homem sério e apaixonado pela cidade – antes ali, séculos passados, era a Lagoa de Santo Antônio.
Está bem que não se pode falar só da fragilização pela idade da construção, objeto até de redução do valor do IPTU. Mas se ao invés do trato das antigas edificações nos limites de seu valor cultural houvesse mais rigor na sua fiscalização, dever de todos, principalmente dos cidadãos, seriam bem menores as possibilidades de desmoronamentos como os da 13 de Maio.
 
Ouso dizer que o acontecido é decorrência da degeneração dos condomínios,
sob comando de síndicos “eleitos” pelo ardil das procurações de condôminos omissos.
  Essas autoridades prediais parecem mais interessadas numa vantagem qualquer, pois como tenho dito e repetido, o cidadão já começa a ser pungado no nesses pagamentos, cada vez mais onerosos, ainda mais depois dessa onda de “síndicos profissionais” que não têm compromissos de raiz com os proprietários e inquilinos.
  Nesse caso, volto a lamentar a inércia que acomete esse arremedo de cidadania destes tempos “eletronizados”.
É curioso: foi da auto-gestão no Condomínio do Edifício Alfa, que implantei como síndico em 1975, que nasceu na rua Lauro Muller, entre Botafogo e Urca, a primeira associação de moradores de classe média do Rio de Janeiro. (Infelizmente, está esgotado meu livro O PODER DA RUA, editado pela Vozes, com prefácio de Carlos Drummond de Andrade).
Hoje, a modernidade cultiva a irresponsabilidade social. Nem o elevador, nem a vizinhança de parede aproximam as pessoas. Antes, é cada um de nariz empinado, indiferente ao convívio rotineiro, numa exacerbada manifestação do individualismo internalizado.
     Esta terra carioca nunca conheceu o que se poderia chamar de prudência urbana.
 Fez-se aos trancos e barrancos, pirateando o mar, aterrando lagoas, córregos e demolindo morros, principalmente quando a burguesia emergente tomou o lugar da aristocracia, acostumada ao bairro de São Cristóvão como paraíso da corte.
Novos ricos, novos espaços urbanos.
Mares e morros foram agredidos. Não gostavam de canais, como lembrou Nireu Cavalcanti, desprezando a bela experiência de Amsterdã. Não tinham apreço ao racional, tão possuídos pelo delírio da fortuna fácil. Essa ocupação desordenada do solo pode não ser a causa direta da tragédia,
mas se insistirem na parede derrubada, então os outros que se cuidem: o mais corriqueiro é a avalanche de “reformas” de antigas edificações,
sob cobertura do próprio Plano Diretor (Lei Complementar nº 111/2011, artigo 57, inciso IV, parágrafo primeiro): “não dependerão de licença da prefeitura as obras de modificação interna, sem acréscimo de área, que não impliquem em alterações das áreas comuns das edificações”.
Já se sabe, porém, que no prédio maior, cujo síndico era o dono de uma administradora de imóveis, vinha num processo de desfiguração nada solitário de seu projeto original, incluindo aí abertura de janelas laterais, o que compromete a máquina da fiscalização de posturas.  Nesse episódio, é bom que se ressalve: o prefeito Eduardo Paes também é vítima desse ambiente de leniência e está trabalhando feito um doido para amenizar os efeitos da tragédia. Certamente, poderá tirar uma boa lição e refletir sobre o caos urbano, inclusive quanto às suas próprias intenções, como no caso da projetada demolição do Elevado da Perimetral, a ser substituído por túneis em áreas de aterro.
Na quarta trágica, nem chover, choveu. Nem a brisa calorenta fez-se ciclone. Nem a terra se mexeu. Nem se fazia qualquer coisa naquela hora. Seria uma noite como outra qualquer, sem eira, nem beira. Tão desinteressante que as câmeras da maior rede de televisão estavam ligadas no altiplano boliviano, onde o Flamengo de Ronaldinho jogava com um time das alturas.
Mas quis o destino que, talvez até por distrações como essa, esse 25 de janeiro, data do aniversário de São Paulo, a maior metrópole brasileira, três prédios despencassem  do seu cansaço e oferecessem o sacrifício mortal de alguns cariocas como o mau presságio que não pode ser minimizado como um acidente isolado.
Há mais “obras” e estruturas mal-tratadas além do formigueiro que liga a Cinelândia ao Largo da Carioca.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Para lembrar um grande líder na data do seu nascimento

Brizola deixou uma obra que nem a mesquinharia de Cabral e das elites apagará da história
“Brizola é o primeiro governante brasileiro a compreender em toda a sua profundidade a inexcedível importância do problema educacional, cuja solução é requisito indispensável para que o Brasil progrida”.
Darcy Ribeiro, no perfil de Brizola, escrito em 1994.
O projeto do Memorial Leonel Brizola, assinado por Niemeyer,  foi desmontado pelo governador Cabral e ficou por isso mesmo
Nesses dias em que o ano novo ainda engatinha oscilando entre repetidas tragédias e a corrida ao sol de praias paradisíacas, cumpre-nos lembrar uma data cada vez mais marcante em nossa história: neste domingo dia 22, Leonel de Moura Brizola completaria 90 anos se tivesse vingado sua expectativa de vida longa, ceifada inesperadamente por uma estranha gripe, 12 horas depois de hospitalizar-se.

Quem gosta e quem não gosta do líder que encarnou tantos sonhos patrióticos deve a ele o respeito que poucos próceres dessas décadas recentes merecem. Quem gosta sente sua falta como se um imenso abismo tivesse aberto em nossa história.  Quem não gosta, pelo menos deveria conhecer melhor sua odisséia, a inefável contribuição que ofereceu à vida pública, objeto de mais uma obra retrospectiva – o livro A Legalidade e outros pensamentos conclusivos de Leonel Brizolaque estará sendo lançado nesta segunda-feira, às 18 horas, na ABI, com a assinatura dos respeitáveis jornalistas e pesquisadores  Osvaldo Maneschy, Ápio Gomes, Paulo Becker e Madalena Sapucaia.

Registrar o nonagésimo aniversário de nascimento do menino pobre que se fez engenheiro, foi prefeito de Porto Alegre, governador do Rio Grande do Sul e, por duas vezes, governador do Estado do Rio é repassar os traumas de um processo político no qual, provavelmente, ele foi até muito longe.


Quem como ele teve a coragem de enfrentar os trustes estrangeiros e a mais poderosa e inescrupulosa articulação midiática teria sido condenado a um exílio na própria terra se não fosse por sua obstinação e pelos sete fôlegos que marcaram sua personalidade indômita.  Jamais teria sido o único brasileiro a governar dois Estados e a fazer da educação pública decente a grande bandeira de suas administrações.

Qualquer um sabe, e isso o livro que agora vem a lume retrata com documentação farta, que Brizola foi condenado por antecipação a jamais chegar à Presidência da República, desde o dia em que, aos 39 anos de idade, comandou a mais tenaz resistência a um golpe militar, garantindo a posse do vice-presidente João Goulart e impedindo que se consumasse em 1961 o que viria a acontecer em 1964, quando ele, já fora do Executivo,  também tentou convencer o presidente constitucional a resistir.

Hoje, por ironia do destino, Brizola continua vivo no imaginário social e até os adversários de sua grande obra, a educação como primazia, já admitem assumir sua torpedeada tentativa de implantar o ensino de tempo integral como condição para preparar nossas crianças, adolescentes e jovens para servirem a um país que tanto carece de profissionais realmente preparados, em oposição a essa farsa que faz da  maioria de nossas faculdades reles centros de expedição de diplomas e um dos negócios mais lucrativos da modernidade.

A cada 22 de janeiro eu mesmo me vejo envolto na mais deprimente amargura.  A obra de Brizola precisa ser melhor estudada e seus verdadeiros seguidores têm uma grande responsabilidade diante das gerações de hoje, de cuja lembrança gregos e troianos tentam apagar como uma nova condenação histórica.  O exemplo mais patético dessa determinação foi a destruição do Memorial consagrado a ele, pelas mãos geniais de Oscar Niemeyer, iniciativa do mais adestrado quadro das elites, o governador Sérgio Cabral Filho, com o qual, inexplicavelmente, coabitam hoje os próprios herdeiros de Brizola.

Consola-me, porém, saber que ainda há uma faísca de luz no resgate do seu legado e o livro de Maneschy e companheiros se inscreve como foco e referência indicados ao conhecimento de quantos sonham com um Brasil livre do baronato insaciável e acessível a todos os seus filhos.
Brizola, segundo Darcy Ribeiro

Consola-me também reler o depoimento de Darcy Ribeiro, escrito em 1994:, do qual destaco o trecho seguinte: 
“Estive ao lado de Brizola nos dois governos que ele exerceu no Rio de Janeiro. No primeiro, como Vice- Governador, no segundo, como Senador. Em ambos, como coordenador de seu programa educacional. Fizemos juntos muitas coisas recordáveis. A mais importante delas foi reinventar a escola primária brasileira na forma dos Centros Integrados de Educação Pública - CIEPs. Admiráveis por sua arquitetura, devida a Oscar Niemeyer, e muito mais pela revolução educacional que representam, como escola de tempo integral para professores e alunos; como de treinamento em serviço na arte de educar; como centro produtor de variado material didático de excelente qualidade e ainda como oficina de elaboração de cursos audiovisuais, através de tele-vídeos e de programas de informática educativa...
...Todos esses feitos, de que me orgulho muito, não são criações minhas, mesmo porque eles apenas concretizam ideais antigos dos principais educadores brasileiros, encabeçados por Anísio Teixeira. O que os tornou viáveis foi o fato de eu poder contar para concretizá-los com o primeiro estadista de educação que o Brasil conheceu: Leonel Brizola”....

domingo, 15 de janeiro de 2012

A hora do “mea culpa” – ou você se liberta da inércia ou vamos todos pro brejo

O sistema imobilizou a sociedade humana e assumiu os controles do pensamento de cada um

“Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar. É da empresa privada o seu passo em frente, seu pão e seu salário. E agora não contente querem privatizar o conhecimento, a sabedoria, o pensamento, que só à humanidade pertence”.
Bertold Brecht, pensador e teatrólogo alemão (1898-1956)

Numa coisa você tem que fazer uma baita “mea culpa”: sua responsabilidade por todo esse ambiente de malfeitos e manipulação programada que assola o país salta à vista. Porque, permita-me a dureza da afirmação, salvo raras exceções, a peste da visão superficial monitora sua assumida miopia e faz de você, ou do seu amigo mais próximo, um joguete nas mãos de um sistema fundado na corrida do ouro, no instinto selvagem de meter a mão no alheio, no delírio paradisíaco, ao ponto da rede Bandeirantes dedicar um programa semanal a futilidades de mulheres que nadam em dinheiro e esbanjam indiferentes ao mundo sofrido dos que carregam o país nas costas. A omissão ampla, geral e irrestrita produziu todo tipo de efeitos colaterais: de um modo geral, você perdeu a visão crítica imparcial e se aceitou ventríloquo da meia dúzia de espertos que pautam sua conduta. Fez-se um torcedor político e sacia-se em criminalizar os adversários, fechando os olhos para os seus ídolos preferidos e esquecendo-se de olhar mais fundo o buraco, que é mais embaixo.
(O que vou dizer a seguir é mais do que sua capacidade de tolerância aos escritos. Dificilmente, você irá até o fim desta leitura. Sei disso. Sei disso há muito, muito tempo mesmo).

Não pense que estou falando isso para lhe ofender. Acho até que você pode pegar a carapuça, sendo um inocente útil, e se voltar contra mim. Aliás, confesso, nem sei hoje quantos dão atenção aos meus papeluchos escritos a sangue, suor e lágrimas, e quantos acham que eu só digo isso e aquilo porque quero vender meu peixe e aparecer bem na fita.

Antes das minhas cismas chegarem até você, milhares de feéricas imposturas já se espargiram ao vivo e a cores sobre seu cérebro volátil e formataram seu recipiente mental: no fundo, no fundo, você se rendeu ao mau hábito de só considerar aquilo que lhe agrada, que se enquadra no seu juízo atávico e empedernido.

Pior. A alquimia do sistema não apenas lhe jogou contra o raciocínio crítico. Foi mais além no seu logro vitorioso: reduziu a pó ou confinou as fontes da inteligência e da cultura, a ponto de ser corriqueiro um médico brilhante desconhecer qualquer informação além da sua especialidade, aliando-se  à quase totalidade dos seres vivos nos braços do besteirol.

Pode ser até que a esta altura você já esteja mudando de página, trocando-me pelo faceboock ou o twiter, os preferidos da rede, onde apraz qualquer besteirinha postada em meias palavras. Provavelmente, você deve me negar qualquer autoridade para observações tão contundentes e repetitivas. Mas pode ser que alguém me credite um tempo e dê continuidade a essa leitura. Porque, como aprendi desde menino buchudo, água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.

Digo isso porque deploro sua convivência leniente com os mesmos dolos que se repetem sazonalmente diante de seus olhos, sem que você rompa com essa mesmice soturna, por uma única razão: pimenta dos olhos dos outros é refresco.

Até o dia que o ciclone bata em sua porta, sua indiferença tácita funciona como um consolo. Você até lamenta um monte de coisas, mas nos limites do seu convívio restrito. Há tantos atrativos interessantes a seu alcance, pelo menos hoje, que você opta pelo que lhe toca diretamente. Qualquer malefício na vizinhança você põe na conta de quem não gosta e vai tratando de galgar os degraus reservados a alguns, provavelmente a você, - quem sabe?

O sistema falou mais alto quando lhe fez endossar sua seleção de bons e maus. Estão lhe depenando no condomínio, nos preços dos serviços, dos aluguéis, dos transportes, no custo da comida, nos pedágios, nos impostos duplicados, nos balcões das escolas, nas despesas paralelas com a saúde e a segurança, nas contas de telefone, luz, gás e água, na gasolina, nos estacionamentos, mas você acha que tudo isso é parte de uma civilização moderna e dinâmica, debitando toda essa penca criminosa exclusivamente aos políticos que você não gosta, como se estes chegassem lá sozinhos, sorrateiramente, sem os milhares de sufrágios que lhes garantem o fausto e o poder eterno, a serviço de quem realmente se locupleta em alta escala e pode se transformar da noite para o dia no rei da cocada preta, no freguês assíduo dos paraísos fiscais e no herói da revista Forbes, aquela que glorifica os donos do mundo, entre os quais, aliás, sobe vertinosamente um brasileiro de 54 anos, 16 anos mais moço do que o mexicano do pódio.

Você provavelmente nunca parou para esmiuçar fortunas meteóricas, achando que elas são frutos de talentos e abnegação. Nunca ouviu falar nem quer saber o que é a exploração do homem pelo homem, a mais valia.  Você, ao contrário, pode até não ser o seu caso, (o você que falo é qualquer um, um ser impessoal) gostaria mais era de ser aquele do topo da pirâmide, percorrendo as filas das lotéricas ou perdendo o recato e pegando o seu por fora, convencido de que de grão em grão a galinha enche o papo.

Esse tipo de aspiração onde o céu é o limite acaba desfigurando a alma de ricos, pobres e remediados. A razão de viver perde sua essência humana e, em seu lugar, passam a nos mover os instintos do capitalismo selvagem, do é belo quem tem, passam a nos ofuscar as estrelas do falso brilhante, exacerbando ao extremo inconscientemente o individualismo, a inveja e os símbolos da aparência como elemento motor.

Sem perceber, você se deixa envolver pelas referências fortuitas dos grandes sucessos. Pilotos de automóveis, jogadores de futebol, artistas, personagens da televisão, boçais do BBB, novos ricos exibicionistas, políticos matreiros, enfim a glorificação desses fenômenos exuberantes povoa o imaginário social e reforça em seu ego toda a mesquinhez que o gênero humano pode assimilar.

Dependendo do patamar em que você esteja, a degeneração da alma se dá de forma diversa. E uma bolha de ilusões se dissemina sobre um todo como produto industrial de alto teor corrosivo.

Os pobres, ah esses pobres, parecem presas de um conformismo em proporção inversa. Tornam-se vulneráveis à mistificação de toda espécie, especialmente a de charlatões inescrupulosos, que em nome de Jesus ocupam indevidamente horas de televisão, prometendo céus e terras, valendo-se de curas ensaiadas e promessas fantasmagóricas sem o menor escrúpulo.

Mas os pobres também se deixam acomodar pelos programas compensatórios de caridade oficiais, em que a distribuição de migalhas tem efeito castrador. O lumpesinato congregado torna-se referência e objeto de cobiça dos políticos maledicentes que se aproveitam da mais controvertida virtude da democracia, já rejeitada por Sócrates no seu nascedouro: na hora da grande decisão, tem o mesmo peso o voto de um idiota, de um analfabeto político, de um desinformado assumido, tanto quanto o voto de um inquieto avaliador dos possíveis mandatários.

Todos esses ingredientes movem uma roda viva abismal. A sociedade humana está se consumindo no desleixo do pensamento, submetendo-se candidamente à gerência intelectual de um sistema que desenvolveu a fórmula da espoliação indolor com as picadas de suas moscas azuis sobre os  ambiciosos e o veneno de suas abelhas anestésicas sobre a turba propensa à vida de gado, para quem qualquer prazer diverte.

Nesse contexto, não há o que esperar de diferente. O que está acontecendo é pouco em relação ao que pode acontecer enquanto você se considerar comprometido unicamente com sua própria vidinha que, reconheçamos, já é um fardo, principalmente porque você acha que terá de resolvê-la enquanto indivíduo, no paralelo com outros tantos que têm os mesmos infortúnios, mas que também perderam o hábito de se somarem aos seus iguais.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Aposentada ou na ativa, classe média é quem paga as contas, mas relaxa e goza

A maior parte de sua renda vai para tributos e despesas com serviços que são obrigações do Estado
Brasileiros de Roraima vão abastecer seus carros na Venezuela, enquanto no Sul muitos compram gasolina na Argentina
“O achatamento salarial experimentado por esses brasileiros atingiu níveis insuportáveis. Com o fim da vinculação das aposentadorias e pensões ao salário mínimo, a política de recuperação salarial desse indicador, com base no crescimento real do Produto Interno Bruto mais a variação do Índice Nacional de Preços ao Consumidor, previsto na Lei 12.382, de 2011, pode agravar as distorções entre os beneficiários da previdência que recebem esse piso e àqueles que ganham além dele”.
Vanessa Grazziotin, senadora pelo PC do B do Amazonas.

Em breve, todos os aposentados ganharão o mínimo
Se é verdade que a política de aumento real do salário mínimo do governo federal tem contribuído para melhorar a vida de milhões de brasileiros, é igualmente verdade - e é sobre isso que devemos nos debruçar - que quem está pagando por esse louvável avanço é a classe média, incluindo aí pequenos empresários e a grande faixa de assalariados que são tributados por todos os lados.

No caso dos aposentados e pensionistas, que são referências para as políticas salariais, há uma perspectiva sombria para quem faz cálculo dos seus benefícios tomando por base o mínimo: dentro de no máximo 10 anos, a seguir a fórmula atual, todos estarão ganhando o piso e essa distorção é extremamente injusta: não se pode cobrir um santo e descobrir outro.

Quando se trata de aposentados e pensionistas, há uma dependência total de políticas autoritárias, porque esses, ao se desligarem da produção, perdem sua capacidade de pressão. Por mais que uma minoria atuante chegue ao Congresso levando o seu grito em defesa da lógica dos benefícios, a falácia dos ministérios da área econômica prevalece.

Neste momento, em função dessa agressão à lógica, quem ganha (ou ganhava) mais de um salário mínimo vai ficar “mais pobre”, pois enquanto se assegura uma correção de 14,1% no piso para 19 milhões de aposentados e pensionistas, os outros 8 milhões terão uma correção de 6,08%, abaixo do índice oficial da inflação. Estima-se que desses 8 milhões, quase 1 milhão cairão para a faixa do mínimo, embora tenham se aposentados com três salários ou mais. Além disso, é bom que se saiba: a aposentadoria média de quem ganha mais do que o mínimo é de R$ 780,00.

Perda de 76% da renda em 18 anos

Cálculos cravados da Confederação Brasileira de Aposentados e pensionistas demonstram que os aposentados e pensionistas do segmento médio amargaram uma perda de sua remuneração em 76% nos últimos 18 anos.


Nesse diapasão, o advogado baiano Marcos Barroso, membro do Conselho Jurídico da COBRAP, cita o exemplo do aposentado Lino Davi, dirigente da entidade: quando se aposentou, ele deveria receber 8,5 salários mínimos. Em 1994, já recebia o equivalente a 7,3 salários. Hoje, a situação dele é ainda pior: Davi receberá, em 2012, 3,65 salários, o que representa R$ 1.989,25.

Na ativa, a carga pesada não é diferente

É bom que se ressalte que o arrocho da classe média se dá também entre os assalariados da ativa: o rol dos seus gastos em 2012 será infinitivamente maior do que em anos anteriores, sua carga tributária começa a se tornar insuportável e o nível de serviços essenciais oferecidos pelo Poder Público o leva a uma situação esdrúxula e perversa: nesses últimos 30 anos, o cidadão de classe média se viu na condição de “multicontribuinte”.

Dos impostos que paga, incluem-se recursos para a saúde, a educação, a segurança e os serviços públicos, entre outras rubricas: não obstante, ele se vê obrigado a comprar à parte esses mesmos serviços, despendendo boa parte de sua renda em planos de saúde, escolas particulares, pedágios e, imagine, em serviços privados de segurança.

A mídia, infelizmente povoada de incompetentes, habituou-se ao hábito do papagaio e não se constrange em festejar o “crescimento da classe média”, quando uma faixa da população engrossa e passa a se enquadrar numa tabela aleatória de órgãos como a Fundação Getúlio Vargas.

Para essa entidade, quem ganha mais de R$ 1.200,00 até R$ 5.170,00 faz parte da “Classe C” e representa o maior contingente de assalariados do país, com 101 milhões de brasileiros ou 53% da população. Curioso que quando se refere à Classe B” , a faixa é bem mais estreita: R$ 5.174 a R$ 6.745,00. Já é considerado da “Classe A” quem tem uma renda superior a R$ 6.745,00.

Despesas maiores do que em outros países

Em todas as faixas, há hoje algo em comum: quem vive de salários é quem paga a duras penas os tributos no Brasil. No caso do Imposto de Renda, quem ganha mais de R$ 3.743,19 por mês vai ter que pagar 27,5%, isto é, para esse valor o dinheiro comido pelo leão, excluídas eventuais deduções, somará R$ 692,78 mensais.

Esse mesmo cidadão também paga impostos a cada passo que dá. Ao acender a luz, ele morre em 45% em tarifas disfarçadas por meio de siglas que a grande maioria da população sequer sabe que o que significa e para o que serve. As empresas do setor calculam que esses encargos totalizarão R$ 19,2 bilhões neste ano, um salto de 7,9% em relação a 2011.

Já na gasolina, a mordida é ainda maior: 55% são taxas e tarifas embutidas, o que nos leva a pagar pelo combustível 70% mais do que em Nova York. Se compararmos os preços da gasolina que pagamos no Brasil em relação à Venezuela de Hugo Chávez, você vai ficar de queixo caído: neste momento, o custo de um litro do combustível lá é o equivalente a R$ 0,10 – isto é, com apenas R$ 5,00 você enche um tanque de 50 litros. Isso tem aumentado o contrabando de gasolina venezuelana para o Brasil e até mesmo a ida de carros para abastecer seus tanques lá.

De longe, os principais fardos do combustível nacional são o ICMS e a CIDE (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico), que agrupa em uma só rubrica PIS, COFINS e antiga PPE (Parcela de Preço Específica). Os dois tributos mencionados acima respondem por, respectivamente, 32% e 21% do valor pago pelo consumidor brasileiro.

Saturada, mas embalada por fantasias milionárias

Todos os estudos levam a uma situação de saturação financeira da classe média e, no entanto, esse segmento de escolaridade razoável, refugia-se na despolitização mais burra: isto é, faz questão de ser alienada e ainda vive no mundo da fantasia da vida dos grandes milionários, como se um dia pudesse desfrutar do mesmo padrão de vida.

Uma classe média aversa ao conhecimento político é facilmente manipulável por quem joga com seus sonhos e sua desorganização individualista, embora seja ela, paradoxalmente, detentora de alta carga multiplicadora de informações.

Seria muito bom que VOCÊ começasse a refletir sobre o caráter autofágico dessa postura. Seria melhor ainda se conversássemos mais a respeito, abstraindo preconceitos, preferências e idiossincrasias.

VOCÊ não acha?

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Cinco presidentes com câncer ao mesmo tempo: esse filme nunca ninguém viu antes

Tudo o que se especule a respeito é factível: a guerra torpe pelos podres poderes não tem limites

Os presidentes do Paraguai, Brasil e Venezuela precederam a presidente da Argentina. Todos atingidos por câncer no espaço de um ano.
“Não seria estranho se tivessem desenvolvido uma tecnologia para induzir ao câncer e ninguém soubesse disso até agora".
Hugo Chávez, presidente da Venezuela e um dos cinco líderes sul-americanos afetados pelo câncer, numa referência aos EUA.

Como nessa guerra torpe pelo controle dos podres poderes tudo é possível, tudo mesmo, inclusive o imponderável, inclusive o inimaginável, confesso que esse número recorde de presidentes acometidos de câncer aqui, na América do Sul, está me deixando com um monte de pulgas atrás da orelha.
Pra início de conversa, não há registros de que essa doença quase fatal tenha atacado tantos presidentes e líderes de uma só vez. Ou eu estou errado? Você aí: pode me refrescar a memória e a cultura, falando de algo semelhante?
Não quero e não posso embarcar numa paranóica “teoria da conspiração” de conteúdo tão polêmico. Mas o papel do jornalista é ver mais fundo, perscrutar os sintomas da informação, explorar todas as possibilidades, especialmente as mais remotas. Assim, fiel ao juramento profissional, por obsessiva vocação de ofício, resolvi esquadrinhar o mundo oculto das barbaridades científicas.

Isto é: esses mais de 50 anos de redação me dão suporte para mergulhar fundo, sem deixar-me trair pelo panfleto e o facciosismo que se mesclam e se enxertam no noticiário predominante . É como se me guiasse nessa investigação aquele velho adágio galego: “Yo no creo en brujas, pero que las hay, las hay”.

O trato com esse “novo fenômeno” é uma boa oportunidade para que todos nós, sem exceção, nos despojemos das simpatias, antipatias e comprometimentos e cuidemos de tirar uma boa lição da aberrante carga pesada que ronda os círculos do poder.

Em comum, posições políticas fora do figurino tradicional

Digamos que a sucessão de diagnósticos tão impactantes seja mera coincidência. O mais confortável é ficar com essa probabilidade. Mas certos parentescos políticos entre as vítimas e a própria concentração dos casos num único espaço do globo terrestre, a América do Sul inquieta,  autorizam imaginar o contrário.

O paraguaio Fernando Lugo, os brasileiros Dilma Rousseff e Luiz Inácio, o venezuelano Hugo Chávez e a argentina Cristina Kirshner não são os governantes dos sonhos de consumo das potências ocidentais, por mais que eles procurem demonstrar posturas de chefes de Estado, no exercício pragmático de suas obrigações: o próprio presidente Hugo Chávez, alvo de todo tipo de artimanhas para apeá-lo do poder, tem sido um inteligente mercador do petróleo venezuelano: metade de suas exportações é destinada exatamente para os Estados Unidos.

Nesse caso, é didático levantar a ficha de cada um dos presidentes infectados pelo câncer. Não há nenhuma exceção que indique ser esse ou aquele um aliado sob medida dos Estados Unidos, como Sebastian Piñera, do Chile ou Juan Manoel Santos, da Colômbia.

Nessas circunstâncias, não me surpreenderia se os inescrupulosos laboratórios mantidos principalmente pelo complexo industrial-militar de Washington estivessem por trás dessa “onda cancerígena” absolutamente inédita.

Os norte-americanos já fizeram de tudo para eliminar Fidel Castro, seu vizinho mais incômodo. Isso consta inclusive de documentos oficiais liberados pelo tempo e de confissões de agentes envolvidos em operações com este fim. Não é exagero suspeitar que a própria doença que levou à renúncia do líder cubano tenha origem em algumas dessas tentativas, embora seja de bom alvitre lembrar sua idade avançada.

Guerra bacteriológica existe e já fez muitas vítimas

A guerra química e bacteriológica existe e tem seu exemplo mais cruel na introdução por agentes da CIA da dengue hemorrágica em Cuba, que provocou uma traumática pandemia e registrou o primeiro caso desse tipo letal de infecção fora da Ásia: numa população de cerca de 10 milhões de habitantes, registraram-se 344.203 casos de dengue (sobressaindo-se 34 mil de FHD e 10.312 das formas mais severas).  Durante o pico da epidemia, foram notificados 11.271 casos em um único dia. Dos 158 óbitos, 101 foram em crianças. Segundo cálculos da OMC, o custo dessa epidemia que quase paralisou Cuba foi de US$ 103 milhões. Desde então, o governo cubano desenvolveu as mais eficientes técnicas preventivas e hoje exporta vacinas para 70 países.

Em 14 de Junho de 2007, a Comissão Especial para a Descolonização da ONU emitiu um parecer no qual afirma tacitamente que o HAARP (High Frequency Active Auroral Research Program) utilizado, segundo o governo dos EUA apenas para investigação científica, poderá provocar uma explosão equivalente à de uma bomba atômica, mas sem ser detectada qualquer detonação. Além desta habilidade bélica secreta, o HAARP tem múltiplas capacidades de mexer com o clima alterando a temperatura atmosférica de forma a conseguir causar tornados ou chuvas torrenciais em determinados pontos pré-determinados do globo.
No Alasca, o QG de uma nova arma de guerra
Há muitas indagações sobre o uso que tem sido feito do HAARP, um misterioso programa desenvolvido no Alasca pelo Pentágono desde 1993 com o objetivo oficial de ampliar o conhecimento obtido até hoje sobre as propriedades físicas e elétricas da ionosfera terrestre.
Além disso, utilizando uma mescla de ondas de rádio com frequência sonora, os Estados Unidos poderiam manipular a mente coletiva para que algum projeto político fosse defendido ou algum governo rival fosse atacado. Enviando as informações para toda a população em frequências que não poderiam ser captadas por aparelhos, não demoraria para que a “lavagem cerebral” estivesse concluída.

Há quem diga que este tipo de manipulação será utilizado em breve no Irã. O governo atual é hostil aos norte-americanos: portanto, seria desejável para os EUA  que o povo se rebelasse contra os seus líderes. Mensagens antigoverno seriam incutidas na mente do povo iraniano com o auxílio das antenas HAARP.

Eliminação de adversários por todos os meios

Claro que esse tipo de operação mortífera não é a mais usual para eliminar governantes hostis, principalmente depois que as “cabeças coroadas” do sistema norte-americano passaram a calcular como negativo o custo-benefício dos golpes militares.
Em seu livro Confissões de um Assassino Econômico, o ex-agente da CIA John Perkins relata em detalhes os acidentes aéreos provocados pela agência de espionagem dos EUA que levaram às mortes dos presidentes Omar Torrijos, do Panamá, e Jaime Roldós Aguilera, do Equador, ambos em 1981, ano do ataque bacteriológico a Cuba. O mesmo aconteceria em 1986 com o líder da luta pela independência e presidente de Moçambique, Samora Machel, cujo avião explodiu quando sobrevoava território da África do Sul, então sob governo da minoria branca.

Da mesma forma, circulam pelo mundo relatos sobre o provável envenenamento do líder palestino Yasser Arafat, em 2004, como obra do Mossad, o serviço secreto israelense. Uma versão circunstanciada a respeito garante que seu assassinato fazia parte do Plano Dagan, desde 2001. Com toda a probabilidade, foi efetuado pelos serviços secretos israelenses. Destinava-se a destruir a Autoridade Palestina, fomentar divisões no seio do Fatah e entre o Fatah e o Hamas.

Hoje não são apenas os árabes, como o médico da família real jordaniana ( e do próprio Arafat) Ashraf al-Kurdi, que têm essa convicção. Os jornalistas israelenses Amos Harel e Avi Isacharoff, destacaram que os sintomas levavam a crer mais num envenenamento. Em artigo publicado em Paris, em outubro de 2005, sob o título A sétima guerra de Israel, estes dois autores levantam três hipóteses: envenenamento, AIDS ou uma simples infecção. E um deles, particularmente, aposta mais na primeira possibilidade.

Mortes estranhas de líderes brasileiros

Já comentei aqui as estranhas mortes de importantes líderes brasileiros, que em plena ditadura congelaram divergências e se uniram numa frente ampla para resgatar a democracia: Juscelino Kubitscheck, “acidentado” em agosto de 1976 na Via Dutra; João Goulart, envenenado na Argentina em dezembro do mesmo ano, e Carlos Lacerda, que morreu em maio de 1977, ao ser hospitalizado com uma gripe no Rio de Janeiro.

A própria morte de Leonel Brizola, em 2004, não me pareceu devidamente esclarecida: ele estava com uma gripe no Uruguai, viajou numa sexta-feira em avião de carreira para o Rio de Janeiro, foi hospitalizado na manhã da segunda-feira, dia 21 de junho, e morreu no elevador do Hospital São Lucas no início da noite do mesmo dia.

Outras mortes também se afiguraram estranhas: o câncer fulminou alguns dos mais combativos intelectuais da resistência contra a ditadura: em 1976, Paulo Pontes, aos 36 anos, e Oduvaldo Vianna Filho, aos 38; Em 1984, Armando Costa, aos 51 anos, e em 1988, Flávio Rangel, aos 54 anos. Os três primeiros, fundaram o Teatro Opinião,  palco da resistência contra a ditadura.

Ainda nesse ambiente, até hoje se especula sobre a “emasculação intelectual” de Geraldo Vandré, o autor da canção símbolo das manifestações de 1968. Há quem diga até que ele, hoje reduzido a um trapo, teria sofrido uma operação de lobotomia.

Vírus produzidos sob encomenda

O poder dos laboratórios na manipulação de doenças vem sendo objeto de denúncias e preocupações públicas. Faz pouco, Ron Fouchier, do Centro Médico Erasmus, na Holanda, iniciou sua pesquisa para compreender melhor o vírus responsável pela epidemia de gripe aviária. No entanto, suas descobertas o fizeram criar algo potencialmente perigoso – e agora a comunidade científica debate se é ou não correto que ele publique seus resultados.

Fouchier modificou o vírus e o tornou extremamente contagioso, transmissível pelo ar – como um vírus da gripe comum. Segundo seu estudo, são necessárias apenas cinco mutações para tornar o H5N1 extremamente transmissível entre pessoas.

AIDS, outra doença criada em laboratórios

Não são poucos os cientistas que responsabilizam o governo dos Estados Unidos e laboratórios particulares pela produção de vírus letais.

Jakob Segal, professor de biologia da Humboldt University da Alemanha, garantiu que o vírus da AIDS foi projetado em um laboratório militar dos EUA, em Fort Detrick, junto com dois outros vírus, Visna e HTLV-1 . Segundo sua teoria, o novo vírus, criado entre 1977 e 1978, foi testado em prisioneiros que se ofereceram para o experimento em troca de libertação antecipada. Ele sugeriu ainda que foi através destes prisioneiros que o vírus se espalhou para a população em geral.

Leonard Horowitz, autor de 14 livros científicos, foi mais além nas denúncias sobre a origem da AIDS, conclamando os países da África e muçulmanos  a boicotarem vacinas norte-americanas que poderiam conter elementos do HIV. Em sua obra Emerging Viruses: (Aids e Ebola - Acidente natural ou Intencional - de 1996), ele é incisivo ao citar o caso envolvendo um portador do vírus, o dentista  David Acer, da Flórida, que se transformou deliberadamente num multiplicador do HIV: "Eu fui forçado a concluir que as autoridades encobriram as evidências implicando Dr. Acer para evitar a mídia, e, posteriormente, o público, a partir de sondagem em seu fundo. Ele acreditava que estava morrendo de um vírus que o governo havia criado. Ao seu melhor amigo (Edward Parsons) Acer disse acreditar que o vírus tinha sido desencadeada por genocídio contra a comunidade gay da América e os negros do Terceiro Mundo ".

Leonard Horowitz também é autor de denúncia sobre a origem da gripe suína, que encheu as burras do laboratório Roche, fabricante do Tamiflu, medicamento usado no seu tratamento e envolveu diretamente o ex-secretário de Defesa de George Bush, Donald Rumsfeld.

Se você tiver um tempinho, sugiro que veja o vídeo de Horowitz sobre a gripe suína em http://www.youtube.com/watch?v=0PTI29Pzh7U

Espero ter tratado essa inédita ocorrência de presidentes da América do Sul vitimados por câncer da forma mais abrangente possível, oferecendo subsídios para que você também reflita sobre as possibilidades de natureza política que estão sendo aventadas em várias áreas.

Não pretendo deixar uma questão fechada, mas insisto em que nessa guerra torpe pelo controle do mundo nada é impossível: os personagens envolvidos não têm o menor escrúpulo e, portanto, são capazes de tudo e mais alguma coisa.

domingo, 1 de janeiro de 2012

A privataria tucana e as demais privatizações-doações

Já que tais crimes voltam à baila, por que não se faz uma AUDITORIA HONESTA e sem rabo preso?

“É preciso dizer sempre e em todo lugar que esse governo não retarda privatização, não é contra nenhuma privatização e VAI VENDER TUDO O QUE DER PARA VENDER”.
Fernando Henrique Cardoso

Amanheci 2012 com o livro “A Privataria Tucana” sobre a mesa. No decorrer de dezembro, recebi muitas mensagens sobre essa obra. Mas, como temia tratar-se de um reles panfleto, estava disposto a ler outros livros antes, - a fila é grande e o tempo, incrivelmente, pequeno - não me motivei para esse levantamento do jornalista Amaury Ribeiro Jr.

Uma notícia divulgada pelo site “Comunique-se” e a informação de que a Executiva do PSDB pretende processar o autor me fizeram mudar de idéia. O site informou que a revista VEJA deliberou não incluir esse livro entre os mais vendidos, contrariando informações de várias redes livreiras. Dois dias depois, voltou ao assunto, dizendo que, depois de sua matéria, a mesma revista se viu obrigada a relacionar “A Privataria Tucana” entre as publicações mais procuradas.

Foi então que minha mulher adquiriu o livro por R$ 27,00 na FNAC, já na véspera do ano novo. Passara em outras livrarias, no mesmo shopping, e fora informada que já havia esgotado.

No próprio dia 31, comecei a ler e registrei algumas impressões:

1. Não se trata de uma “obra completa” sobre os danos causados pelas privatizações-doações que não começaram com FHC.

2. O que levou Amaury Ribeiro Jr ao assunto foi um conflito interno no PSDB, quando ele trabalhava no jornal ESTADO DE MINAS, ligado a Aécio Neves. Na ante-sala da campanha de 2010, pelo que se lê, José Serra produziu baixarias sob medida para garantir sua indicação à Presidência, sugerindo, inclusive, que o governador mineiro gostava de cheirar cocaína.
O material reunido pelo repórter tem origem nesse conflito de interesses. Com experiência em matérias policiais, ele acabou indo fundo na descoberta de uma lavanderia de propinas pagas no processo de privatização. Mas, até que a leitura do livro todo me prove o contrário, teve como alvo central o candidato José Serra, e não o processo de privatização que teve no governo tucano seu apogeu - com destaque para Ricardo Sérgio, ex-diretor do Banco do Brasil, que foi tesoureiro de sua campanha e operou pessoalmente algumas negociatas, especialmente nas empresas de telecomunicações. Isso me induz a acreditar no objetivo eleitoreiro de sua pesquisa.

É o caso da privatização da Companhia Siderúrgica Nacional, nascida da obstinação de Getúlio Vargas, contra os que, como hoje, preferiam exportar minério de ferro bruto. Ela foi privatizada em 1993 no governo de Itamar Franco. Essa identificação eu não vi no livro. Antes, em 1990, o governador de São Paulo, Orestes Quércia, privatizou a VASP num processo que gerou uma CPI e deu o primeiro passo para esfolar as empresas aéreas brasileiras da época até o cúmulo do leilão da VARIG, em 2006, entregue de mão beijada por uma ninharia a um fundo de investimentos norte-americano, representado por um chinês da pesada.

Vou continuar lendo para conhecer detalhes de suas denúncias. Mas lamento desde já que esteja diante de uma obra incompleta e direcionada. Porque as privatizações-doações têm de ser criticadas HONESTAMENTE, alvejando quem participou da dilapidação do patrimônio público, seja tucano ou não.
A publicação desse livro agora pode ter o mérito de trazer de volta o debate HONESTO sobre a desnacionalização das empresas brasileiras, que continua vogando, embora sob o manto da mais bem elaborada discrição. Hoje, é temerário dizer que a Petrobrás é uma empresa estatal brasileira. Desde aquele agosto de 1997, quando Fernando Henrique Cardoso sancionou a Lei 9478/97, o monopólio estatal foi para os ares e a própria empresa envolveu-se num esquema de terceirização privatizante. A bem da verdade, os leilões que franquearam nosso petróleo a todo tipo de aventureiros, sem compromissos com nossa soberania – veja o caso da Chevron – tiveram maior incremento na era pós-tucana.

Agora mesmo, começam as privatizações dos aeroportos no mesmo ritual daqueles idos, enquanto o Código Brasileiro de Aeronáutica vai sendo violado, através da liberação por artifícios de espaços aéreos domésticos a empresas estrangeiras, as quais, aliás, já operam desproporcionalmente os vôos internacionais, contrariando as exigências de reciprocidade.

Já que os brasileiros estão mostrando interesse pelo livro sobre as peripécias do Sr. José Serra & Associados, creio ter chegado a hora de esgoelar reclamando a AUDITORIA das privatizações, tal como advogava quase solitariamente Leonel Brizola. É o caso mesmo de reclamar a reestatização de muitas empresas, principalmente as concessionárias que prestam péssimos serviços e só pensam no lucro, como aconteceu, em alguns casos, na Argentina.

Todo mundo sabe que empresas como a Vale do Rio Doce, a CSN e a Light passaram às mãos de grupos econômicos como descaradas doações. E que elas continuam se beneficiando de um guarda chuva oficial prejudicial sob todos os aspectos aos interesses nacionais.

No caso da Vale, como no “agro-negócio” o mal que se faz com a exportação de produtos sem valores agregados é um retrocesso perigosíssimo, influindo negativamente também no processo de DESINDUSTRIALIZAÇÃO DO PAÍS.

No comércio com a China, por exemplo, estamos importando o que precisamos e o que não precisamos para compensar as exportações de minérios e de soja: hoje, 25% do faturamento da Vale vem das vendas àquele país e é pago indiretamente pelos brasileiros, que assistem ao sucateamento da indústria nacional, aliás, por culpa também da miopia e ambição dos nossos empresários.

Bom, vou ficando por aqui: espero ter mais tempo para continuar lendo esse relato sobre A PRIVATARIA TUCANA. E para trocar idéias como você, cuja opinião me ajuda a compor o próprio raciocínio.

sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Esse ano novo eu já vi antes (como a miopia e a egolatria ainda ditam a moda, repito o escrito do ano velho)

Bem que eu queria refazer o dito, mas não vejo diferenças nesses hábitos de pensar e viver sem razão

"A civilização moderna tem reduzido o número dos tolos, mas aumentado proporcionalmente o dos velhacos."
Marquês de Maricá
Político e pensador brasileiro ( 1773-1848)


Olhando bem, esse ano novo eu já vi antes. Tem o corpo e a alma de amargos anos pretéritos. Até projeta algumas novíssimas novidades. Mas pelo desígnio da roda da história tais são quais, são vulgares e sem as essências que prenunciem mudanças, que ensejem novos dias, novas semanas, novos meses.
Que pena!

Temos a sensação de uma impertinente marcha lenta, quase parando. Trocam-se as fantasias e até mudam as posições das pedras no tabuleiro. Mas sem sinais de ventos uivantes, nem de uma brisa quimérica. O ar morno domina o ambiente de mortalhas andantes, introduzindo os fantasmas mórbidos, sem dó, nem piedade.

Como no sempre dessas fatalidades ignóbeis, o diapasão da farsa soa no sustenido sem recato que paira incólume sobre mentes inclementes, exibindo sem cerimônia a mesquinha caça aos podres poderes.

Os personagens se revezam nos movimentos ensaiados que cultivam a burla e a impostura. Todos, absolutamente todos os canastrões vestem a roupa de gala, correm para a fila das prebendas e exibem a exuberância de uma mediocridade de berço. Mediocridade que, por força de um óbvio torpemente triunfal, enraíza-se às profundezas da alma banalizada.

Há flores no meu jardim, ao pé da serra agredida, conspurcada, mas são rosas passageiras, sazonais.

Há uma réstia de esperança, isso há. Mas esperança de que? Em todos os entes o Estado vigente é um abominável mundo velho de costumes libidinosos e viciados. Olhe no alto, no tronco e nos ramos, nada verás de novo e belo nos altiplanos em rebuliço.

(Convenci-me que em um ano fiquei vinte anos mais velho - quase senil)

Ensaiam apenas variáveis de figurinos, cada vez mais influentes. O vozerio some no silêncio da ambição pessoal intumescida. Mais uma vez o grito estará parado no ar, ao sabor das conveniências de um jogo de cartas marcadas.

Querem a carne seca, a cocada preta, qualquer coisa que lhes sacie os olhos maiores do que a barriga. Cada uma puxa a brasa para sua sardinha. E embora seja farto o coração de mãe, a palavra de ordem é meu pirão primeiro.

Já se sabe de novas investidas à sombra da festa encorpada de assentimentos. Números graves denunciam a falência do porém, do todavia. Hordas acríticas cultivam o silêncio dos culpados. Sim, porque a inocência se perdeu nesse mundo de cínicas incongruências.

(Até o benefício da dúvida dissolveu-se na perspectiva do nada)
Antes, o tropel da esperteza vil mimetiza a consciência letárgica. Porca miséria, porca assimilação patética do canto das sereias. O mito venceu e se transformou no manda-chuva. Dentro ou fora das quatro linhas nada se fará sem seu bafejo inebriante. Dos seus suspiros e humores dependerão as alquimias.

Não há o que esperar para além dos velhos anos. É do espírito da mega farsa. A capacidade de encenação prevalecerá sobre a vida real. O populacho foi domado e nada tem a declarar.

Sirvam-lhes brioches e teremos as belas adormecidas pela languidez do seus cérebros moldados por úteros infantis. A lobotomia da eletrônica amputou em massa os signos da percepção, os fios da indignação doutrora.

Também pudera: o último dos moicanos sucumbiu faz tempo, isolado nos Andes encrespados. A história, infelizmente, não se repete, mormente quando os cordéis estão nas mãos sujas da malta insaciável. Da alcatéia dissimulada em peles de cordeiros.

(A pobreza de espírito tornou-se a mãe de todas as pobrezas)

Esse ano novo é pirata, é clone doutros monstrengos sem vergonha de ser. Haverá vinténs para os dóceis pedintes empencados sob sombra e água fresca. Mas faltarão níqueis para compensar décadas de labuta. Vem aí mais uma vez o garrote vil. Nessa tormenta, falam a mesma língua gregos e troianos, de olho na bagatela da banca.

Bem que eu queria estar na liça para enfrentar os Golias empedernidos. Mas me puserem para corner, em golpes baixos, impiedosos. E me deixaram falando sozinho sob o sol abrasador.

Mesmo à distância, porém, meus mil olhos não fecham jamais. E se me fazem ver a mil milhas distantes, se me impelem ao esperneio infrutífero dos insones sem peias, satisfazem-me no mínimo o ego indômito.

(Mesmo assim, ainda respiro sem auxílio  de aparelhos)

Como de hábito – hasta la vitória siempre – recarregarei minhas baterias energizadas por palavras amigas e me manterei com a guarda em alto. Porque também não quero ser essa metamorfose ambulante que se agacha covarde aos encantos das cortes e dos cofres.

Não quero e não serei vergável, nem que me venham cobertos de ouro, como não me calaram na câmara de tortura. Não e não, nem que tenha que amargar, sem choro nem vela, a solidão dos que não podem mais oferecer aos ex-fraternos o estuário dos cobres da casa, comida e roupa lavada.

Afinal, se é orgástico o apetite dos palácios, mais consistente e perene é o impulso dos átomos revigorantes que ainda restam em uma meia dúzia de três ou quatro inconformistas.

(Esta coluna é a mesma do final de 2010)

sábado, 24 de dezembro de 2011

Um feliz natal, porque ainda temos Eliana Calmon, símbolo de coragem e determinação

Com seu desassombro, a corregedora do CNJ está levantando a auto-estima dos brasileiros indignados

"A ministra não merece ser censurada, e tanto menos execrada pelos seus iguais, pois seu único pecado foi ser implacável contra a corrupção".
Roberto Wanderley Nogueira, juiz federal em Pernambuco
Veja a solidariedade dos juízes clicando aqui  

Haja o que houver, e não se pode esperar que haja algo de modificante, conforme a lógica dos nossos podres poderes, a ministra Eliana Calmon Alves já fez um grande bem a todos nós, ao levantar-se corajosamente contra o ambiente de perigosíssima cumplicidade que blinda e lacra a penca de malfeitos camuflados  em um  Poder Judiciário de um pernicioso corporativismo – incômodo para os magistrados honestos, que são maioria – mas sob medida para aqueles que ela identificou como bandidos de toga.

A opinião pública está chocada com a reação das associações classistas e com a postura de ministros do Supremo Tribunal Federal, que estão recorrendo a toda  jurisprudência disponível para castrar o Conselho Nacional de Justiça, já em si um órgão limitado em sua capacidade punitiva.

É bem provável que os “sábios do templo” consigam mimetizar o CNJ, transformando-o em mais uma caricata ficção dentro dessa decadente fantasia alcunhada de democracia, porque o complexo empresarial-judiciário, que sacramenta as grandes tacadas em nossos dias é muito mais poderoso do que uma ministra quixotesca e o punhado de juízes decentes espalhados pelo país, num isolamento imobilizante.

Como sabem os advogados sérios, que também não são muitos, esse Poder Judiciário está longe de ser tido e havido como Justiça. Antes, mercê das maiores prerrogativas constitucionais de intocabilidade, personaliza aquilo que se percebe nos corredores forenses:
o juiz pensa que é Deus; o desembargador tem certeza que é.
Eliana Calmon Alves, do alto dos seus 67 anos e uma carreira exemplar com decisões antológicas, está pondo o dedo numa grande ferida – isto quer dizer, está mexendo com destemor sem precedentes numa venenosa caixa de marimbondos.

A  reação insana das entidades classistas legitima suas intenções. Digo intenções porque a máquina judicante é dotada de inexpugnáveis defensivos corporativistas e assimila a contaminação de uma politicagem feroz, substância ativa da lógica desses podres poderes.

A  estrutura do Judiciário é um convite ao dolo. Apenas o juiz de primeira instância ganha a toga em concursos públicos, alguns, aliás, de fazerem inveja ao ENEM, mas sempre beneficiados pelos panos quentes, inclusive no próprio CNJ, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro, quando o examinador Ricardo Creton detectou irregularidades, mas que acabou sendo legitimado no plenário daquele Conselho contra o voto do relator.

Desembargadores, as autoridades maiores nos Estados, e ministros do STJ são escolhidos por critérios diversos. Um deles, que poderia ser festejado como conquista democrática, garante um quinto das vagas a votações no âmbito da OAB. E aí ganha o poder superior quem nunca julgou antes, não sendo raros os casos em que advogados indicados por suas entidades levaram pau mais de uma em concursos regulares para a primeira instância.

Os ministros do Supremo, então, são todos escolhidos pelo chefe do Poder Executivo e submetidos à apreciação do Senado, que costuma sacramentá-los. Qualquer um pode chegar ao mais alto poder judicante do país, ganhar um cargo vitalício até os 70 anos de idade, bastando para isso de uma boa articulação política. Já o servidor público comum precisa fazer concurso, como prescreve o Artigo 37 da Constituição Federal.

O resultado é que temos uma Justiça imperial, em cujas prateleiras empoeiram-se mais de 80 milhões de processos. E que somos obrigados a engolir decisões estapafúrdias pelo poder indiscutível de que cada magistrado se reveste, no uso abusivo dessa falácia chamada hermenêutica.


Dessa vez, a ministra Eliana Calmon Alves está sendo apedrejada por seus colegas sob a alegação de que teria violado sigilos bancários, quando, pela Lei 8730/93, todos os servidores, sem exceção, a começar pelos de maiores poderes decisórios, devem apresentar suas declarações de renda onde prestam serviços.
Em São Paulo, 45% dos magistrados deixaram de cumprir esse dever. Em Mato Grosso, o boicote foi total.

E as ações contra ela vão ser julgadas pelos próprios interessados na causa, embora se espere que o olhar da parte atenta sociedade possa ter algum peso no frigir dos ovos.


O ideal é que submetessem os titulares da Justiça à mesma exposição dos políticos: qualquer candidato a qualquer cargo eletivo tem sua declaração de renda divulgada ao alcance de qualquer mortal no site do TSE.  Que é sempre vorazmente decupada por uma mídia movida pelas mais variadas motivações.
Embora eternos em seus cargos e intocáveis em suas prerrogativas, os magistrados estavam mal acostumados com as delícias do espírito de corpo até a hora em que os corregedores no CNJ Gilson Dipp e, depois, Eliana Calmon Alves resolveram investigar transações atípicas envolvendo membros do Judiciário. As inspeções são realizadas há quatro anos e apenas agora, quando chegaram a São Paulo, a Associação dos Magistrados Brasileiros reclamou. Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Amazonas e Amapá já passaram pelo processo.

"As investigações patrimoniais começaram na época do ministro Dipp e o problema só surgiu quando chegou a São Paulo. Esse estardalhaço que estão fazendo de uma decisão eminentemente técnica e que os senhores poderão acessar e verificar, 
isso é para tirar o foco do que está realmente em jogo, que é a sobrevivência com autonomia do CNJ. Isso é que o foco do corporativismo" – lamentou a ministra
Pelo seu desassombro, Eliana Calmon Alves não está disposta a se render, antes pelo contrário. E tudo o que está ocorrendo na cúpula do Judiciário tem servido para fazer dela uma grande heroína de nossos dias, tão escassos de pessoas de caráter. Essa mulher-coragem, felizmente, já tem a seu lado uma grande torcida, gente que se sente recompensada por sua saga indomável e que vê nela motivação para despertar o inconsciente coletivo adormecido.

É como se a ministra fosse de fato o nosso grande presente de natal.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A ceia de natal e o pão que o diabo amassou

“Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que de máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.”
Charles Chaplin


Bem que eu queria desejar feliz natal de coração para coração. Queria valer-me das imagens singelas do nascimento de Jesus Cristo, tal como aprendi no catecismo, para cobrir a todos de carinho, afeto e de um luminoso feixe de esperanças.


Queria que a data, referência de uma civilização nascida na cruz e multiplicada nas catacumbas, fosse o momento sublime do mais afetuoso dos abraços.

Queria, sim, juro por tudo quanto é sagrado, que todos os 7 bilhões de seres humanos tivessem um belo motivo para um grande abraço através do planeta, inspirando-se nos sentimentos mais generosos de que desfrutamos e cultivamos no círculo restrito dos entes mais próximos.


Queria, mas, infelizmente, esse desejo é mais uma fantasia de inspiração lunática, típica de quem perdeu a noção da realidade e tenta desconhecer o trágico dos impulsos ensimesmados de cada indivíduo.


Imaginar a “festa máxima da cristandade” para além do corre-corre no comércio à cata de um presente para alguém que já está à espera dessa lembrança é passar atestado de desmiolado incurável.


O natal desses tempos modernos reduziu-se à troca de presentes porque a alma humana reduziu-se também ao império dos interesses, aos impulsos de caráter material, ao culto de satisfações egoístas, seja para hoje, na fruição de cada conquista pessoal, seja para o amanhã, quando a fé em Deus nos supõe eternos, com direito a um paraíso espiritual para todo o sempre.


A alma humana, aliás, é mais uma figura de retórica. Estes seres com que cruzamos na guerra silente de uma sobrevivência apequenada já se perderam no caos de suas próprias querências e compõem hoje apenas uma totalização disforme de partículas amargas e beligerantes.


Portanto, o mais que se disser de mais um 25 de dezembro é subproduto reles da demagógica hipocrisia.


Mesmo assim, imaginando ser esta ainda a oportunidade de uma ceia em família, aproveito o ensejo para exortar a uma reflexão qualquer, qualquer coisa que permita lembrar o calvário de tantos outros filhos de Deus que nesta data santa ainda comem o pão que o diabo amassou

domingo, 11 de dezembro de 2011

Uma fumaça no fim do túnel

A tragédia da Covanca é um aviso para quem quer trocar a Perimetral por passagens subterrâneas


"O prolongamento do elevado da Perimetral dará ensejo a que se descortinem as fachadas leste e norte do imponente Mosteiro de São Bento com seu famoso botareu". – Lúcio Costa, o mais importante urbanista brasileiro, citado pelo engenheiro Emílio Ibrahim, que participou da obra do Elevado da Perimetral.


Todo o Brasil viu em tempo real imagens de uma tragédia que poderá se repetir outras vezes, como afirmam especialistas: um ônibus pegou fogo no túnel mais moderno da cidade do Rio de Janeiro, que foi totalmente tomado pela fumaça tóxica nos dois sentidos, levando pânico a milhares de pessoas que estavam em seu interior e paralisando boa parte da cidade: só por um milagre não morreu ninguém.

Foi um Deus nos acuda e só quem viveu o drama pessoalmente pode descrever o pânico que se estabeleceu: a fumaça densa se espalhava no meio da escuridão – isso às 4 da tarde no horário de verão:

No desespero, o designer Fabio Wojcikiewicz Almeida, uma das vítimas da nuvem de fumaça represada no túnel ainda tentou ultrapassar o veículo em chamas:

- Só que não dava para ver nada e quase atingi o ônibus que estava pegando fogo. Acabei batendo num carro mais à frente, e o meu veículo ficou preso. Não consegui abrir a porta do motorista, tive que sair pela do carona. Peguei a blusa, botei no rosto e comecei a andar grudado na parede.

Intoxicado e traumatizado, só foi socorrido à saída do túnel de 2.187 metros. E como outros, pode dizer que nasceu novamente.

Esta manchete é do jornal GLOBO... pra você ver

Sempre digo que Deus escreve certo por linhas tornas.

Neste exato momento, o jovem prefeito Eduardo Paes está intransigente em sua idéia fixa de usar uma grana preta do FGTS – liberado generosamente pelo governo federal – para derrubar o elevado da Perimetral, substituindo-o por uma rede de quatro túneis, o maior dos quais, o da Via Expressa, com 2.500 metros de extensão, e a 24 metros de profundidade
.Em nome de revitalizar a região do porto, o prefeito foi induzido a uma idéia de jerico: cortar ao meio a única via alternativa, confortável e segura, que liga a Zona Sul, às Norte, Oeste, Baixada e Ponte Niterói, passando ao largo do Centro, sem um único sinal e, portanto, sem cruzamento.

E essa demolição insana pela bagatela que já passa do bilhão e meio de reais, já que ele mudou de idéia para pior: antes, o estrago iria da Praça Mauá oo Viaduto do Gasômetro (3,5 km); agora, cismou de promover um bota - abaixo completo, começando pelo acsso do Aeroporto Santos Dumont, que não tem nada a ver com a miragem do Porto Maravilha, privando-nos agora de 5,5 km de uma obra erguida ao logo de 25 anos e por onde passam quase 100 mil veículos sem o risco de uma tragédia como a acontecida na quinta-feira passada e ainda com o deleite da contemplação vista do alto da Baía da Guanabara e de parte do Rio antigo.

O que aconteceu no Túnel da Covanca foi um recado. No mundo inteiro só se discute a abertura de túneis à falta de outras soluções. É sempre uma obra CARÍSSIMA, de custo-benefício discutível. Na maioria dos casos – isso não se diz – um túnel custa três vezes mais do que um elevado. E aí a nossa vaca é que vai pro brejo.

No caso dos projetos do Porto Maravilha, a maioria dos trechos a serem cavados é, como já disse, em áreas de aterro tomadas ao mar. E ainda que esse novo projeto viário tivesse aspecto positivo, ele podia conviver com o Elevado:  como lembrou o professor Álvaro Queiroz Bastos, “a Perimetral é o cordão umbilical que une o Estado do Rio ao município. Milhares de cariocas venderam seus imóveis, por causa da violência e foram morar do ouro lado da ponte, em Itapu, Itapuaçu e etc . Eles todos os dia utilizam a ponte Rio Niterói para virem trabalhar no Rio e Zona sul. Com o fim da perimetral o trânsito da zona oeste e Niterói vai afunilar e acabar com o centro Os engarrafamentos serão terríveis”.

Não sei se o susto do Túnel da Linha Amarela terá algum peso nas decisões dos governantes e na compreensão da população, que precisa se mobilizar o quanto antes, porque a gente nunca sabe o que leva um governo a aventurar-se numa obra de destruição,  temerária e antipática: as finanças do Rio, mesmo com as injeções do governo federal, não estão com essa bola toda e não podem se dar ao luxo de destinar uma fortuna para derrubar uma via expressa de grande utilidade só porque ela é vista como feia por quem não tem a menor noção do que seja administrar uma cidade com as características topográficas do Rio de Janeiro.

Que essa fumaceira que saiu do túnel sirva como aquele antigo sistema de aviso que foi tão usado no passado. Muitas vezes, aliás, ferramentas da antiga funcionam com muito mais precisão e consistência.

Que essas linhas tortas de Deus ajudem a evitar a caríssima demolição desnecessária do Elevado da Perimetral.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

A verdade que precisa ser revelada e que pode influir no existencial das gerações hoje alienadas pelo sistema

No dia em que cruzei com um torturador, vi-me de volta
 aos porões da ditadura, 34 anos antes


Dilma numa auditoria militar após sessões de tortura.
  Os auditores milirares escondem o rosto.
Até onde ela pode
 conduzir a Comissão da Verdade?



"No Brasil, pelo menos por enquanto, a ditadura venceu no propósito de fazer da tortura um tema de natureza pessoal do torturado. Uma questão individual e não um tema político de interesse de toda a sociedade”.
Vladimir Saflate, professor e escritor

Lembro-me como se fosse hoje: estava distraído à cata de uma maleta numa loja da Rua da Carioca quando uma estranha figura de pouco mais de um metro e sessenta se aproximou. Estava todo de branco, camisa de mangas compridas e uma espessa barba com que pretendia mascarar o rosto pinicado de protuberâncias avermelhadas.

Os óculos eram os mesmos de fundo de garrafa, que lhe valeram o apelido de “Doutor Silvana”, entre nós, jovens vítimas de seu sadismo incontrolável. Pôs-se na minha frente, tentando repetir o terror d’outrora e me chamou pelo nome completo:

- Sim. Sou eu mesmo.

- Você sabe com quem está falando? – ensaiou um discreto relaxamento labial.

- Sei, sim, o Solimar.

De certa forma, ele desconcertou-se. Aquele março de 2003 distava 34 anos daqueles dias de horror, em que ele se destacava como o mais tenebroso dos torturadores do Cenimar, o serviço secreto da Marinha a que se incorporara, egresso do velho DOPS carioca, delegacia dedicada com zelo e afinco ao massacre diário de todo e qualquer suspeito de adversário da ditadura.

- Se você sabe que eu sou o Solimar, por que fala comigo?

- Porque não tenho alternativa.

Eu mesmo não saberia responder com a devida tranquilidade às perguntas daquele que durante muitos anos povoou meus pesadelos, predecessores da minha insônia de hoje.

O “doutor Cláudio”, como se alcunhava entre os criminosos de uma repressão insana e impulsionada por um ódio nada profissional, já não era mais nada. Estava com aquela barba toda, a cabeleireira branca e um esparadrapo preso a uma das faces na faina de passar despercebido.

O carrasco arrogante de 1969 era em 2003 um homem medroso, que assimilara todas as paranóias de suas centenas de vítimas. Talvez, nem fosse de andar muito pela rua à luz do dia. Mas naquele instante defrontava-se com alguém que pusera várias vezes inteiramente despido no meio de outros comparsas, submetera a choques elétricos, à palmatória, ao “telefone” e ao “pau-de-arara”, que humilhara por 15 dias seguidos, tentando suprimir-lhe qualquer resíduo de dignidade e auto-estima.


- Como o mundo é pequeno – comentei, contendo-me até pela compreensão política de que aquele verme era apenas um “soldado” da estrutura mortífera que uma meia dúzia de generais, almirantes e brigadeiros comandava por controle remeto, decidindo sobre as vidas de cada um, sob a proteção da censura e da cumplicidade da quase totalidade da mídia e de um empresariado pródigo em fornecer recursos para os porões da ditadura.
- Mas você tinha culpa no cartório – tentou justificar-se.

Não queria prolongar aquele diálogo macabro, não tinha obrigação de falar com o monstro, mas não sabia como esquivar-me. Para falar a verdade, as imagens da tortura em que muitas vezes desejei a própria morte para safar-me de tanta dor afetavam e imobilizavam meu cérebro nervoso.

Fiquei mais tenso ainda quando ele me perguntou:

- Se você agora é vereador, não tem segurança, não anda acompanhado?

Emudeci. Por que aquela pergunta? Estaria o torturador imaginando eliminar um arquivo capaz de expô-lo aos próprios descendentes como um dos “assassino da Ilha das Flores”?

Ele insistiu.

- Você escapou de morrer por um triz. Já tinha recebido ordens para mandá-lo para o inferno, já que você não colaborava e acabamos sem ter como reunir provas sobre seu envolvimento com o MR-8 e o Al Fatah. Ainda por cima, você acabou absolvido na Auditoria da Marinha, uma afronta ao nosso trabalho.

Continuei calado, inerte, sem conseguir dar um passo. Sem animar-me a balbuciar, pelo menos.

- Mas não se preocupe. O que passou, passou. Agora, estamos todos juntos. Eu até votei na esquerda – riu – em você, não, mas dei meu voto a um ex-subversivo que faz sucesso entre a garotada de hoje, que é muito mais light do que daquela época.

Lembrei-me da primeira porrada, naquele 2 de julho de 1969 (trecho do meu livro Confissões de um Incoformista”:


— Quem te mandou sentar?
— O torturador Solimar, codinome Dr. Cláudio, acertou-me um tapa no meio da cara. A porrada me fez ver estrelinhas. Mijei-me na hora. Quem mandara sair apressado da cela, na ilusão de pegar o caminho de casa? Um pouco mais alto do que eu, óculos de garrafa e uns cornos que lembravam o Dr. Silvana, o torturador bufava, transpirando ódio e terror. Agarrou-me pelo pescoço e pôs-me de pé. Outra porrada me jogou ao chão. Sérgio, pernambucano grosseiro que vestia uma camisa branca de SPC – soldado de primeira classe – dos Fuzileiros Navais, comemorou com um sorriso de canto de boca. Estava começando uma sessão de tortura na casa 9 da Ilha das Flores. Quarta-feira, 2 de julho de 1969.
Enquanto o sargento Antunes espremia meu peito contra o chão, Solimar fez-me cheirar o chulé do seu pé:
— Qual é a cor da minha meia, seu filho da puta?
Que pergunta mais insólita, pensei. O que tem a ver a meia com as calças?
— Qual é a cor da meia do pé direito? – especificou. Já que insistia tanto, respondi:
— Azul –um azul piscina, diria.
— E do esquerdo?
— Do esquerdo?
— Do pé esquerdo, seu veado.
— Certamente, azul também.
A resposta o enlouqueceu.
— Não, seu puto, do pé esquerdo é azul marinho, é mais escura.
Percebi que tinha um bom estoque de palavrões, mas não consegui atinar para sua insistência sobre o colorido de meias tão fedorentas. Afinal, não podia admitir que tinha levado aquelas porradas todas só para falar de meias azuis e suas variáveis.

Naquele encontro interminável esqueci até da maleta que ia comprar. Olhei para o relógio e disse que estava atrasado. O torturador não queria me lugar. Parecia ter renascido nele toda arrogância e todo o sadismo que marcaram sua personalidade nos porões do Cenimar.

E eu, que já exercia o terceiro mandato de vereador aqui no Rio de Janeiro, sem saber o que fazer. Olhei para a sua cintura e vi claramente que tinha um revólver. Provavelmente para reagir a alguma outra vítima mais rancorosa.

Consegui desvencilhar-me do Solimar, enquanto contemplava o vai-e-vem da Carioca, pessoas acotovelando-se nas pastelarias dos coreanos, e alguns mais ligados numa música sertaneja que um bar tocava.

Não tinham a menor idéia de que um monstro passeava por ali, mesmo disfarçado, tentado exorcizar seus crimes ou alimentar-se de suas lembranças.

Conto esse episódio hoje na esperança de que os brasileiros sejam finalmente apresentados à verdade. Que essa comissão em formação não seja apenas uma peça caricata, condicionada por meias verdades.

Talvez quando tudo vier à luz do dia, quando os horrores dos nossos cárceres forem revelados, doa a quem doer, talvez seja outra a reação de alguém como eu diante de um algoz perverso e canalha.

Talvez essa sociedade envolta numa perigosa cortina de fumaça abra os olhos e comece a atuar politicamente, ao invés de ficar à margem criminalizando a vida pública,  enquanto se pode fazer alguma coisa em nome desse arremedo de democracia.

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Quem sou eu

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Cearense, nascido em 1943, Pedro Porfírio chegou ao Rio sozinho, aos 16 anos, indo ocupar o cargo de secretário da UBES. Aos 17, fez-se jornalista como repórter da ÚLTIMA HORA do Rio de Janeiro. Aos 18, já era o editor da RÁDIO HAVANA, em Cuba. Aos 20, de volta ao Brasil, dirigia o semanário das Ligas Camponesas. Passou pelo CORREIO DA MANHÃ, TV TUPI e, aos 26 anos, era Chefe de Redação da TRIBUNA DA IMPRENSA. Preso e torturado em 1969, depois do AI-5, permaneceu encarcerado um ano e meio. Em liberdade, enfrentou uma cruel discriminação. Tornou-se teatrólogo, com 8 peças encenadas e ganhou o Troféu Mambembe, por sua obra O BOM BURGUÊS. Seu último texto encenado, em 1982, foi BRASIL, MAME-O OU DEIXE-O. É autor de 7 livros, entre estes O PODER DA RUA, O ASSASSINO DAS SEXTAS-FEIRAS, SEM e CONFISSÕES DE UM INCONFORMISTA. Com a redemocratização e assumiu postos no governo do RJ: 1983, Coordenador das RA da Zona Norte: 1985 e em 1989, Secretário de Desenvolvimento Social; 1986, Presidente do Conselho de Contribuintes. Em 1992 foi eleito vereador na cidade do Rio de Janeiro pela primeira vez. Exerceu o mandato ainda nas legislaturas seguintes, até 2007.